Capítulo 90 — Nada mudou...
Helena Narrando.
Eu podia sentir as horas se esticando como elástico fino entre os dedos — uma tração contínua que me puxava para longe do presente, para longe de qualquer normalidade que eu pudesse reconhecer. Nas últimas três semanas a cobertura virou um abrigo e, ao mesmo tempo, uma sala de observação. O mesmo lugar onde eu tomava café antes de ir para a faculdade agora recebia jornais, telas com notícias repetidas e a presença de um homem que mudava a cada dia, sem que eu soubesse ao certo para qual direção ele se movia.
Eu sempre tive cuidado com as perguntas que faço, isso eu aprendi com a minha mãezinha. Cresci aprendendo que há perguntas que abrem portas e há perguntas que derrubam paredes; há momentos para sonhar e momentos para calar. Com Lorenzo não foi diferente. Desde a primeira vez que entrei naquela cobertura — fria, impecável — eu entendi meu lugar: contrato, estabilidade — um papel assinado, cláusulas, horários. Eu sou a esposa de contrato. Não sou convidada a inv