Mundo ficciónIniciar sesiónSilas Freire a libertaria.
Clara soube disso antes de alguém lhe dizer, porque a casa de jogos mudou de som. Durante as horas em que ficara trancada no quarto, aprendera a distinguir a rotina daquele lugar pelo ouvido. Havia a música distante, as risadas que subiam tarde da noite, passos de criados, portas se abrindo, cadeiras arrastadas, homens bêbados tornando-se corajosos apenas enquanto perdiam. Naquela tarde, porém, alguma coisa se contraiu atrás das paredes. As vozes diminuíram. Passos apressados cruzaram o corredor. Uma porta bateu com força no andar de baixo e, pouco depois, a chave girou na fechadura de seu quarto. Clara se levantou depressa, segurando o jarro de porcelana com as duas mãos, pronta para quebrá-lo no primeiro rosto que entrasse. Silas apareceu na porta. Atrás dele, havia uma mulher desconhecida, vestida de preto, com postura rígida e olhos atentos. Clara não sabia quem era, mas aquela presença não combinava com a casa de jogos. A mulher parecia pertencer a um lugar onde até o silêncio obedecia. — Senhorita Moura — disse Silas, com sua cordialidade repulsiva. — Parece que seu pai encontrou uma solução. Clara não abaixou o jarro. — Onde ele está? — Em casa, suponho. Homens covardes raramente gostam de presenciar as consequências imediatas da própria salvação. A mulher de preto lançou a Silas um olhar tão duro que, por um instante, até ele pareceu se divertir menos. — A senhorita virá comigo — disse ela a Clara. — Meu nome é Beatriz. Fui enviada para levá-la em segurança. — Enviada por quem? Silas sorriu antes que Beatriz respondesse. — Por seu futuro. Clara sentiu o frio subir pela espinha. — Eu perguntei por quem. Beatriz a encarou sem desviar o olhar. — Pelo conde de Monteluz. O nome não fez sentido de imediato. Clara havia ouvido a manchete do jornaleiro na véspera, algum escândalo sobre o lorde recluso que escondia o rosto, mas aquilo pertencia ao mundo dos jornais, das fofocas de balcão e das famílias que tinham sobrenomes suficientes para transformarem tragédia em assunto social. Não pertencia a ela, a Joaquim, à casa estreita entre a mercearia falida e a oficina do relojoeiro. — Não conheço o conde de Monteluz. — Ainda não — disse Silas. Clara olhou para ele, e a raiva que sentiu foi tão intensa que por pouco não arremessou o jarro. Beatriz deu um passo discreto para dentro do quarto, não para contê-la, mas para se colocar entre ela e Silas, e esse gesto inesperado fez Clara hesitar. — A dívida foi paga — informou a governanta. — A senhorita está livre para deixar esta casa. Livre. A palavra soou tão ofensiva que Clara quase riu. Ainda assim, saiu. Desceu os corredores sem olhar para os homens nas mesas, sem olhar para as cortinas pesadas, sem permitir que as pernas denunciassem o quanto tremiam. Ao passar por Silas no vestíbulo, ele inclinou a cabeça como um cavalheiro se despedindo de uma visita agradável. — Diga a seu pai que foi um prazer encerrar negócios com ele. Clara não respondeu. — E lembre-se, senhorita Moura — acrescentou ele, baixo o bastante para que apenas ela ouvisse. — Dívidas têm o hábito de voltar. Às vezes mudam de nome, de dono, de casa. Mas voltam. Beatriz tocou de leve o braço dela, conduzindo-a para fora antes que Clara pudesse transformar o medo em imprudência. A luz do dia a feriu depois de tantas horas trancada, e o ar frio da rua pareceu grande demais para seus pulmões. Havia uma carruagem parada junto à calçada. Clara entrou nela sem perguntar mais nada, porque naquele momento a única imagem que conseguia sustentar era a da própria casa. Queria chegar. Queria ver Joaquim. Queria odiá-lo de frente, viva, com os dois pés no chão que ele quase fizera desaparecer sob ela. Encontrou o pai sentado à mesa, no mesmo lugar onde o vira machucado dois dias antes. Ele parecia menor. Não apenas abatido, nem apenas envelhecido, mas reduzido por dentro, como se algo essencial tivesse sido arrancado e deixado em Monteluz. Quando Clara entrou, Joaquim se levantou tão depressa que a cadeira tombou atrás dele. — Clara. Ela ficou parada junto à porta. A casa era a mesma, e por isso parecia pior. A xícara sobre a mesa, a lamparina, o casaco remendado, a cortina que não fechava direito. Tudo continuava ali, fingindo que ainda havia lar depois de uma filha ter sido tomada como garantia. Joaquim deu um passo em sua direção. — Não — disse ela. Ele parou. Clara não gritou. Parte dela queria gritar, mas o sequestro havia deixado uma camada de gelo sobre a garganta, e talvez aquele gelo fosse a única coisa impedindo que ela se partisse no meio. — O que aconteceu? Joaquim fechou os olhos. — Eu salvei você. A frase, tão pequena diante do que havia custado, fez Clara sentir o estômago se contrair. — Como? Ele demorou demais. — Pai. Joaquim abriu os olhos, molhados de lágrimas que já não tinham utilidade alguma. — Lorde Gabriel de Valença pagou a dívida com Silas. Clara o encarou, esperando o restante, porque havia sempre um restante quando Joaquim falava nesse tom. Sempre havia uma conta escondida, uma promessa omitida, uma vergonha dobrada no bolso. — Por quê? Joaquim olhou para a cadeira caída, depois para as próprias mãos. — Porque eu ofereci algo em troca. O silêncio dentro da casa pareceu se alongar até tocar todas as paredes. Clara não respirou. — O que você ofereceu? Joaquim tentou dizer o nome dela e falhou. Tentou pedir perdão antes da confissão, mas a ordem das coisas já não podia salvá-lo. Gabriel tinha exigido a verdade, e a verdade, quando enfim veio, saiu baixa, miserável e inteira. — Você. Clara sentiu a palavra atravessá-la sem se acomodar em lugar nenhum. — Eu? — Clara, por favor, escute. Ele precisa de uma esposa. De um casamento legal, público, por pelo menos um ano. Ele pagou tudo, ele mandou libertarem você, ele garantiu que Silas— — Você me prometeu a um homem que eu nunca vi? Joaquim chorou então, com o rosto se desfazendo diante dela, mas Clara não sentiu pena. Alguma coisa nela havia ido embora no quarto trancado, e talvez tivesse levado consigo a última versão da filha que ainda sabia correr para os braços do pai. — Eu não tinha escolha. Clara deu um passo para trás. — Tinha a escolha de não apostar. A frase o atingiu com tanta força que Joaquim pareceu perder o ar. Clara apertou a bolsa contra o corpo, como fizera antes de ser agarrada na rua, e percebeu que repetia o mesmo gesto dentro da própria casa. — Quando? — perguntou. Joaquim não entendeu. — O quê? — Quando ele vem cobrar o que comprou? — Clara, ele não usou essa palavra. — Mas você usou. Joaquim abriu a boca, e nenhum som saiu. Do lado de fora, uma carruagem passou pela rua estreita, fazendo a janela vibrar. Clara olhou para a cortina mal fechada e pensou nos homens de Silas, em Beatriz de preto, no nome de Gabriel de Valença, na máscara que a cidade inteira descrevia como se o rosto de um homem fosse aviso suficiente de condenação. Então Joaquim disse, quase sem voz: — Amanhã cedo, a carruagem de Monteluz virá buscá-la.






