Mundo ficciónIniciar sesiónKkk. Nós somos únicos — disse Gabriel, rindo.
— Bom, eu me contento com você mesmo — ela respondeu, brincando. — Eu? O que eu estou pedindo? Oi? Tudo bem? — ele rebateu, confuso. — Nada, amiga. Deixa para lá. Nada... — cortei o assunto, tentando disfarçar o nervosismo. Assim que o carro parou, abri a porta e desembarquei bem rápido. Meu plano era entrar logo em casa e fugir daquela tensão, mas não fui rápida o suficiente. Quando dei por mim, o Nick já estava plantado bem na minha frente, bloqueando o meu caminho. Olhei para o lado, esperando o apoio da minha melhor amiga, e percebi que ela continuava sentada no banco do passageiro. — Bia, você não vai descer? Não vai ficar aqui comigo? — perguntei, com um tom de leve desespero na voz. — Não, amiga — ela respondeu com um sorriso cúmplice. — O Gabriel vai me levar para casa Mas você disse que ia ficar, Beatriz! Achei que você ia dormir comigo lá em casa — protestei, indignada. — Não vou para casa, mas também não vou ficar sozinha — ela sussurrou, piscando para mim com um sorriso malicioso. — Já estou acompanhada com o Gabriel. Saímos! Você entendeu, né? Tchau! Antes que eu pudesse processar, a Bia gritou um "Tchau, amiga!" de dentro do carro, e os dois arrancaram, me deixando para trás. Quando me virei de volta, dei de cara com o Nick. Ele me olhava fixamente. Senti minhas bochechas arderem e, completamente envergonhada, apressei o passo para entrar logo no quintal. No mesmo instante, meu telefone começou a tocar no meu bolso. Olhei para a tela e vi que era a minha mãe. — Oi, mãe. Já cheguei, sim, estou entrando — atendi rapidamente. — Você não está em casa? Tá bom. Beijos, também te amo. Desliguei o celular. O Nick, que vinha logo atrás, perguntou: — Sua mãe não está em casa? — Não, ela saiu e só volta amanhã — respondi, tentando parecer indiferente. — Você quer que eu entre e fique até o Gabriel chegar? Conhecendo a Bia, ele também não volta hoje — ele sugeriu, com a voz mansa. — Então, vou entrar e ficar com você. Não é bom você ficar sozinha. Tudo bem por você? Pode ir dormir, se quiser. Vamos entrar. Entramos na casa em silêncio. Fui direto para a cozinha, com o coração acelerado, e bebi dois copos cheios de água para tentar me hidratar e me acalmar. Quando me virei com o copo ainda na mão, o Nick estava encostado no batente, me observando com uma intensidade que me deixou sem ar. — O que foi? — perguntei, quebrando o silêncio. — Você está diferente — ele disse, com um sorriso de canto, dando um passo na minha direção. — Lembro que você tinha uma dificuldade enorme para beber água... Pois é, as coisas mudam. Você quer alguma coisa? — Não, estou de boa — respondi, segurando firme o copo, sentindo que a noite estava longe de acabar.Então vamos subir — eu disse, indicando a escada. Abri a porta do quarto do Gabriel e vi que estava tudo arrumado. — Fica aqui, porque acredito que não tenho quarto de hóspedes pronto. O que você precisar, pode pegar aí nas coisas do Gabriel. Boa noite, Nick. Virei as costas para sair, mas a voz dele me deteve: — Kate, espera. Por favor, não... Você vai continuar me tratando como se eu fosse um estranho? — Se eu achasse que você é um estranho, você não estaria aqui dentro da minha casa — respondi, sem me virar. — Você sabe do que estou falando, Kate. Aquilo foi a gota d'água. Girei os calcanhares, encarando-o de frente, deixando que toda a raiva e a dor acumuladas falassem por mim: — Eu sei que você roubou meu irmão de mim! Me humilhou, me xingou, riu da minha cara e, não contente com o que fez no ensino médio, ainda andou falando mal de mim na faculdade! Onde eu ainda nem sequer cheguei, mas todos já sabem que eu sou a feia, a gorda e que ninguém me quer. Olha, Nick... Mas quando eu estiver na faculdade, me faz um favor: finge que não me conhece. Boa noite! — Kate, me perdoa... — ele pediu, com os olhos marejados e a voz embargada. Soltei uma risada sarcástica, que ecoou pelo quarto vazio. — Te perdoar? Pelo quê? Por ser idiota? Por me humilhar? Ou por ser tão burro que nunca percebeu o quanto me machucava?Ele olhou para mim exatamente como eu sempre quis que olhasse. — Sabe, Nick... já que você quer conversar, vamos conversar — continuei, sentindo um nó na garganta. — Sabe, eu te amei. E muito. Mas sabe qual foi o pior? Foi saber que eu nunca ia ser uma pessoa boa o suficiente aos seus olhos. Você sorria, beijava e abraçava as outras meninas... Como eu queria estar no lugar delas! Mas não era possível, porque você tinha nojo de mim. Eu te amei muito até entender que o problema não era eu, e sim quem eu queria para mim. Então, passei a me amar. Emagreci, sim. Estou diferente, mas isso foi só a consequência de aprender a me amar. Você não faz parte da minha vida, Nick, e nunca fará. Boa noite. Estou muito cansada para ouvir as suas desculpas. Virei as costas e corri para o meu quarto. Bati a porta e me tranquei, não querendo deixar que ele me visse desmoronar. A verdade é que acho que nunca vou superar ele. Eu ainda o amo, mesmo ele sendo um completo idiota. E eu sabia que não aguentaria ouvir as desculpas que ele ia me dar sem fraquejar. Fui para o banheiro com as lágrimas queimando meu rosto. Tirei a maquiagem da formatura, tomei um banho demorado e deitei na cama, olhando para o teto. Eu sabia bem que não ia conseguir dormir nem tão cedo naquela noite.






