Mundo ficciónIniciar sesión**Capítulo 5 — Jogos**
Os dias seguintes se transformaram numa rotina estranha de evitar e ser evitada. Felipe voltou a ser puro gelo depois daquela noite na biblioteca, como se tivesse decidido que aquele momento nunca tinha acontecido. Passava pelos corredores sem me olhar, respondia com monossílabos quando eu tentava puxar assunto nas raras refeições em que nos cruzávamos, e eu me pegava, contra toda a razão, sentindo falta da versão dele que tinha me visto por trás dos óculos de leitura. Thiago continuava sua guerra fria, mas eu tinha notado algo: ele nunca ficava sozinho comigo por acidente duas vezes. Como se estivesse se protegendo de alguma coisa. Noah, por outro lado, parecia se divertir com a situação inteira. — Você devia experimentar sorrir de vez em quando — ele disse, aparecendo do nada na cozinha onde eu tentava fazer um café decente às sete da manhã. — Vai fazer bem pra você. E pra minha vontade de te irritar até você fazer isso. — Você tem algum tipo de horário fixo para me perturbar, ou é sempre de surpresa? — perguntei, sem me virar para olhá-lo. — Prefiro manter você alerta. — Ele se aproximou, se apoiando no balcão ao meu lado, perto o suficiente para eu sentir o perfume dele misturado ao cheiro de café. — É mais divertido assim. — Divertido pra você, talvez. — Ah, mas é exatamente o que eu quis dizer. — Ele sorriu, aquele sorriso fácil e perigoso que eu já tinha aprendido a desconfiar. — A vida é sobre se divertir, Elisa. Você devia experimentar isso também, em vez de andar por aí como se estivesse esperando o teto desabar. — Talvez eu esteja esperando exatamente isso, considerando a família em que fui jogada. Ele riu, um som genuíno que ecoou pela cozinha vazia. — Justo. — Ele pegou a xícara da minha mão antes que eu pudesse protestar, tomando um gole como se fosse dele por direito. — Mas admita: entre eu, o rabugento e o robô, eu sou claramente a melhor companhia. — Você é o mais insuportável dos três, isso sim. — Insuportável e cativante. Não existe uma coisa sem a outra. — Ele devolveu a xícara, os dedos roçando os meus por um segundo a mais do que necessário. — Vou ao clube hoje à tarde. Você devia vir. — Não fui convidada para nada relacionado a essa família. — Está sendo convidada agora. — Ele inclinou a cabeça, estudando minha reação. — A menos que você tenha medo de descobrir que talvez eu não seja tão terrível quanto meus irmãos fazem parecer. — Não é medo. É bom senso. — Que pena. — Ele deu de ombros, se afastando em direção à porta, mas parou antes de sair completamente, olhando para trás com uma expressão que, por um segundo, perdeu toda a leveza. — Você devia se cuidar, sabia? Essa casa engole gente como você. — Gente como eu? — Gente que ainda tem esperança. — Ele piscou, a máscara de charme voltando ao lugar tão rápido que eu quase duvidei do que tinha acabado de ouvir. — Pense no convite. Ele saiu, deixando-me sozinha na cozinha com o café esfriando e uma sensação estranha de que, por trás de cada brincadeira, Noah escondia algo muito mais complicado do que ele deixava transparecer. Mais tarde naquele dia, encontrei Thiago no jardim, sentado sozinho num banco de pedra, um cigarro apagado entre os dedos como se ele estivesse tentando resistir ao próprio vício. — Não vai fumar? — perguntei, me aproximando contra o próprio bom senso. Ele ergueu os olhos, surpreso em me ver ali, e por um segundo a hostilidade de sempre pareceu vacilar. — Estou tentando parar. — Ele guardou o cigarro no bolso, o gesto quase constrangido. — O que você quer? — Nada. Só estava andando. — Nessa casa, ninguém "só está andando". — Mas não havia veneno na frase dessa vez, apenas cansaço. — Noah te convidou pro clube. Não era pergunta. — Como você sabe disso? — Porque é exatamente o tipo de coisa que ele faria. — Thiago se levantou, a distância entre nós diminuindo sem que eu percebesse como. — Não vá. — Por quê? — Porque quanto mais você ficar perto de qualquer um de nós — ele disse, a voz baixa, quase um sussurro —, pior vai ser pra você no final. — Pior como? — perguntei, sem me afastar. Ele não respondeu. Apenas me olhou por um longo momento, os olhos escuros carregados de um conflito que eu não conseguia decifrar, antes de se afastar bruscamente, como se estar perto de mim fosse fisicamente doloroso. Eu fiquei sozinha no jardim, o vento frio da tarde batendo no rosto, tentando entender o padrão que começava a se formar diante de mim. Três irmãos. Três formas diferentes de me afastar. E, cada vez mais, três formas diferentes de falhar em esconder que talvez não fosse isso que realmente queriam






