Mundo de ficçãoIniciar sessãoVerão dos quatorze anos…
O ar-condicionado do apartamento trabalhava no limite, mas o calor de agosto insistia em se infiltrar pelas frestas, como um visitante indesejado. Augustus ou mais conhecido como Gus, apoiava o ombro no batente da porta, observando a mala aberta sobre a colcha. As roupas estavam dobradas com precisão e organizadas por cores — a marca silenciosa de Susan, que se recusava a abrir mão dos detalhes, mesmo depois de ele garantir que já era grande o suficiente para se virar sozinho.
— Você prefere o casaco azul ou o preto? — a voz da mãe veio do corredor antes que ela surgisse, erguendo os cabides como se decidisse uma questão de Estado.
— Mãe… — Gus passou a mão pelos cabelos loiros, bagunçando-os ainda mais. — É verão. Eu não vou usar casaco.
Susan arqueou uma sobrancelha. O brilho firme nos olhos azuis — idênticos aos do filho — deixava claro que ela não pretendia ceder. Aos quarenta e quatro anos, mantinha a elegância natural herdada da família, equilibrada pela força construída ao lado de Robert, seu marido.
— À noite a brisa do mar esfria — disse, pousando o casaco azul sobre a mala e encerrando o assunto. — E nunca se sabe quando você vai precisar estar… apresentável.
Gus suspirou. “Apresentável” era o código materno para qualquer situação social, desde um jantar formal até um reencontro inesperado. E, naquele verão, o reencontro tinha um nome capaz de revirar seu estômago: Abigail.
Fazia dois anos.
A última imagem que guardava dela era a da varanda da casa de praia, os dois deitados sobre a madeira ainda quente do dia, inventando constelações no céu. Não houve beijos nem promessas — apenas uma conexão silenciosa, estranha e intensa, que o tempo não conseguiu apagar.
Robert apareceu na porta em seguida, usando uma camiseta cinza e o semblante tranquilo de sempre. O rosto marcado pelo sol e as mãos calejadas contrastavam com a organização quase excessiva de Susan.
— Tudo pronto, campeão?
— Acho que sim — respondeu Gus, fechando o zíper da mala.
— Então vamos antes que o trânsito de saída da cidade vire um pesadelo.
No corredor, o aroma de café fresco se misturava ao perfume floral de Susan. A sala estava mergulhada na luz dourada da manhã, refletindo nos móveis claros e na cesta de lanches preparada para a viagem. Para Susan, cada deslocamento era uma expedição cuidadosamente planejada — paradas desnecessárias estavam fora de cogitação.
Enquanto desciam, Gus foi tomado por lembranças antigas. Quando criança, a viagem parecia interminável, mas a recompensa era sempre a mesma: dois rostos esperando na varanda — Anthony, um ano mais velho e transbordando energia, e Abigail…
Era impossível não visualizá-la. O cabelo ruivo indomável, os óculos insistindo em escorregar pelo nariz, as sardas que pareciam se multiplicar a cada risada.
— Sua irmã ligou ontem — comentou Susan já no elevador. — Disse que talvez apareça no fim da semana.
— Sério? — Gus se animou. Sarah estava no segundo ano da faculdade e sempre atolada de compromissos.
— Sim, mas não crie expectativas. Você conhece a sua irmã.
No térreo, seu Carlos, o porteiro, os cumprimentou com um sorriso familiar.
— Indo pra praia, né?
— Como sempre — respondeu Robert. — O verão não espera.
O carro preto brilhava sob o sol do estacionamento. Assim que as malas foram acomodadas e o motor ganhou vida, o concreto da cidade começou a ficar para trás. Susan mergulhou no tablet, Robert se concentrou na estrada, e Gus encostou a testa no vidro frio, tentando imaginar como seria rever Abby. O quanto ela teria mudado?
— Você está quieto — observou Robert pelo retrovisor.
— Só pensando.
— Em quê? — perguntou Susan, sem levantar os olhos.
— Em como vai ser lá. Faz muito tempo.
Susan sorriu de leve, compreensiva.
— Algumas coisas mudam. Outras não. A casa continua a mesma. O coração de Gus acelerou.
— O Anthony ainda j**a futebol?
— Pelo que a Eliza contou, sim. — Susan guardou o tablet. — E a Abigail… bem, ela cresceu. Mas continua sendo a Abigail.







