Isadora VasconcelosA água cai em lâminas quentes sobre meus ombros, escorrendo pela minha nuca como dedos impacientes que tentam me moldar, inútil, claro. Nada molda alguém como eu. Encosto a testa no azulejo frio, sentindo o contraste me despertar, me afiar, me lapidar no que sempre fui: perigo puro envolto em pele.Fernando ainda está largado na cama, entre lençóis que não me pertencem, respirando como um animal satisfeito depois de devorar o que queria. Ele acha que venceu alguma coisa. Homens sempre acham. Ridículos. O apartamento alugado, limpo e anônimo, serve para isso mesmo: para que eu possa pecar sem deixar rastros. Cenário estéril para que o meu caos brilhe.Abro mais o registro, gosto da pressão. Sinto a pele vibrar e penso no telefone. Deveria ligar para minha mãe. Sempre deveria, somos do mesmo material, como areias movediças vestidas de seda.Amanda atende minhas ligações como quem segura um bisturi: firme, pontual, pronta para cortar onde dói mais. O perfume de orquíde
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