capítulo 4

Capítulo 4: Farpas na Mídia e Sabotagem

A quinta-feira trouxe o primeiro trabalho em grupo do semestre na cadeira de Sistemas de Comunicação. E, para a minha completa infelicidade, o professor resolveu sorteia as duplas.

Quando ele chamou meu nome junto ao da "Melanie Albuquerque", ouvi uma risada abafada de Tom no fundo da sala.

— Parece que você vai ter que aprender a falar a língua da roça, Vinícius — debochou Paulo, dando um tapa nas minhas costas enquanto nos dispersávamos.

Caminhei até a banca onde Mel estava guardando seu caderno. Ela nem levantou a cabeça quando parei na frente dela, cobrindo a luz do sol que entrava pela janela.

— Vamos fazer o seguinte, priminha — comecei, apoiando as duas mãos na mesa dela e me inclinando com um sorriso frio e sarcástico. — Eu faço a apresentação, você faz a parte chata de pesquisa de dados no final de semana e coloca meu nome. Sem b**e-boca, sem drama. Eu fico com o crédito pela oratória e você não passa vergonha na frente da turma.

Mel fechou o caderno com um baque seco e finalmente olhou para mim.

— Engraçado. Você fala como se a sua oratória fosse incrível, mas até agora só ouvi frases prontas de garoto mimado — ela se levantou, ficando a poucos centímetros do meu peito, me encarando nos olhos. — O trabalho é metade meu. Nós vamos fazer juntos na biblioteca hoje à tarde, ou eu aviso o professor que estou fazendo sozinha.

— Você não teria essa audácia — murmurei, os olhos estreitados.

— Tenta a sorte, Vinícius.

Às quatro da tarde, a biblioteca da faculdade estava silenciosa. Mel estava sentada no canto, concentrada em um notebook simples, os óculos de leitura apoiados na ponta do nariz. O cabelo estava preso num coque bagunçado, deixando o pescoço longo e claro totalmente exposto.

Sentei-me na cadeira da frente sem fazer barulho. Observei a forma como ela franzia os lábios quando lia algo complexo, a postura ereta e a dedicação impecável. Havia algo de absurdamente hipnotizante naquilo. Nenhuma garota que eu conhecia lia artigos acadêmicos com aquela paixão.

Ela é bonitinha até quando tá brava, o pensamento estúpido cruzou minha mente por um segundo. Balancei a cabeça, espantando aquilo imediatamente. Não seja idiota, Vinícius. É só a iluminação do lugar.

— Vai ficar aí me encarando ou vai abrir o seu computador para ajudar? — ela perguntou, sem nem tirar os olhos da tela.

— Estava só tentando entender como alguém consegue ser tão chata em tempo integral — retruquei, puxando meu MacBook e abrindo a tela com deboche. — Me passa o arquivo. Vamos acabar logo com isso antes que meus amigos me vejam aqui e achem que eu fiquei brega.

— Ah, claro. Não podemos arranhar a sua imagem impecável de herdeiro fútil, não é? — ela respondeu com um riso soprado e irônico.

Passei as duas horas seguintes tentando desconcentrá-la. Fiz piadas sobre o vocabulário dela, ironizei o método de organização que ela usava e tentei impor minhas ideias a todo custo. Mas Mel não cedia. Ela rebatia cada argumento meu com dados precisos, com uma inteligência tão afiada que me deixava sem resposta.

No final da tarde, quando ela juntou as coisas para ir embora, olhou para mim de canto de olho.

— Sabe de uma coisa, Vinícius? Você se esforça tanto para parecer frio e inalcançável, mas no fundo é só uma criança com medo de que alguém descubra que você não é metade do que ostenta.

Ela se virou e caminhou em direção à saída, os passos firmes ecoando no piso de madeira.

Fiquei estático na cadeira, assistindo-a ir embora. A raiva queimava no meu peito, mas, pela primeira vez na vida, não era apenas irritação. Era uma provocação que eu não sabia como responder.

Melanie não me temia. E, infelizmente, aquilo estava começando a ficar perigosamente interessante.

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