Helena Narrando…
Acordei devagar, como quem emerge de um lugar fundo demais para voltar de uma vez. Primeiro veio a luz — uma cor dourada atravessando as frestas da cortina pesada, riscando o quarto com a promessa impiedosa da manhã. Depois, o silêncio. Não o silêncio vazio da madrugada, mas aquele outro, espesso, carregado de vestígios. O ar ainda guardava um calor íntimo, um perfume misturado que não precisava de memória para ser reconhecido. Meu corpo respondeu antes da razão: um cansaço profundo, quase doce, espalhado pelos músculos; a sensação inequívoca de ter vivido algo que não se repete ileso.
Pisquei algumas vezes, tentando organizar o pensamento. O lençol branco estava amassado ao meu redor, marcado por uma noite que avançou sem pedir licença. Virei o rosto, e foi nesse gesto simples — quase inocente — que a realidade se impôs com a força de um impacto: Lorenzo estava ali.
Dormia de lado, o semblante raro e perigosamente sereno. O homem que o mundo conhecia — impenetrável,