CAPÍTULO II

      

 

    Ao sentir  a carruagem diminuir a velocidade e parar, esticou-se para dar alívio aos músculos doloridos e viu que o sol já estava mais fraco ao entardecer.                     

Ouviu cavalos se aproximando a galope e gritos do cocheiro que agitava as rédeas tentando aumentar a velocidade dos cavalos. Alguma coisa parecia estar errada.

Colocou a cabeça para fora da janela, os cavalos levantavam muita poeira  e vinham pela estrada rapidamente em direção a eles. Apertou os olhos e conseguiu ver o primeiro cavaleiro, que estava com o chapéu enterrado na cabeça e uma barba longa  e escura lhe encobria o restante do rosto. Arregalou os olhos novamente, quando ouviu um estampido. Tiro! Estavam atirando contra a carruagem.

Seu coração disparou e pareceu  subir para a boca, tal a sensação de sufocamento que Beatrice sentiu. Estavam sendo assaltados, concluiu apavorada, os malfeitores continuavam atirando. Tremendo inteira, resolveu que tinha de sair dali o mais rápido possível, não podia deixar que aqueles marginais a apanhassem. Abriu a porta da carruagem e colocou as pernas para fora,  quando seus pés tocaram o chão seus joelhos dobraram,  agarrou-se à porta para não cair. Olhando para a frente da carruagem, viu quando o cocheiro pulou da boléia e saiu em disparada para dentro da mata. Tinha que correr, precisava  escapar também.

Corra! Corra! Sua mente gritava para que seus músculos entorpecidos pelo terror, reagissem.

Com esforço obrigou-se a virar e correr, seus pés calçados com sapatos delicados de cetim, tropeçavam nas pedras soltas da estrada. O pânico a fazia correr e mesmo sentindo que o fôlego lhe faltava,  obrigava-se a não parar. Tropeçou em uma pedra e caiu de joelhos, quando conseguiu se levantar, puxou as saias acima dos joelhos esfolados e voltou a correr em disparada.

Já não agüentava mais, seu pulmão parecia que iria estourar. Quando viu um cavaleiro sair da floresta e vir em sua direção seu pânico aumentou, estava perdida!

Virou para outra direção tentando fugir do cavaleiro, caiu de novo e viu que ele manobrava o cavalo com extrema destreza para vir por trás dela.

Com dificuldade Beatrice foi tratando de pôr-se de pé, decidida a correr feito louca.  Antes que conseguisse dar o primeiro passo, o assaltante inclinou-se na sela e agarrou-a sem o menor esforço, colocando-a sobre o cavalo à sua frente. Em vão ela se debateu, chutou, mordeu-lhe a mão e gritou, não era páreo para a força de seu captor. Por fim, com as lágrimas correndo em abundância pelo rosto sujo de terra, viu-se obrigada a   sujeitar-se à prisão daqueles braços fortes que a apertavam como aço.

– Por favor eu lhe suplico – ela lutava para tentar falar com coerência, apesar do pânico. – Não me machuque, fique com minha bagagem mas me solte.

Nesse momento, acima do bater descompassado de seu coração pensou ouvir os gritos do resto do bando e os cascos dos cavalos em galope desenfreado.

Seu captor entrou desembestado pela floresta adentro, saindo do curso da estrada. Ouvia tiros atrás deles.    

Será que ele iria raptá-la, enquanto os outros cuidavam de roubar a carruagem? – pensou apavorada.

Desesperada, não sabia o que pensar . O que aquele homem terrível faria com ela? Não gostaria nem de pensar nas coisas terríveis que já ouvira contar sobre mulheres que eram raptadas por marginais. Fechou os olhos com força e pensou.  

Que destino cruel o dela, parecia estar fadada a passar de desgraça em desgraça. Quanto mais buscava a felicidade, mais ela lhe fugia e mais tragédias lhe aconteciam. Talvez esta fosse a última, provavelmente não sairia viva desta vez. Depois de abusar dela, provavelmente ele a mataria e jogaria seu corpo no mato. Ninguém nunca saberia o fim terrível da vida de Beatrice Stanford, ela iria ser dada como desaparecida. Mais sofrimento para seus pais, já lhes causara tanta dor com seu temperamento forte e impulsivo e agora não teria nem a oportunidade de lhes pedir desculpas e dizer o quanto os amava. Oh, Deus! Faça com que eles possam me desculpar por tudo.

Enquanto quilômetros eram percorridos, Beatrice lutava para manter-se rígida e empertigada sobre o cavalo. Nem por um instante deixava de ter consciência dos braços fortes que a envolviam, nem das mãos vigorosas que seguravam as rédeas e se encostavam em sua barriga.

O desconforto era imenso, agravado pelo espartilho que lhe cutucava as costelas e apertava sua cintura, fazendo com que ela tivesse dificuldade em respirar.  Também pelo fato de ser a primeira vez que cavalgava à maneira masculina, com as saias levantadas acima dos joelhos expondo suas pernas de forma indecente. 

E ainda pior! Podia sentir as coxas musculosas do homem pressionadas contra as suas. Era tudo tão ofensivo que seu mal-estar e tensão só faziam crescer. Suas costas doíam como se mil facas lhe fossem cravadas. Se permitisse ao corpo relaxar, suas costas acabariam apoiadas no peito dele que estava vestido apenas com uma camisa branca totalmente aberta. O homem era um indecente.

Perdida em seu sofrimento, Beatrice custou a se dar conta de que o cavalo havia adotado um passo firme e regular. Confusa olhou em torno, encontravam-se em uma densa floresta. Virou o rosto e olhou para seu captor tentando enxergar-lhe as feições, a escuridão da floresta não ajudava em nada. O homem parecia moreno, isto ela já havia notado pela cor de suas mãos. A barba negra por fazer, acentuava as linhas fortes e poderosas do queixo e do maxilar, sua boca  rigidamente estreitada formava uma linha dura, aprofundando os vincos de cada lado da boca. A linha aristocrática do nariz repetia-se nas maçãs do rosto.

Cercados por cílios longos e espessos, os olhos pareciam negros, mas um brilho esverdeado sugeria que não. Os olhos moviam-se incansáveis pelo terreno , numa prontidão alerta que não deixava transparecer nenhuma emoção. Sobrancelhas negras e grossas, masculinamente arqueadas, marcavam o começo da testa que entrava por baixo do chapéu manchado de pó.

Era um rosto imperioso, agressivamente másculo e com feições bem marcadas. Chamava a atenção pela expressão de arrogância e domínio. Pela aparência devia ser o chefe do bando. Distante e sério, era um homem a ser temido. 

A longa distância percorrida, além da viagem de navio e toda a tensão pela qual passara, começavam a cobrar seu preço. Beatrice mal conseguia manter as olhos abertos, seu corpo oscilava e se encostava no peito forte e musculoso do bandido. O cheiro másculo e almiscarado lhe atordoava os sentidos, parecia drogar o seu cérebro fatigado e anular todas as suas defesas. Sem  conseguir se controlar, suas pálpebras  baixaram e fecharam.

Algo tocou-lhe a face. Uma voz baixa, rouca e aveludada murmurava palavras ininteligíveis. Os cílios estremeceram e  abriram devagar, lutando contra a névoa de sono que nublava sua visão.

O sol ainda não se escondera totalmente, naquela parte da floresta onde as árvores eram mais espaçadas e a vegetação rasteira predominava. Algumas vezes bandos de pássaros fugiam em revoada, assustados pela intrusão em seus domínios. O ar enchia-se com o ruflo das asas e a espetacular visão das graciosas aves.

Como a noite ainda não caíra, devia ter passado pouco tempo – pensou. A exaustão e o pânico levaram-na a pensar que uma eternidade transcorrera desde o assalto. 

Estava  apoiada contra algo sólido e quente, ou seria alguém? Suas pálpebras pesadas voltaram a se fechar e Beatrice sentiu que o homem começou a ajeitar sua posição de tal modo que o ombro dela ficasse sob sua axila e a cabeça apoiada contra a solidez do seu ombro. Nesta posição Beatrice não precisava fazer nenhum esforço, os braços e o peito dele apoiavam-na completamente. Quando o cavalo parou,  obrigou-se a abrir os olhos.

Fitou os dedos longos e morenos que seguravam o seu braço. Ao se dar conta de onde estava, o apoio lhe foi tirado e seus músculos rijos e doloridos reclamaram reagindo devagar, tentava manter o equilíbrio enquanto ele desmontava e estendia as mãos para descê-la do cavalo.

Ao ser colocada

no chão, seus joelhos dobraram, não suportando seu próprio peso, mas as mãos que a seguravam pela cintura evitaram que ela fosse ao chão. Beatrice mal conseguia manter os olhos abertos, uma letargia tomava conta de seus membros, fazendo com que ela parecesse uma boneca de pano. Seu corpo oscilou para dentro dos braços que se estenderam para apanhá-la.

Enquanto era carregada nos braços do bandido, distraidamente notou que mais pessoas vinham da casa. Meio atordoada ouvia as palavras ditas em um idioma que ela não conhecia.

Os braços que sustentavam seu corpo, lhe pareciam confortáveis e macios. Não queria abrir os olhos, não queria encarar a realidade dos fatos. Estava muito cansada.

 A palavra cansaço, seria pouco para exprimir o estado em que se encontrava. Queria esquecer! Esquecer que estava viva, esquecer de si mesma...

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