O trajecto no carro de luxo era lento, o silêncio apenas interrompido pelas suas respirações entrelaçadas. Annie olhava para o ecrã escuro do tablet que Ian lhe tinha entregue. A imagem da sua mãe na suite privada continuava gravada na sua mente. Ele tinha movido os fios da sua vida com a mesma facilidade com que assinava contratos. Na verdade, sentia-se encurralada. Como se ele tivesse o controlo absoluto sobre ela.
— A partir de hoje, a minha casa será a tua casa —assinalou Ian, sem afastar a vista dos documentos—. As tuas coisas já não importam. Amanhã uma equipe encarregar-se-á de que tenhas um guarda-roupa adequado para a tua nova posição.
Annie apertou os punhos.
— Assim tão simples? Arranca-me da minha vida e espera que eu sorria? Está a passar-se! —reclamou e resmungou, mas presa de novo à imagem da sua mãe em boas mãos.
Ian olhou para ela. Os seus olhos de safira estavam cheios de frieza. Farto de que ela não compreendesse.
— Vou fingir que não ouvi as tuas queixas. Estou a ser bondoso contigo, deixa de estragar tudo —quase ordenou estendendo uma pasta e ela pegou nela resignada—. Este é o teu novo manual de vida. Lê com atenção. Convivência obrigatória, disponibilidade absoluta para eventos públicos, e zero relações sentimentais externas. Perante as câmaras e a minha família, és a mulher que amo. Um erro, uma hesitação, e o acordo é anulado. Fica claro?
Ela engoliu em seco, sentindo que as paredes do carro se fechavam. Assentiu lentamente. Já não havia volta atrás.
Meia hora depois, chegaram ao estacionamento subterrâneo. Ela sentia-se sequestrada. Realmente zangada com a atuação dele.
Uma vez no interior, o pessoal guiou-a até ao seu quarto, um espaço decorado com gosto, com uma cama king size que parecia devorá-la. Quando a porta se fechou, tudo o que conteve esmagou-a, uma carga desabou sobre ela. O esgotamento trouxe um medo que lhe gelava os ossos. E as lágrimas acumularam-se.
— Devo pensar na mamã, ela é o importante —convenceu-se a si mesma, embora exausta.
Pouco tempo depois bateram à porta.
— O que queres? —sussurrou abrindo um pouco.
Ele suspirou fundo.
— Deverias jantar —a sua voz grave perfurou-lhe a cabeça—. Ah, se te preocupam as tuas coisas, posso ser um pouco flexível a esse respeito, mas que estejas aqui é o apropriado para que tudo funcione. Quando sentires que é demasiado, pensa na tua mãe, se a amas tanto, sei que poderás fazer um sacrifício por ela.
Aquelas palavras atravessaram-na, para lá da realidade, ele parecia lembrar-lhe que não tinha escapatória.
Essa noite jantou algo leve, felizmente a sós numa enorme mesa; no entanto, não conseguiu dormir. As horas passaram marcadas pelo tique-taque do relógio. Perto das três da manhã, decidiu sair para o corredor em busca de água.
A cobertura estava na penumbra. Caminhou descalça pelo chão gélido que queimava os seus pés nulos, guiando-se pelas luzes de cortesia. Estava prestes a chegar à escadaria principal quando um som a fez deter-se.
Um sibilado rasposo. Um arfar.
O coração deu-lhe uma reviravolta. E, teve uma recordação nítida.
Annie correu em direção ao ruído, esquecendo o seu ressentimento. A porta do quarto principal estava entreaberta. Empurrou a madeira de carvalho e a cena que encontrou deixou-a sem fôlego.
Ian estava apoiado contra a parede, em calças de pijama, o seu torso nu brilhava pelo suor. Agarrava-se à garganta, apalpando desesperadamente a mesa de cabeceira. Estava a ter um ataque.
— Ian! —Annie encurtou a distância, esquecendo-se até de formalidades.
Toda a sua imagem de homem de pedra tinha desaparecido. Agora era um homem vulnerável. Annie não pensou, agiu. Ajoelhou-se junto da cama, abrindo a gaveta da mesa de cabeceira até que os seus dedos encontraram um inalador.
Pôs-se em pé à frente dele. Ian tremia, os seus olhos estavam escuros pelo pânico.
— Tenho-o. Olha para mim —emitiu assustada, sendo um monte de nervos—. Respira. Inala fundo, simplesmente faz isso.
Pressionou o inalador. Ian absorveu o medicamento com urgência. O seu peito subia e descia bruscamente. Instintivamente, Annie colocou uma mão sobre o peito dele, sentindo o seu coração galopar, e com a outra acariciou as suas costas para o acalmar.
— Isso mesmo, devagar... concentra-te na minha voz —murmurou, tão perto que os seus hálitos se uniam.
Lentamente, o silvo começou a ceder. Os seus pulmões voltaram a encher-se de ar, mas a tensão continuava no ambiente. Ian deixou cair a testa contra o ombro de Annie, exausto. Ela ficou rígida, sentindo o calor da pele dele. Não se afastou. A sua mão acariciou-lhe a nuca, oferecendo consolo.
Ian levantou a cabeça lentamente. Estavam tão perto que os seus narizes quase se roçavam. Os seus olhos já não tinham aquele brilho calculador; agora olhavam-na com intensidade, como se algo queimasse. O seu olhar desceu até aos lábios dela e ela engoliu em seco com dificuldade.
Nunca sentira nada parecido, era algo novo que lhe arrebatou o oxigénio num piscar de olhos.
— Deveria... deveria tentar dormir —conseguiu balbuciar, assustada com o que sentia, tentando colocar distância.
Antes que pudesse afastar-se, Ian deteve-a com uma mão na cintura. Um calafrio percorreu-lhe as costas, o pressentimento de que passaria algo atravessou-a com ferocidade.
— Não te vás embora —sussurrou.
A sua outra mão subiu lentamente, acariciando o braço dela até chegar ao seu rosto. O contacto acendeu a sua pele, ardia cada poro do seu ser. Annie soltou um suspiro trêmulo, hipnotizada.
Então aconteceu, inclinou a cabeça e aproximou-se direto ao objetivo, ela fechou os olhos por inércia, sentindo logo o sabor de um roçar de lábios; Ian intensificou o beijo, deixou de ser um toque, converteu-os em dinamite. Estreitou-a contra o seu peito, Annie arfou contra os lábios dele, respondendo ao beijo com desespero.
Recuaram, tropeçando na escuridão, até que os seus joelhos chocaram contra a borda da cama.
Caíram juntos num abraço inquebrável. Ian posicionou-se sobre ela, sustentando o seu peso, mas sem deixar de a beijar. Talvez fosse apenas desejo ou quiçá o facto de não ter estado com ninguém em muito tempo, mas existia uma urgência por torná-la sua.
As suas mãos percorreram a silhueta dela, enquanto as suas batidas se sincronizavam numa canção proibida. Tudo o resto se apagava, nada mais do que eles dois, era tudo o que importava. Ainda assim deteve-se por um segundo, olhando nos olhos dela, tinha as pupilas dilatadas e o corpo prisioneiro da exaltação.
— Queres que continue? Ainda posso parar isto se me pedires —rosnou.
— Se vou transformar-me na sua esposa por obrigação, se devo fazer a minha parte, por que faz perguntas tolas, senhor Winchester? —emitiu num fio de voz, nublada pelo que sentia, não havia raciocínio, nem retrocessos, só queria entregar-se aos braços dele e perder a cabeça.