6. Alice Benette

Acordo com a luz suave atravessando as cortinas do chalé, espalhando um brilho dourado pelo teto de madeira. Por um instante, esqueço onde estou. Só quando me mexo e sinto o colchão confortável sob o corpo é que tudo volta em camadas: rancho, interior, recomeço… e uma vida completamente nova me esperando do lado de fora.

Levo a mão até a barriga automaticamente, sentindo aquele pequeno volume que ainda não chama atenção, mas já ocupa espaço demais dentro de mim.

— Bom dia, bebê… — murmuro, baixinho.

Levanto, tomo um banho quente e demorado — talvez mais do que deveria para alguém que precisa provar que é responsável — e escolho roupas mais… adequadas. Jeans confortável, bota baixa e uma blusa de lã. Nada de salto hoje. Eu consigo praticamente ouvir a voz do Marco zombando na minha cabeça.

Saio do chalé e respiro fundo.

O ar é frio, fresco, com cheiro de terra, madeira e algo levemente doce vindo da cozinha principal. O silêncio da manhã é diferente do da cidade. Não pesa. Não cobra. Ele simplesmente… existe.

Caminho pela trilha de pedras em direção ao refeitório dos funcionários, lembrando das indicações da Rosa. Ao contrário da recepção encantadora de ontem, aqui o clima é mais simples, mais direto — mas ainda assim acolhedor.

O refeitório fica em um grande espaço anexo ao celeiro, com portas abertas e mesas compridas de madeira já ocupadas por algumas pessoas. Conversas baixas, risadas ocasionais, o som de talheres batendo nos pratos.

Nada de turistas.

Só gente que trabalha ali.

E, por algum motivo… isso me tranquiliza.

Entro, ainda meio cautelosa, mas o cheiro de café fresco e pão quente me puxa imediatamente para dentro.

— Bom dia, querida!

Rosa aparece como se tivesse me sentido chegando, com o mesmo sorriso caloroso de ontem.

— Dormiu bem?

— Melhor do que eu esperava — respondo, sincera. — Acho que eu precisava disso.

— Todo mundo precisa, só não sabe — ela responde, dando um leve tapinha no meu braço. — Vem, senta com a gente.

“Com a gente” aparentemente significava uma mesa já ocupada por três mulheres mais velhas, todas com aquele ar de quem manda no lugar sem precisar levantar a voz.

— Olha só quem apareceu — diz uma delas, baixinha, cabelo branco impecável. — A novata.

— Eu teria lembrado desse rosto — completa outra, ajustando os óculos com curiosidade nada sutil.

Rosa sorri.

— Meninas, essa é a Alice. Vai trabalhar com a gente agora.

As três me analisam como se eu fosse um projeto em andamento.

— Trabalhar? — a baixinha pergunta. — Com essa carinha de quem nunca pisou num estábulo?

— Eu posso aprender — respondo, sentando e tentando manter a dignidade.

— Pode mesmo — diz Rosa, antes que elas avancem demais. — E vai.

Passo pela bancada e monto um prato com pão, ovos, frutas e o que mais estiver ao alcance. Quando volto para a mesa, as três já parecem ter decidido que eu sou, no mínimo, entretenimento para o dia.

— E você veio sozinha? — pergunta uma delas.

— Vim — respondo, dando um gole no café.

— Grávida e tudo?

Respiro fundo.

— Grávida e tudo.

Silêncio por meio segundo.

Depois:

— Corajosa — diz uma.

— Ou maluca — completa outra.

Rosa ri.

— Eu voto em corajosa.

Dou um meio sorriso, mas meu peito aperta de leve.

— Eu votei em “sem opção melhor” — murmuro.

Elas trocam olhares, e o tom muda sutilmente. Menos julgamento. Mais compreensão.

— A vida faz dessas — diz a terceira, mais quieta até então.

Assinto. A conversa muda para coisas mais leves — comida, rotina, histórias do rancho — e, pela primeira vez desde que cheguei, eu me sinto… incluída. Não como visitante. Mas como alguém que, talvez, pertença ali.

E então eu sinto antes mesmo de ver. Marco está parado perto da entrada, conversando com um dos funcionários, mas seus olhos já estão em mim. Por um segundo inteiro tempo suficiente para meu estômago fazer algo estranho. Ele está vestido igual a ontem, só que mais natural. Como se aquele lugar fosse extensão dele. Parte dele.

E talvez fosse.

Ele diz algo para o homem ao lado e começa a andar na direção da mesa.

Ótimo.

Perfeito.

Maravilhoso.

— Bom dia — ele diz, direto, sem olhar para mais ninguém além de mim.

— Bom dia — respondo, tentando manter a calma.

— Sobreviveu à primeira noite.

— Com dificuldade, mas sobrevivi.

Um canto da boca dele se move.

— Impressionante.

As mulheres ao meu lado estão completamente investidas na cena.

— Marco, deixa a menina comer em paz — Rosa intervém, divertida.

Ele nem olha para ela.

— Termina o café — diz, ainda olhando para mim. — Te espero no escritório.

Pisco.

— Escritório?

— Contrato — ele responde, simples. — Ou você achou que era só aparecer e sair mandando?

As senhorinhas riem.

Eu estreito os olhos.

— Eu achei que pelo menos teria café antes de ser julgada.

— Tá tendo — ele dá de ombros. — Aproveita.

Ele se vira, já saindo, mas para por um segundo.

Olha por cima do ombro.

— E não se atrasa, Alice.

Meu nome na boca dele faz algo estranho acontecer no meu peito.

E eu odeio isso.

Ele vai embora.

O silêncio na mesa dura exatamente dois segundos.

— Isso vai ser divertido — diz uma das mulheres.

Rosa sorri, tomando um gole de café.

— Muito.

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