Capítulo 1

Melissa

Ergui os olhos do meu fichário rabiscado, como sempre, ela estava atrasada. Conseguia escutar trechos de algumas conversas, mas como de costume eu ignorava cada um dos tópicos. Fulano que traiu a ciclana, beltrano que foi expulso por uso de drogas, alguém que tinha “feito favores” ao professor X para não reprovar.

A melhor maneira de não me envolver era ignorar, e eu era muito boa em ignorar.

Tinha sido um longo e cansativo caminho até chegar ali, aquela nem era minha primeira escolha de faculdade, mas quando tudo tinha dado errado – como se algo desse certo para mim – eu tinha escolhido o que era mais prático, solido e certo. Eu sempre escolhia o caminho de menor resistência, a física dizia que era o mais fácil, quem era eu para ir contra uma lei da física?

Estava no terceiro semestre de administração, não era o curso mais empolgante da face da Terra, mas garantiria um trabalho honesto quando eu terminasse.

A professora de contabilidade entrou na sala usando óculos escuros e se quer se deu a trabalho de dar “bom dia” a sala. Como era do seu feitio ela rabiscou o nome de três livros que deveriamos ler nos próximos dias, quinze para ser mais exata, e fazer um resumo de cada um dos livros mais uma lista de exercícios que deveríamos entregar para próxima aula.

Depois das “ordens dadas” ela se sentou em sua mesa e começou a digitar furiosamente em seu laptop, a sala se dispersou novamente. Juntei meu material, dando o dia por acabado, já que a única aula do dia era a dela, e fui me refugiar na biblioteca.

Peguei os livros que precisava e resolvi começar pelos exercícios. Estava quase na metade quando notei que alguém se sentava a minha frente.

Apesar de se quer olhar para a pessoa, propositalmente, eu já me preparei para o que vinha a seguir.

— Você não me ligou. – disse uma voz magoada masculina.

— Não prometi que ligaria. – Aliás, não prometi nada.

— Tem razão, eu só... Depois de tudo.

Respirei fundo. Eu tinha algumas regras que me livravam da maioria dos inconvenientes, como aquele sentado diante de mim. Olhei o rapaz diante de mim, que devo admitir era bonito.

— Bruno, foi só uma ficada. Foi casual, eu gostei, você gostou e agora acabou, fim de história.

— Mas eu gosto de você.

Já tinha escutado aquilo antes, mas sabia que na maioria das vezes, os caras só eram tão grudentos e insistentes por que eu não ligava para eles, não me arrastava aos seus pés, não confessava meu amor.

— Não. Você não gosta de mim.

— Claro que eu...

— Escuta Bruno eu te disse como as coisas seriam, e você aceitou. Foi bom em quanto durou, mas acabou.

Eu matinha tudo o menos pessoal possível, e nunca, em nenhuma hipótese deixava que meus “encontros” casuais deixassem de ser exatamente aquilo. Sem sentimentos, sem partilhar segredos, sem envolvimento.

Para alguns garotos, normalmente no início, aquilo era o paraíso, mas quando eu declarava que tinha chegado ao fim, normalmente depois de duas ou três semanas, alguns surtavam feito Bruno.

Garotos gostavam de controlar e nunca de serem controlados, adoravam partir corações, mas não admitiam que os deles fossem partidos, gostavam de esnobar as garotas mas jamais ser esnobados. E quando provavam de seu próprio veneno eles ficavam furiosos.

Para ser honesta, Bruno era um dos poucos caras direitos e legais de verdade que eu já tinha conhecido, e não estava satisfeita de magoa-lo, mas era melhor para ambos que fosse assim.

— Não! – ele se levantou chamando a atenção de todos – Melissa eu realmente gosto de você, eu...

— Chega Bruno, acabou. Não vou voltar atrás, não tem segunda chance.

Juntei minhas coisas e enfiei na mochila sem muito cuidado, me afastando o mais rápido que conseguia, não queria chamar a atenção.

— Eu deveria saber! – ele berrou para quem quisesse ouvir – Todos me avisaram que você era assim, que não tinha sentimentos, que era fria! Não quis acreditar.

Cala a boca seu idiota! Continuei a me afastar bem rápido.

— Você não vale nada Melissa!

Corri para bem longe, indo para casa sem parar para pensar.

Eu não namorava, nunca. Namorar envolvia sentimento, que envolvia partilhar segredos e medos, e eu não queria ficar vulnerável para ninguém.

Apenas os idiotas se apaixonavam, confiavam, colocavam todas as suas expectativas sobre outra pessoa.

Sabia como um coração partido ficava, convivia com alguém que tinha sido abandonado pelo amor da sua vida, todos os dias. Meu pai.

Quando eu era pequena, seis anos, minha mãe tinha nos abandonado sem olhar para trás. Sem carta de despedida ou desculpas, simplesmente foi embora levando alguns pertences e deixando um homem destruído para trás e uma criança.

Papai caiu em um espiral de álcool, brigas e desemprego. Fui arrastada com ele, e aprendi minha primeira lição sobre a vida.

Nunca me apaixonar ou confiar em ninguém.

Por isso eu preferia os “encontros casuais” e “ficadas ocasionais”, era melhor para todos os envolvidos.

Atravessei a cidade de metro e desci na estação de sempre, caminhei por dois quarteirões e cheguei a minha casa, um velho e desbotado apartamento, que ficava em um prédio antigo. Subi as escadas, já que o elevador estava sempre quebrado, e abri a porta.

Fui atingida pelo cheiro inconfundível de bebida alcoólica. Gemi.

Avaliei a sala que estava uma bagunça com latas de cerveja e garrafas de pinga barata por toda a parte. Eu tentava manter tudo minimamente ajeitado por ali, mas era impossível com meu pai lutando contra mim.

— Pai? – silencio respondeu de volta.

Fechei os olhos me jogando no sofá. Estava exausta de limpar as merdas dele, exausta de ser medida e taxada, exausta de estar sempre tentando concertar alguma coisa.

Queria uma vida simples, sem tantos problemas, julgamentos, sem ter que carregar um pai alcoólatra nas costas e dar conta de tudo sempre, sozinha. Estava muito cansada.

Depois de dar um jeito na casa, fazendo o melhor que podia antes de trabalhar, eu corri para tomar banho e pegar minhas coisas. Tudo estava perfeitamente organizado em minha bolsa então corri para o metrô e depois de algumas estações saltei.

Na rua mais conhecida de São Paulo, famosa pelos seus bares e a diversão noturna, na altura do número 1025 estava a boate mais movimentada da cidade.

A fachada em letras vermelhas com o nome nada chamativo de “Éden” e uma maça sugestiva ao lado, o lugar era o que tinha de melhor por ali. A fila era quilométrica, mas eu não precisava de senha para entrar, era VIP. Sorri para João Carlos e Olavo, dois homens enormes que fazia a segurança do local.

— Boa noite meninos!

— Como vai Melissa? – disse João Carlos comum sorriso amigável.

— Como sempre correndo.

Passei por baixo da fita de segurança, que impedia que as pessoas passassem sem autorização, e corri entrando na boate. As luzes piscavam em todas cores possíveis e imagináveis, na pista os corpos se moviam ao som da música que fazia meu coração vibrar e as paredes tremerem. As mesas de vidro estavam lotadas, a casa cheia como de costumes. Subi as escadas de uma parte privada, restrita para funcionários.

Entrei no camarim onde algumas garotas retocavam a maquiagem ou trocavam de roupa.

— Você está atrasada.

Sorri angelicalmente para o dono da voz.

— Uma estrela nunca está atrasada são todos que estão adiantados, um grande sábio me ensinou.

Ele fez uma careta mas piscou exibindo seus longos cílios postiços.

— O que aconteceu Melissa querida?

— O de sempre Jean Pierre.

Ele balançou a cabeça, mas não disse uma palavra. Me lembrava do exato dia em que Jean tinha me encontrado, ou me revelado, como ele preferia. No início quando ele me fez a proposta de emprego pensei seriamente em socar seu queixo fino e entortar seu nariz arrebitado, mas escutei tudo o que ele tinha a dizer, e ele salvou minha vida naquele dia.

Eu era uma dançarina da Éden há quase um ano, e por mais que me sentisse constrangida no início, passei a gostar do trabalho aos poucos. Não era como eu sonhava em usar minhas habilidades de dança, mas era o que eu tinha e estava usando muito bem obrigada.

Jean era maquiador e coreografo da maioria das outras garotas, que ao contrário de mim, dançava todos os dias, espalhadas pela boate em pontos estratégicos. Tinham dois homens que também dançavam, mas assim como eu, eles dançavam no palco e em dias “especiais”.

Eu tinha feito duas exigências para me apresentar duas vezes na semana, primeira era proteger minha identidade e segunda eu fazia minha coreografia. Fui vista como desaforada e arrogante, mas assim que minhas apresentações começaram e consegui atenções com minhas coreografias, nunca mais tive problemas. Passei a ser respeitada e vista como “igual” por todos, bem quase todos.

— Olha se não é a estrelinha.

Lancei um olhar debochado na direção de Vitoria, que era bem mais velha do que eu, e parecia ter um ódio mortal por mim. Os boatos diziam que ela me invejava, mas preferia não acreditar nisso. Não era nada a favor de que mulheres se odiassem, e não gostava nenhum um pouco que nos colocassem umas contra as outras.

— Não sou melhor do que ninguém.

— Então por que te deram um show só seu?

— Ela dança melhor e traz mais fregueses, aceita que dói menos Vicky.

A mulher fez uma careta e saiu batendo o pé.

— Já disse para parar de dizer essas coisas.

— E eu para você parar de defender essa megera, ela quer puxar o seu tapete.

— Eu já te falei...

— Que as mulheres são oprimidas pelo patriarcado que as obriga a competirem umas contra as outras e a se enxergarem como inimigas, sim disse.

— Vitoria é só um produto de uma sociedade machista.

— Nem todas tem salvação querida.

Abri minha boca pronta a protestar.

— Agora se arrume, antes que verdadeira megera desse lugar apareça.

Eu ri e comecei a me arrumar.

Sabia que se todos que eu conhecia soubessem o que eu fazia para sobreviver teria um novo rotulo a minha espera. Era injusto que os garotos pudessem fazer o que quisessem e permanecessem bem, e nós, as garotas tivéssemos que viver regidas por regras tão estupidas e absurdas que diziam que deveríamos ser sempre santas e puras, sem desvios de conduta, de preferência casando com o primeiro namorado e definitivamente sem relacionamentos casuais. Se colocássemos roupas que eles julgavam curtas ou provocantes, éramos fáceis demais. E se ousássemos tomar nossas vidas em nossas mãos e dar de ombros as opiniões alheias teríamos que pagar um alto preço, o julgamento eterno.

Se imaginassem que eu dançava em uma boate seria classificado como “vagabunda” “prostituta” e outros adjetivos adoráveis. Mesmo que a única coisa que eu de fato fazia fosse dançar, ninguém se importaria.

Por isso meu segredo tinha que continuar daquele jeito.

Me olhei no espelho aprovando minha maquiagem, coloquei minha máscara, ela cobria meus olhos e acimado do meu nariz, eu usava um macacão justo preto, que marcava cada curva do meu corpo.

Fui até as coxias, aguardando que anunciassem meu número. Meu coração batia acelerado, sempre me sentia daquele jeito meio nervosa, meio ansiosa. Na expectativa.

O som foi diminuindo gradualmente.

— Como todas as terças tenho a honra de anunciar ela: a princesa da sedução, a feiticeira da luxuria... Scarlet.

Ouvi gritos e palmas. Caminhei calmamente até o centro do palco, as luzes se fixaram em mim, dei as costas ao público e aguardei minha deixa.

A música começou vibrante, como eu gostava, movi meus quadris arrancando alguns gritos da multidão, estampei minha melhor cara de sedutora e virei na direção da plateia, movendo meu corpo no ritmo da música. Deixei que o som me envolvesse e me entreguei a dança, mãos, braços e pernas trabalhando em conjunto em uma dança provocante e sedutora.

Girei de um lado a outro, sempre rebolando e sorrindo, não olhava mais do que alguns segundos para o mar de rostos, voltei ao centro do palco. Fiz um espacate, causando uma salva de palmas e gritos.

Levantei com um sorriso nos lábios, ainda movendo meus quadris e dançando minha coreografia. A música estava quase no fim, então quando a última batida foi ouvida na boate dei as costas ao público e as luzes se apagaram.

Corri para a coxia e respirei exausta pela dança.

Os assovios, gritos e palmas eram ensurdecedores.

O relógio marcava duas horas da manhã quando finalmente tomei um longo e relaxante banho e desabei na cama, apagando logo em seguida.

Algumas poucas horas depois o alarme do meu celular apitou, gemi contra o travesseiro.

Essa era a minha vida, gostasse dela ou não.

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