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Autora: Edivania Rios Romance de Época – Anos 1950 Segundo Capítulo Todos os direitos autorais reservados à autora citada acima. Qualquer uso parcial ou total sem autorização será considerado infração legal, nos termos da LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998. Meu nome é Leonardo Linhares Pires. O sobrenome Linhares é do meu pai, o senhor Pedro Linhares — ele me assumiu perante a sociedade, um homem que é grande empresário de tecidos e, acima de tudo, o maior fazendeiro da região. Foi um vexame ele fazer isso, pois não é comum um homem com tanto poder e tantos bens assumir um bastardo. Não sou bem-vindo na sociedade, pois Dona Lia faz questão de deixar claro, a todo instante, que sou filho da empregada. Ao espalhar isso para todos, ela alimenta a própria dor — claro que eu também não gostaria de estar nessa situação, caí de paraquedas nela sem nem entender como tudo começou. Ela ainda diz que eu já a ameacei de morte, e que é por isso que ela tolera eu morar debaixo do mesmo teto: conversa de pessoa que ama ser paparicada o tempo todo. Esse ser humano afirma que nunca foi do seu agrado conviver comigo. Não sei se um “empregado”, como ela me chama, teria esse poder. Ela fala tudo isso para se fazer de vítima e me culpar por um passado que não escolhi. Meu pai me assumiu, diz ele, porque sou muito parecido com ele — a ponto de ele às vezes pensar que está vendo a si mesmo quando jovem. Meu irmão não tem essa semelhança, mas tudo por direito é dele, absolutamente tudo. É claro que eu receberei alguma coisa, mas aquele nome que nos dá poder, esse eu nunca terei. Quem sabe daqui a vinte anos eu consiga ter ao menos dignidade. Minha mãe se chama Natália Gomes Pires; comprei uma casa para ela em outra cidade, um lugar onde ninguém nos conhece. Meu irmão me odeia, acha que eu vou tomar o que é seu — mas eu não tenho esse poder. A mãe dele o colocou contra mim, mas ele é inocente demais para entender. Maninho... meu pobre maninho... Estou dando todo o apoio a Rick, a mãe dele faleceu e foi enterrada há pouco, e ele está sofrendo muito. Somos amigos desde a infância, temos dezessete anos e estudamos juntos; meu pai banca meus estudos na melhor escola da região. Gosto de mulheres, mas procuro manter-me longe de confusões. As meninas da escola que vivem atrás de mim — não sou de fazer promessas, nem de maltratar ninguém; sou apenas um homem que preencho carências. Muitas já me ofereceram a virgindade, e eu aceito, pois isso me faz sentir vivo e gosto de ver elas felizes. Se quiserem repetir, repito: não posso recusar o que me faz bem. O advogado de Rick chegou, e eu vou avisá-lo. Não gosto daquela mulher que está sempre ao lado dele — chamam-lhe Marisa. Ela ajuda Lia, minha madrasta, a me difamar para toda a sociedade; é fofoqueira, falida, mal-educada e, provavelmente, muito mal-amada. A moça que a acompanhava estava abraçada a Rick, com um olhar que parecia querer tomar posse dele. Aproximei-me e falei: — Seu advogado chegou, Rick. A moça virou-se para me olhar; eu já a tinha visto antes, era amiga de Rick desde pequeno. — Estou indo, Leonardo. Essa aqui você lembra? É a minha amiga de infância — vocês nunca chegaram a conversar, mas com certeza já se viram. — Verdade. Prazer... qual o nome dela mesmo, Rick? — Perguntei, fitando seus olhos. — Ah, Leonardo, você sabe muito bem: é Linda. Você é um comediante. — É mesmo, lembrei agora — às vezes fingir de bobo tem sua vantagem. Peguei sua mão e beijei-a com respeito. — Tira a mão da minha afilhada e sobrinha, seu bastardo! — gritou a voz áspera da madrinha de Linda. Soltei a mão imediatamente e afastei-me. — Resolva suas coisas, Rick. Passo em casa depois e volto. Não dei confiança para a senhora — acrescentei, virando-me para sair. Montei no meu cavalo e saí pelas colinas, precisava espairecer. Levantei a cabeça para sentir os raios de sol aquecerem a pele, respirei fundo o ar puro, comovido com a liberdade que ele me trazia. Há meses venho me dedicando à fazenda: todos os sábados e domingos estou lá, pois meu irmão vai ser doutor, e eu ficarei para trabalhar e fazer dinheiro para ele. Ser bastardo é isso: o que sobra para nós é enriquecer o verdadeiro herdeiro. Ser livre dessa responsabilidade seria um luxo, mas não posso fugir desse destino — significaria tocar o paraíso, se eu pudesse. Desci do cavalo e comecei a caminhar entre os arbustos, ora mais fechados, ora mais abertos, até chegar a uma fonte. Ajeitei o cabelo, que já está crescendo um pouco, ajoelhei-me e bebi um pouco da água fresca e cristalina. Um relincho chamou minha atenção; ao virar-me, vi meu alazão preto na outra margem — eu tinha me esquecido de amarrá-lo. Ele relinchou de novo, e ao me aproximar, vi o motivo: uma cobra. Peguei um galho, atravessei a água e matei o animal. — Que coisa feia, meu lindo cavalo! Queria me deixar na mão, não é? Vamos voltar. Montei nele e saí a galope, voltando em direção à cidade. Ao chegar à casa do meu pai, encontrei minha madrasta sentada no sofá, com aquele olhar que já dizia tudo: ela iria falar muito. — O que você pensa que é, menino? Filho de uma puta, acha que pode chegar a hora que quiser, como se fosse o patrão? Aqui você não passa de um mero visitante, um sem futuro. Entrei sem responder nada, tomei banho e saí do quarto — sabia que se dissesse algo, perderia a razão; na verdade, já não tenho razão em nada mesmo. Quando desci, ela ainda estava no mesmo lugar. — Tomara que você morra, seu infeliz. Saí de casa. Sempre foi assim: ela desejando a minha morte o tempo todo. Já apanhei muito dela e do meu irmão. Ao cruzar a porta, encontrei meu pai. — Filho, vamos voltar, preciso te falar uma coisa. — Pai, tenho que resolver algo agora, daqui a pouco eu volto. Disse apenas isso para ele me deixar sair, mas hoje não voltarei. Vou pagar um quarto em um hotel, estou com a mochila da escola mesmo, pois amanhã tenho aulas. — Que modos são esses, Leonardo? Parece que está fugindo. — Não pai, não estou fugindo, realmente tenho que ir — esclareci. — Ah, sim... — ele me olhou, tentando decifrar o que se passava comigo, mas não adiantaria. Queria ir até a casa de Rick, mas decidi não ir hoje: não quero sofrer mais ofensas. Antes de ir ao hotel, passei na estação de trem e fiquei olhando os trilhos. O trem vai... o trem vem... é assim que a nossa vida segue. Os protagonistas não são perfeitos; é preciso que algo ruim aconteça para que as coisas boas possam, enfim, surgir.






