Mundo de ficçãoIniciar sessãoDavid
Vejo a garota entrar no banheiro e solto o ar devagar, finalmente sentindo algum alívio. Contra todas as probabilidades, eu tinha conseguido uma noiva — insuportável, de língua solta, um furacão ambulante… mas ainda assim, uma noiva. Porra. Até agora eu não fazia a menor ideia de onde estava com a cabeça quando deixei o Victor me convencer de que ela era a minha única opção. Ele insistiu que Isabella era perfeita porque preenchia o requisito número um imposto pelo meu pai: era virgem, segundo o médico. Uma virgem singela e sem passado — algo que eu poderia confirmar depois com um exame e algumas investigações. Ele também disse que seria a maneira perfeita de mostrar ao ditador Novack que eu finalmente estava me tornando um homem melhor, alguém que não se deixava seduzir por peitos, bundas e corpos espetaculares. Talvez o jeitinho simples de Isabella deixasse claro que eu tinha mudado e agora preferia mulheres que não fossem tão vulgares e fúteis quanto as que eu costumava levar para cama — especialmente as mais recentes. Nesse ponto, eu até concordava. Nunca gostei de sair com nenhuma louca. Mas tive que engolir minha frustração em relação ao resto. Isabella parecia mesmo ser modesta e pura. Uma garota longe de ter qualquer um dos atrativos que chamariam minha atenção. Seu rosto era pálido demais, com olheiras profundas, como se ela nunca soubesse o que era dormir — talvez um pouco de maquiagem resolvesse isso. Os cabelos longos e volumosos pediam urgentemente para serem cortados e cuidados por um especialista. Seu corpo magro demais poderia, no mínimo, ser favorecido por uma personal stylist, que certamente adoraria tê-la como cliente, já que ela tinha o biotipo ideal para qualquer roupa. Mas dizer que Isabella era o meu tipo? Nunca. Eu sempre preferi mulheres com curvas, muitas curvas. A única coisa nela que realmente se destacava — algo tão extraordinário que quase parecia injusto — eram seus olhos. Verdes, enormes, cintilantes… e, de algum modo irritante, eles pareciam me manter preso. Bufo, contrariado. Agora, o que eu prefiro não importa. O que eu preciso, sim. E é aí que dói admitir: eu preciso de Isabella. Sua aparência não tem relevância alguma. Afinal, nosso envolvimento seria completamente falso. Soltando um gemido, passo a mão pelos cabelos — que sempre sofrem com meus acessos de raiva — e me preparo para enfrentar o poderoso Harvey Novack. Meu pai. Eu não queria estar tratando-o assim, como um inimigo. Ele sempre foi amoroso, nunca apresentou o homem duro que se tornou hoje. Mas agora, o senhor Harvey me colocava contra a parede, e eu sabia que parte da culpa era minha. Respiro fundo mais uma vez e espio pelo olho mágico. Ele está com seu habitual terno escuro, gravata azul, cabelos impecavelmente penteados. Postura imponente, intimidadora. Porra. O ditador na minha porta e a louca detonando meu banheiro. Que noite maravilhosa. — Que visita ilustre! — digo, abrindo a porta com esforço para manter o sorriso. — Que honra ter o senhor em minha humilde casa, senhor Harvey Novack. Meu tom festivo não causa uma única rachadura na expressão rígida dele. No mesmo instante, sei exatamente por que veio. E quando achei que o meu dia não poderia piorar, percebo que acabei de alcançar o topo da frustração. Agora, eu já duvidava seriamente se chegaria vivo ao final desta noite. Nunca tive uma sexta tão penosa. Logo cedo enfrentei uma reunião gigantesca com investidores e, depois de muito quebrar a cabeça, consegui fechar o negócio. Assim que voltei, dei de cara com o Eduardo sentado na minha cadeira — trocamos ofensas, fiz questão de expulsá-lo dali. Depois veio o Victor, enchendo meu saco com aquele discurso de que eu tinha que ir atrás da garota louca porque ela era a minha única saída. E, quando achei que finalmente teria uma noite tranquila para desestressar… Esbarrei com Isabella. — David. — A voz grossa e carregada de animosidade me arranca dos pensamentos. — Pela sua expressão, diria que não gostou da minha visita. — Longe disso, papai. — Estendo a mão, e ele a aperta com força. — Fico muito feliz que esteja aqui. Entre. Quer uma taça de vinhos? Em que posso ajudar? Vou até a bancada e me sento, respirando fundo antes de encará-lo. Seus olhos azuis continuam fixos em mim, fervendo. Ele ajeita os ombros para trás — gesto que eu conheço bem. Ele vai começar a discutir. Merda. — Isso eu pergunto a você — ele dispara, rude. Com passos medidos, vem até mim e se senta ao meu lado. — Em qual idioma devo tentar conversar com você desta vez? Não é possível que, depois do nosso último encontro, nada tenha mudado. Você passou a semana inteira fugindo de mim. Que tipo de homem faz isso? Além de querer destruir a própria família, é covarde? Fecho os punhos. As palavras queimam, inflamam o sangue, corroem minha paciência. — Quando vai se tornar um homem digno da confiança que coloquei em você? — A dureza em sua voz me faz engolir seco. — David, eu não o criei para ser uma vergonha. Toda a educação e bons modos que eu e sua mãe lhe demos parecem ter sido inúteis, porque você faz questão de ignorá-los. Dei-lhe duas alternativas, tempo suficiente para mudar, para criar uma reputação decente… diferente dessa figura imoral de quem a imprensa tem feito bom uso. — Papai… — tento falar. — Não. — Ele ergue a mão. — Não ouse vir com mais uma de suas desculpas esfarrapadas. Se pelo menos deixasse de causar escândalos todas as noites… mas não. Você não consegue. Faz questão de expor sua devassidão, e agora não é só a sua imagem que está indo para o buraco — é o prestígio da empresa. De nada adianta fechar negócios milionários quando a sua vida pessoal está sempre no centro das manchetes. É intolerável. E estou farto. Então creio que você já imagina que minha visita não é amistosa. Estou aqui para tirar você do… Um estrondo alto ecoa do banheiro. Meu pai olha imediatamente para a porta, depois para mim. O olhar dele é a mistura perfeita de decepção e revolta. Estou morto. — Está escondendo uma mulher no seu banheiro? — Ele não pergunta. Afirma. — Não acredito que você desceu a esse nível de baixaria. É inacreditável o filho que eu tenho. Ele se levanta tão rápido que eu salto junto. Não há como detê-lo. Ele atravessa a sala como um general marchando para a guerra, vira a pequena parede que dá acesso ao banheiro e — antes que eu possa abri-la — ele mesmo gira a maçaneta e escancara a porta. E lá está ela. Isabella. Encharcada, com água escorrendo pelos cabelos, dentro do meu banheiro completamente destruído. Papeis e toalhas espalhados, produtos caídos no vaso e pelo chão, a pia transformada numa fonte descontrolada que inunda todo o piso. E eu congelado, sabendo que essa noite… essa noite vai me matar. continua...






