Capítulo Cinco

LOUISE ALBUQUERQUE

— Você não tem medo de morrer, Louise? – Marcelo esbravejou no mesmo instante que segurou meu braço esquerdo, forçando o meu corpo a girar para encará-lo.

Ele dá dois passos para frente e seu semblante é de puro ódio como se realmente quisesse fazer mal a mim, o que me assustou, porque era a primeira vez que o via desse jeito.

— Demorou, mas o que a minha mãe sempre disse que aconteceria, aconteceu agora. – Um sorriso de decepção se formou nos meus lábios.

— O quê? Eu não posso ficar puto e te chamar de vagabunda?

— Não estou falando disso, meu querido. Quantas vezes te xinguei de coisas piores quando você errava? Isso é normal para mim.

— Então é o quê?

— Você quer me bater.

— Eu jamais te bateria. – Ele soltou o meu braço e se afastou. — Só quero que você escute a minha explicação e o motivo real para eu não te querer perto daquele idiota do Cigarro e não fuja de mim como fez agora.

Olho ao redor e vejo dois seguranças da universidade prontos para me defender se o meu ex namorado tentar algo e isso me deixa mais tranquila.

— Desculpa, mas eu não quero te ouvir. Cansei das suas mentiras, desculpinhas e especialmente, da sua manipulação psicológica comigo. Me deixa seguir a minha vida, por favor.

Pego o meu celular, destravo a tela e mando mensagem para o meu pai pedindo ajuda. Conheço bem o Marcelo e sei que ele pode surtar por eu estar querendo terminar de uma vez por todas.

— Dois anos de namoro e você vai me resumir a uma traição em um momento de fraqueza? – Seus olhos marejam e eu me sinto culpada por estar dando um fim ao nosso relacionamento.

— Sinto muito, Marcelo. Eu juro que tentei esquecer, mas não consigo. Todas as vezes que te encontro, eu lembro dos dois aos beijos naquele bloco de carnaval. Eu não consigo te perdoar.

— O que você quer de mim? – Ele questionou nervoso. — Me fala como eu posso consertar isso, amor. Me fala o que você quer.

— Acabou.

Senti outra tontura e o Marcelo me segurou, não deixando de aproveitar o momento de fraqueza para me abraçar.

— Vamos comer alguma coisa? – Sua mão alisa minhas costas, me causando um leve tesão.

— Eu não quero transar.

— Tudo bem. Só quero que você coma para não ficar desmaiando por aí.

— Você vai se aproveitar de mim.

— Nunca te obriguei a nada. Você que é viciada na minha rola. – Ele brinca, me fazendo soltar uma gargalhada nervosa.

No final, aceitei o convite do Marcelo e avisei ao meu pai que iria chegar mais tarde que o habitual, então fomos para a minha lanchonete favorita e durante o caminho optamos pelo silêncio.

Não estou a fim de conversar com ninguém, apenas quero comer e ir para a casa descansar.

— Chegamos. – Marcelo avisa assim que para o carro diante da lanchonete.

Saí do carro rapidamente e fui em direção a lanchonete sem esperar por ele.

— Pra onde você vai com tanta pressa? Não esquece que sou eu que vou pagar o lanche.

— Óbvio que vai, cara. – Viro minha cabeça ligeiramente para trás e completo: — Olha bem para a minha cara e ver se eu sou alguma otária que vai gastar dinheiro tendo um macho ao lado?

— As feministas enlouqueceriam ao ouvir isso.

— Por mim, nem feministas existiam. – Dou de ombros.

Escolhemos uma mesa, sentamos um na frente do outro e logo uma garçonete muito simpática nos trouxe dois cardápios com opções de combos com lanches e pratos feitos.

— Nunca entendi qual teu problema com o feminismo. – Ele fala sem tirar os olhos das opções de pratos.

— Birra! – Rebato com sinceridade.

— Como assim?

— Há alguns anos me envolvi em uma treta no Twitter por causa de uma disputa ridícula entre fãs da One Direction e do Justin Bieber, então fizeram um exposed tour com todas as beliebers e no meu caso, ficaram zombando do meu corpo por eu estar acima do peso.

— Ainda não entendi o que isso tem a ver com feminismo.

— Todas as envolvidas na exposição eram feministas.

— Sinto muito, mas você tem que ver...

— Eu não tenho que ver nada. – O interrompo rispidamente. — Eu quase morri depois dos hates que recebi, Marcelo. Meu transtorno alimentar, minha fobia social e toda merda de ser humano que sou hoje é por culpa delas.

— Não vou te forçar a escutar meu ponto de vista, porém espero que um dia você consiga enxergar que o movimento feminista é importante para caralho em um país misógino como o nosso, principalmente para as mulheres que nasceram na favela.

— Se é tão importante para mulher negra e pobre, por que a maioria das feministas que tomam conta da mídia são brancas e ricas?

— Então, eu estou dizendo que o movimento feminista é importante e  não que ele não tenha falhas, afinal quem faz parte dele são pessoas e seres humanos erram.

— Tipo você me trair?

— Não. O que eu fiz tem mais a ver com outro assunto do que pela minha criação machista.

— Que outro assunto, Marcelo?

— Vamos comer, amor? Preciso de você viva.

— Para continuar fodendo minha buceta? – Pergunto em tom de deboche.

— Ué, a gente terminou, certo?

— Claro, mas achei que você ia tentar transar comigo.

— Não. Se não for para namorar sério, seremos só amigos ou conhecidos.

— Por quê?

— Não vou conseguir te tratar como um objeto sexual. Isso iria bagunçar sua mente.

Esbocei um sorriso e ele me retribuiu.

Pedimos nossos lanches e mais um prato de comida, porque o meu ex namorado insistiu para eu comer algo mais saudável também.

Enquanto estávamos comendo, ficamos conversando sobre política e eu tenho que admitir que os argumentos do Marcelo são os melhores e todas as vezes que ele me conseguia me fazer pensar sobre determinado assunto, colocava uma semente esquerdista na minha mente.

Apesar de ter crescido em meio ao tráfico de drogas e mesmo sabendo da possibilidade dele estar envolvido até o pescoço em práticas ilegais, eu conseguia notar que não era o que ele queria para o seu futuro, inclusive iniciou um curso de graduação à distância ano passado e é um dos melhores alunos da sua turma.

No início, ele ficou um tanto quanto inseguro por já estar com 29 anos na época e se achar velho demais para entrar na faculdade, mas eu o incentivei a se matricular.

Nós temos os nossos problemas, entretanto o Marcelo nunca vai deixar de ser uma parte importante da minha vida. Querendo ou não, a nossa ligação é muito forte. Talvez só não fomos feitos para ter um relacionamento amoroso, talvez uma amizade seja bacana.

Só preciso controlar essa vontade de dar para ele três vezes ao dia.

— Eu não ia te bater naquela hora. – Marcelo muda de assunto repentinamente. — Tava enciumado pra porra, mas nunca iria te agredir e desculpa ter te chamado de vagabunda.

— Geralmente, eu gosto quando você me xinga. – Sorrio com malícia e ele me mostra o dedo do meio.

— Viu? É você que provoca.

Gargalho alto e tampo a minha boca ao observar que atraí os olhares dos outros clientes para mim.

— Você conhece o Felipe lá da faculdade? – Indago ao me recordar da pequena intromissão dele na minha conversa com o moreno.

— Ele é filho de um inimigo do meu pai.

— Meu Deus, o que o filho de um traficante faz na minha universidade?

— Por que o espanto? O teu colega de turma é filho de um político envolvido em um escândalo de corrupção e nunca te vi questionar o porquê ele estar lá.

— Descansa, militante. – Rodo os olhos.

— Vai revirar os olhos assim quando eu tiver metendo com força nessa bucetinha apertada.

Sinto minha vagina pulsar com a sua provocação e mordo meu lábio inferior tentando disfarçar o efeito da sua frase sobre mim.

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