Deixei que Christian me levasse a essa tal fonte perto da floresta. Achei que meu sonho tinha começado, mas, na verdade, era o início do meu pesadelo. Eu não sabia, mas naquele dia a minha vida mudaria para sempre. Meu coração não parava de bater descontroladamente; eu não sabia o que me esperava.
— Chegamos! Vou arrumar as coisas para a gente — Christian falou e saiu do carro.
Eu saí também e comecei a olhar em volta. A mata era fechada e não havia ninguém por perto. Olhando na direção para onde ele foi, vi que realmente havia uma fonte ali, com uma estátua da deusa com as mãos voltadas para o céu. Christian já tinha estendido a toalha no chão e arrumado a comida — muita comida, por sinal.
— Vem, Eliza, já arrumei aqui! — falou, batendo com a mão no espaço ao seu lado.
Sentei-me junto dele e peguei um sanduíche. Comecei a comer mais por nervosismo do que por fome. Eu não sabia como me comportar perto de um garoto.
— Eliza, queria te perguntar uma coisa... — Christian falou, meio sem graça. — Eu não queria que você entendesse errado... Eu gosto de você como amiga.
Eu comecei a engasgar e a tossir. Ele me passou um copo de suco e deu batidas leves nas minhas costas.
— Foi isso que você entendeu?! — Fiz uma cara de espanto, mas continuei antes que a minha coragem se acabe. — Eu queria sair da rotina, fazer alguma coisa diferente. Você sabe que não tenho amigos — terminei, falando mais baixo.
— Eu imaginei que não era isso, mas tinha que perguntar para ter certeza — ele suspirou, parecendo aliviado com a minha mentira. — Não que tenha algo de errado com você, Eliza. É que... eu estou saindo com a Kelly.O nome dela ecoou como uma bofetada. Forcei meu pescoço a funcionar e levantei o olhar para encarar Christian.— A Kelly? — minha voz quase não saiu. — A filha do Alpha?— Sim, ela mesma — um sorriso orgulhoso quase brotou nos lábios dele. — Meus pais estão ficando muito amigos do Alpha e nós começamos a nos conhecer melhor. O Alpha até disse que quer ser meu padrinho de consideração. A caminhonete... bom, foi presente dele.A ficha finalmente caiu, trazendo uma onda de humilhação que queimou meu peito. Agora eu entendia tudo. A mudança repentina de lugar, o convite para um canto isolado no meio do nada, a floresta proibida... Não era um encontro romântico especial. Era um esconderijo. Christian precisava de um lugar sem ninguém para que ninguém o visse com uma fêmea como eu e pensasse que ele tinha algum interesse em mim. Afinal... quem no mundo iria gostar da gordinha da matilha?O silêncio pesado que se seguiu foi cortado abruptamente. De repente, uma voz vinda da mata escura nos pegou de surpresa:
— Eu queria saber o que você faz aqui com o meu namorado.A voz arrastada e cheia de desdém fez meu estômago revirar. Christian sobressaltou-se, levantando-se tão rápido que quase chutou a cesta de vime, espalhando os doces pela toalha.— Oi, Kelly! — a voz dele falhou, o nervosismo nítido. — Nós só... estávamos fazendo um piquenique. Esta aqui é a Eliza — completou, apontando para mim como se quisesse se livrar de uma culpa.Kelly deu alguns passos à frente, cruzando os braços. Seus olhos varreram meu corpo com nojo antes de pararem no meu rosto.— Oi, Eliza. Muito prazer — disse ela, com um tom cínico, fingindo que eu era uma completa desconhecida. Fingindo não se lembrar de todas as vezes em que infernizou a minha vida na escola.O fantasma da humilhação do colégio passou diante dos meus olhos. Lembrei-me perfeitamente do dia em que ela esvaziou um copo de suco grudento na minha cabeça, no meio do pátio lotado, só porque tirei uma nota maior que a dela. Engoli o gosto amargo do passado. Eu sabia que bater de frente com a filha do Alpha ali, no meio do nada, seria uma sentença de morte.— Oi. Muito prazer também — forcei as palavras a saírem.— Christian, meu pai está te chamando — cortou Kelly, ignorando totalmente a minha existência e focando no namorado.— Agora? — ele gaguejou.— Sim. Ele quer discutir os detalhes sobre o seu treinamento para a guarda Beta.— Entendi... — Christian olhou para mim, o rosto vermelho de vergonha. — Eliza, vamos. Eu te levo para casa.— Sabe o que é? Meu pai disse que é urgente — interrompeu Kelly, exibindo um sorriso vitorioso e cruel. Ela apontou com o queixo para a mata atrás dela. — Mas não se preocupe. Meus irmãos estão logo ali e podem levar ela de volta. Você não se importa, né, Eliza?O pânico gelou meu sangue. Os irmãos de Kelly eram conhecidos por serem os maiores valentões da matilha. Olhei para Christian, implorando em silêncio por proteção, mas ele desviou os olhos, covarde demais para encarar a namorada.— Não, não... Tudo bem. Pode ir — murmurei, sentindo-me completamente desamparada.