Mundo ficciónIniciar sesiónEu apenas ouvi:
— Olivia ficará com o cargo de diretora do departamento de Administração.
O restante desapareceu.
Via os lábios de Carl se moverem, mas já não ouvia mais nada.
Olivia sorria, radiante, confiante.
As pessoas começaram a bater palmas.
Eu apenas apertava a barra do meu blazer.
Quando Carl anunciou o fim da reunião, levantei-me junto com os demais.
— Lucy... fique um instante.
Parei.
Senti todos os olhares voltados para mim. Em alguns havia pena; em outros, constrangimento e surpresa.
Esperei em pé até que todos saíssem.
Olivia permaneceu ao lado de Carl.
Eu não me aproximei. Continuei exatamente onde estava.
Carl respirou fundo.
— Lucy... a decisão foi técnica. Seu projeto é excelente.
Franzi a testa.
— Se fosse técnica, o cargo seria meu, não é?
Minha própria voz pareceu estranha.
— Se o meu projeto era o melhor... por que ela foi escolhida?
Eu sentia um nó crescer em minha garganta, impedindo-me de respirar.
Carl apoiou as mãos sobre a mesa.
— Veja... Olivia acabou de chegar à cidade. Ela precisa conquistar espaço, ganhar experiência e...
Ele hesitou por um instante.
— Na verdade, foi por isso que pedi para você ficar. Quero conversar sobre o seu projeto.
Olhou para Olivia antes de continuar.
— Quero utilizá-lo. Ela ficará responsável pela execução.
Por alguns segundos achei que tivesse entendido errado.
Levei um tempo para processar aquelas palavras.
Depois ri.
Um riso curto, sem humor.
— Como é?
Olhei diretamente para Carl.
— Você escolheu outra pessoa para o cargo... e quer entregar meses do meu trabalho para ela?
— Lucy, isso não é sobre você. É sobre a empresa.
Ele falava com absoluta convicção.
— Você pode continuar no departamento. Não precisa ser diretora para participar do projeto.
Balancei a cabeça lentamente.
— Trabalhar para ela?
— Você pode ajudá-la. Conhece esse projeto melhor do que ninguém.
Olhei para Olivia.
Ela permanecia em silêncio.
Voltei meus olhos para Carl.
— É claro que conheço. Fui eu quem o construiu, linha por linha.
— Seja razoável, Lucy.
Pela primeira vez havia um resquício de impaciência em sua voz.
— Qual é o problema? Você pode trabalhar ao lado dela como assistente.
— Jamais.
Virei-me para sair.
— Lucy.
Parei.
— Tudo o que é desenvolvido dentro da empresa pertence à empresa.
Olhei para a pasta em minhas mãos.
Depois para ele.
Então a coloquei sobre a mesa.
— Se é assim...
Empurrei-a em sua direção.
— Fique com ela.
Saí sem olhar para trás.
Quando passei pelo meu setor, ninguém dizia uma palavra.
Todos mantinham a cabeça baixa.
Ninguém acreditava no que acabara de acontecer.
Nem eu.
Sentei-me à minha mesa, mas não conseguia me concentrar. O restante do dia passou diante dos meus olhos sem que eu realmente o visse.
Quando meu horário terminou, saí com os demais funcionários, peguei um táxi e fui para casa.
Tudo o que eu queria era um banho.
Preparei alguma coisa rápida para o jantar e fiquei olhando pela janela.
O sol já havia se posto.
As luzes da rua começavam a se acender.
Esperei Carl.
Olhei para o telefone.
Nenhuma mensagem.
Desfiz a mesa que havia preparado e coloquei apenas um prato para mim.
Comi sozinha, na mesa da cozinha.
Não muito.
Aquele nó ainda permanecia preso na minha garganta.
Já passava das nove da noite quando vi os faróis do carro de Carl entrarem na garagem.
Ele abriu a porta, deixou as chaves sobre o aparador e jogou o paletó no sofá. Já estava sem gravata.
— Você já jantou?
A pergunta parecia absurda.
Mas não era.
— Sim.
Ele passou a mão pela nuca.
— Bem... a família da Olivia preparou um jantar para...
Virei-me e comecei a subir a escada, deixando-o falar sozinho.
— Lucy, espere.
Sua voz já carregava irritação.
Continuei subindo.
Quando entrei no quarto, ele veio logo atrás e segurou meu braço.
— Você não precisa ficar assim.
Olhei para ele.
— Não? Como você quer que eu fique, senhor Whitmore?
— Escute. Ela acabou de chegar à cidade. Precisa de uma oportunidade. Você tem tudo.
Meus olhos se arregalaram.
— Eu tenho tudo?
— Tem a mim. Tem esta casa enorme. Tem dinheiro...
Respirei fundo.
— Onde você estava hoje, Carl?
Minha voz saiu baixa.
— Eu perdi... não. Foi tirado de mim algo pelo qual lutei durante meses. Algo que eu merecia. Pegaram o meu cargo, me tiraram meu projeto, roubaram minhas noites sem dormir... e sabe onde meu marido estava?
Olhei diretamente para ele.
— Comemorando.
Minha garganta queimava.
— Comemorando com a mulher que ficou com o cargo que era meu... e com o projeto que eu construí.
Carl suspirou, claramente impaciente.
— Você era mais gentil, Lucy. O que está acontecendo com você? É só um projeto. É só um cargo.
Abriu a carteira, retirou um cartão e o jogou sobre a cama.
— Use-o. Gaste com o que quiser. Você nem precisa trabalhar. Nem precisa voltar para a empresa. Basta ser minha mulher. Você pode ter tudo o que quiser.
Balancei a cabeça.
— Não.
Olhei para aquele cartão.
Depois para ele.
— Eu não tenho tudo.
Minha voz começou a tremer.
— Desde que essa mulher e a família dela chegaram... eu não tenho mais você.
Respirei fundo.
— Você não me ama mais.
Tentei passar por ele.
Carl segurou meus ombros.
— Por que você está sendo tão mesquinha? Tão ciumenta? Está vendo? Foi por isso que aceitei o convite para jantar com eles. Eu sabia que teria esse tipo de discussão. Você mudou. Está fria... egoísta...
Fez uma pausa.
E então disse:
— O que ainda existe em você para ser amado?
Senti o chão desaparecer sob meus pés.
Uma dor indescritível atravessou meu peito.
Não consegui responder, nem respirar.
Apenas fiquei olhando para ele.
Carl afrouxou lentamente as mãos que prendiam meus braços.
Saí do quarto sem sentir as próprias pernas.
Atravessei o corredor e entrei no quarto de hóspedes.
Fechei a porta.
As lágrimas que eu segurava desceram sem pedir permissão.
— Lucy...
Ouvi sua voz do outro lado da porta.
Depois, algumas batidas.
— Lucy...
Eu não respondi.
Fiquei ali, sentada no chão, abraçando as próprias pernas. As lágrimas pingavam do meu queixo enquanto a frase "O que ainda existe em você para ser amado?" ecoava na minha mente. Ia e voltava como um fantasma, repetindo-se sem parar.
Permaneci ali durante horas.
Vi os primeiros raios de sol entrarem pela janela. Ouvi os passos de Carl do outro lado da porta. A maçaneta girou lentamente logo acima da minha cabeça. Alguns segundos depois, os passos se afastaram.
Em seguida ouvi o motor do carro dar partida.
Permaneci imóvel até o som desaparecer completamente.
Só então consegui me levantar.
Desci a escada devagar. Quando cheguei à cozinha, o cartão ainda estava sobre a bancada.
Sorri com ironia.
Peguei meu notebook, redigi minha carta de demissão e a assinei.
Depois tomei um banho, me troquei e saí de casa.
Parei em uma cafeteria no caminho. Pedi um café e permaneci olhando pela janela por alguns minutos. Quando consultei o relógio, todos já deviam estar trabalhando. Não precisava ser vista.
Entrei na empresa em silêncio. Cumprimentei apenas o porteiro e segui diretamente para o Recursos Humanos.







