Capítulo 4
Ponto de vista de Janice

Tia Miranda parecia exausta quando voltou para casa com Roman. Ela mal conseguia andar, muito menos subir as escadas, então Roman e eu preparamos uma cama para ela na sala de estar. Ela preferiu dormir no andar de baixo mesmo. Disse que subir e descer as escadas só a deixaria ainda mais cansada.

Eu sentia vontade de chorar toda vez que a via vomitar. Ela me disse que isso era normal para alguém que tinha acabado de passar por uma quimioterapia.

Sempre que Roman saía para comprar alguma coisa, eu alimentava minha tia, mas ela mal tinha apetite. Ela dizia que tudo o que comia tinha gosto metálico. Às vezes, a comida chegava a parecer estragada para ela, apesar de ter sido preparada na hora.

— Sinto muito por isso, Janice. Eu não queria tirar você da Imogen só para trazer você para cá e fazer você cuidar de mim. Eu não fazia ideia de que a quimioterapia poderia causar efeitos colaterais tão graves. — Explicou ela fracamente, com a voz cheia de vergonha.

— Tia Miranda, não pense assim. Entre você e a Imogen, eu prefiro muito mais ser escrava da minha própria parente do que daquela mulher perversa. — Falei enquanto acariciava gentilmente os cabelos dela. — Apenas continue lutando, está bem, tia Miranda?

Ela sorriu e assentiu.

— Eu... eu não sei por quanto tempo vou conseguir continuar assim. Essa foi apenas a minha primeira sessão de quimioterapia, mas já sinto que não vou conseguir suportar a segunda.

— Se já estou sofrendo tanto agora, Janice, não acho que consiga suportar os tratamentos que virão depois deste.

Meu coração doeu quando ela começou a chorar na minha frente.

— Tia Miranda, você só precisa continuar lutando. Você consegue. Eu sei que consegue. Você foi tão corajosa quando enfrentou a Imogen ontem. Você vai sobreviver a isso também. Apenas continue lutando. Eu nunca vou me cansar de cuidar de você. Nunca.

Então, envolvi meus braços ao redor dela.

Naquele mesmo dia, contei a ela que procuraria um emprego para poder ajudar a pagar pelo tratamento e pelas despesas da casa.

— Se quiser, você pode trabalhar no salão de beleza que meu melhor amigo gay tem. — Sugeriu tia Miranda.

— Claro. Quem é ele? Eu faço qualquer tipo de trabalho, desde que possa começar imediatamente. — Respondi.

Minha tia me contou sobre o salão de beleza de seu melhor amigo, Kendall Yates. Disse que tudo o que eu precisava fazer era ir ao mercado e procurar uma enorme placa rosa onde estava escrito Ken's Salon.

...

Quando cheguei ao mercado, percebi que tia Miranda estava certa. Lá estava ela, a enorme placa rosa no telhado chamou minha atenção imediatamente.

Fui direto até a entrada e bati na porta. Um homem de cabelos ruivos brilhantes veio apressadamente até mim, com o rosto se iluminando porque aparentemente pensou que eu era uma nova cliente.

— Veio fazer o cabelo? — Perguntou ele.

— Não. — Respondi. — Vim me candidatar a uma vaga de emprego com Kendall. Sou sobrinha de Miranda Mayer. Ela me indicou.

O homem ruivo sorriu e disse com uma voz feminina:

— Bom, você chegou na hora certa, mana. Estamos precisando de outra assistente.

Ele parecia amigável, então entrei.

— Venha. Ken está tomando café no escritório.

Agradeci e fui em direção ao escritório.

Quando abri a porta, vi um homem corpulento de cabelos verdes.

Uau. Será que cabelos de cores chamativas eram algum tipo de tendência por ali?

— Minha BFF acabou de me ligar. Tudo bem, Janice, você está contratada. — Disse ele com um sorriso.

Então, sem aviso, começou a chorar.

— O-O que foi, Ken? — Perguntei. Sua reação repentina me preocupou.

— Minha BFF acabou de me contar o que está acontecendo com ela. Ela nem sequer me contou antes que estava com câncer. — Disse ele enquanto as lágrimas escorriam por suas bochechas.

Eles realmente deviam ser melhores amigos.

Aproximei-me de Kendall e esfreguei suas costas para confortá-lo.

— Deus é misericordioso. Tia Miranda vai se recuperar disso. — Falei, esperando tranquilizá-lo.

— Você tem razão. Deus é misericordioso. Minha BFF pode se recuperar disso.

Ele enxugou as lágrimas antes de continuar:

— Tudo bem, Janice. Você começa hoje. Na verdade, estamos com falta de um funcionário. Por enquanto, ajude os outros. Os nomes deles são Evelyn Atwood e Shirley Sawyer. Primeiro, aprenda o básico sobre cortar, alisamento e coloração de cabelos. Assim que souber o que está fazendo, poderá começar a atender os clientes sozinha.

Assenti e agradeci novamente.

Quando saí do escritório, o homem de cabelos ruivos brilhantes estava esperando do lado de fora.

— Meu nome é Sherlock. — Disse ele com um sorriso. — Mas não quero que você me chame de Sherlock. Me chame de Shirley.

Ele estendeu a mão.

— Prazer em conhecê-lo, Shirley. Vou fazer o meu melhor para aprender tudo o que preciso saber para trabalhar aqui. — Respondi enquanto apertávamos as mãos.

Um pouco depois, uma mulher chegou. Imaginei que ela deveria ser Evelyn.

Trocamos cumprimentos, e ela também pareceu amigável.

Naquela tarde, duas clientes chegaram quase imediatamente. Disseram que eram primas. Uma queria pintar o cabelo, enquanto a outra queria cortá-lo.

Shirley me mostrou o que fazer. Me levou até as prateleiras onde ficavam os produtos para colorir os cabelos, ensinou-me os nomes dos diferentes produtos e mostrou um sistema para encontrar as cores certas com mais facilidade. Ele também explicou que até as tesouras usadas para cortar o cabelo precisavam ser completamente limpas depois.

Aprendi um pouco sobre quase tudo naquele dia. Continuei me esforçando, embora procurar entre tantas cores diferentes de cabelo fizesse minha cabeça girar.

...

Já eram seis da tarde quando voltei para casa.

Roman estava sentado do lado de fora. Ele olhava fixamente para frente, parecendo exausto por cuidar de sua companheira.

— Como foi seu primeiro dia de trabalho? — Perguntou ele.

— Ainda estou aprendendo como tudo funciona, mas consigo lidar com isso.

— É assim no começo.

— Você tem razão. — Falei.

— Tudo bem, entre e coma alguma coisa. Sua tia e eu já terminamos de jantar. Não podíamos esperar por você porque não sabíamos a que horas você chegaria em casa.

Assenti e entrei.

Tia Miranda já estava dormindo na sala de estar. Não a incomodei. Ela precisava de todo o descanso que pudesse ter.

Roman se aproximou de mim enquanto eu comia.

— Janice.

Ouvi-lo chamar meu nome tão de repente me assustou.

— Sim?

— Você limpou meu quarto ontem? — Perguntou ele.

Assenti imediatamente.

— Eu não tinha mais nada para fazer, então limpei a casa inteira.

Ele coçou a parte de trás da cabeça e pareceu desconfortável.

— D-Da próxima vez, deixe meu quarto comigo. Aqueles lenços de papel lá... Bem, você sabe... Como posso dizer isso? Apenas deixe que eu limpe meu próprio quarto daqui para frente, está bem?

Apenas assenti.

Era óbvio o que ele queria dizer. Ele estava envergonhado demais para me dizer diretamente que os lenços de papel tinham sêmen dele.

Quase achei engraçado o quanto ele parecia envergonhado.

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