Mundo de ficçãoIniciar sessãoCapítulo 3: Território Hostil
Se tinha algo que eu não esperava naquela segunda-feira de manhã, era ver a "caipira" parada no meio do pátio principal da faculdade. Eu estava encostado no meu carro no estacionamento VIP, com o óculos de sol no rosto, uma mão no bolso e um copo de café na outra. Ao meu lado, Tom e Paulo riam de alguma piada imbecil sobre a festa do fim de semana. Então meus olhos bateram nela. Mel usava um jeans simples, tênis branco e uma camiseta básica. O cabelo estava preso num rabo de cavalo despretensioso. Nenhuma marca famosa, nenhum acessório extravagante. Mas, mesmo assim, alguns caras do time de futebol que passavam por perto viraram a cabeça para olhar. Rangi os dentes de leve por trás dos óculos. Que inferno. — Espere aí... aquela ali não é a garota que tá morando na sua casa? — Tom apontou, franzindo a testa. — Cara, ela é linda. De onde sua mãe tirou essa prima? — Do interior. E tire os olhos, Tom, ela não é do seu bico — soltei, com o tom mais gélido que consegui. — Na verdade, não é do bico de ninguém inteligente. É só mais uma iludida achando que um diploma de TI aqui vai mudar a vida dela. — Ela estuda no mesmo bloco que a gente? — Paulo provocou, rindo. — O destino ama uma piada pronta. — O destino não, minha mãe — corrigi, me desencostando do carro. — Vamos lá. Hora da recepção dos calouros. Caminhei a passos firmes na direção dela, acompanhado pelos dois. Mel estava olhando para um mapa do campus no celular, visivelmente perdida, mas tentando manter a postura. — Perdeu o rumo da roça, priminha? — chamei, parei a dois passos dela e tirei os óculos de sol devagar, encarando-a por cima. Mel deu um suspiro longo, fechou a tela do celular e me encarou. Sem medo. Sem desespero. Só com aquele olhar calmo que me irritava profundamente. — Vinícius. Não sabia que o curso de TI aceitava alunos que só chegam no segundo tempo. — Eu chego a hora que eu quiser, a faculdade tem o nome da minha família no prédio da biblioteca — dei um sorriso torto e sarcástico. — Mas e você? Veio a pé ou usou o transporte público com a ralé? Tom deu uma risadinha ao fundo. A intenção era ridicularizá-la, marcar o território e deixar claro para todo mundo em volta quem mandava ali. Mel olhou para Tom, olhou para Paulo e depois voltou a fixar os olhos nos meus. — Preferi o transporte público. É bom para me lembrar de que o mundo real existe, ao contrário dessa bolha fútil onde você e seus amigos vivem — ela ajeitou a alça da mochila no ombro. — Agora, se me dá licença, tenho uma aula de verdade para assistir. Não posso me dar ao luxo de reprovar por falta como certos herdeiros. Ela deu um passo para o lado e passou por mim, deixando um rastro de perfume leve — flor de laranjeira ou algo simples assim —, que impregnou o ar e fez meu travamento ser quase imperceptível. — Essa garota tem coragem — Paulo murmurou, impressionado. — Ninguém fala assim com você. — Ela não tem coragem, tem ignorância — respondi com a voz dura, vendo-a se afastar pelo corredor movimentado. — Ela acha que pode peitar o dono do jogo. O problema era que, por mais que eu tentasse ridicularizá-la e esnobá-la na frente de todos, a presença dela me incomodava de um jeito que eu não conseguia controlar. Ela era linda, era afiada e não comprava nenhuma das minhas máscaras. A guerra estava declarada. E eu faria da vida dela naquela faculdade um verdadeiro teste de resistência.






