Capítulo 4. Volta ao Lar

O celular dos dois começou a apitar a chegada de notificações e Hélio gritou, indignado:

— Sua vagabunda, enviou para o grupo da faculdade, estou perdido, sua pxtx desgraçada…

Clarice encerrou a chamada, notando o interesse do motorista.

— Que infeliz, como pude namorar com esse estrume sem me dar conta do que, realmente, ele gostava?

Pegou um ônibus na rodoviária e chegou em casa depois de três horas de viagem. Estava triste e decepcionada, chorou por um tempo durante a viagem, magoada com a maldade que premeditaram fazer com ela, mas foi só, eles não mereciam suas lágrimas. 

Deu sorte de não ter ninguém ocupando o assento ao lado do seu e ficou a vontade pelo restante da viagem. Quando o choro passou, lembrou da noite louca de sexo que teve e sentiu seu rosto esquentar. 

— Definitivamente, a faculdade cumpriu sua missão, estou voltando outra pessoa.

Quando o táxi parou na porta do casarão, Hector a esperava e a cumprimentou com um abraço, ajudando-a com a mala. Cornélio a esperava sentado na sala, fumando seu cachimbo e bebericando um whisky.

Largando tudo sobre a mesa ao lado de sua poltrona confortável, levantou-se e foi cumprimentá-la:

— Aqui está você, minha querida, de volta ao lar. Seja bem vinda.

— Obrigada, Cornélio. É bom estar de volta.

Ela o olhou, observando sua aparência de lorde inglês. Quando segurava o cachimbo, era a personificação do Sherlock Holmes. Mas será que cumpriria a promessa que lhe fez?

— Entre e sente-se um pouco, antes de almoçarmos. Creio que deva estar com a cabeça fervilhando com planos futuros.

— Sim, foram quatro anos de preparações e sinto que estou pronta.

— Você adquiriu muito conhecimento, agora lhe falta a prática. Essa prática você adquirirá perseguindo seu pai. Fiz uma promessa e está na hora de você receber o que merece. Vamos almoçar. — disse Cornélio a um gesto da governanta.

Os dois se levantaram e seguiram para a sala de jantar.

Horas antes

Cleyton deixou o hotel antes de clarear o dia. Deixou tudo pago e encaminhado para Clarice. Chegou na casa de Cornélio para o café da manhã.

— Bom dia, meu filho, seja bem vindo.

— Bom dia, pai.

Abraçaram-se displicentemente e sentaram-se para o café.

— Então, deu tudo certo?

— Não foi como eu planejei, mas a missão foi cumprida.

Clayton levou a xícara de café à boca e sorveu um bom gole, não dando atenção a curiosidade de seu pai.

— Como assim, não foi o que planejou?

Só então ele levantou a cabeça e olhou para o seu pai. Observou a expressão séria no rosto anguloso de nariz adunco, sobrancelhas grossas e escuras como o cabelo. Os olhos eram castanhos e os dois não se pareciam em nada.

Clayton tinha a pele clara, cabelos loiro escuros e olhos verdes, como a mãe e Cornélio até preferia que fosse assim. Ninguém nunca desconfiou que ele era seu filho.

— Aquele namoradinho dela, tentou aprontar, mas ela preparou uma armadilha para eles, porém foi um pouco descuidada.

— Descuidada? Eles fizeram algo com ela?

— Não, ela saiu antes e eu a peguei no estacionamento e cuidei dela, se é que me entende.

— Tudo conforme devia ser. Antes de sair, não esqueça de assinar os papeis que estão sobre a mesa no escritório.

— Com certeza, com o casamento consumado, só faltam os papeis. — falou Clayton, sorrindo.

— Foi ao contrário, um casamento invertido. O importante é que está consumado. Agora, ela vai atrás do pai e completa o serviço, nos livrando de ficar cara a cara com o traste.

— Tem certeza que ela dará conta? — perguntou Clayton, duvidoso.

— Você acha que não?

Clayton pensou por um instante e pegou o celular, mostrando as imagens do dia anterior.

— Se ela fez isso, dará conta sim.

Quando Clarice chegou, Clayton esperou, oculto no andar de cima, ouvindo a conversa dos dois. O único porém nos planos do pai, era o fato dele ter gostado de estar com ela. Quando acordou, percebeu que havia sangue nos lençois, indicando sua inocência e eles transaram como dois loucos.

Queria saber se ela estava bem, física e emocionalmente, e notou que parecia não ter acontecido nada com ela, pois se portou com dignidade, sem deixar transparecer o que sentia.

Foi embora quando eles se retiraram para a sala de jantar, com pena, pois queria ficar mais tempo próximo a ela, mas o trabalho da empresa o esperava. Era o CEO da Tecnoserv, uma grande empresa de tecnologia, que produzia aparelhos e produtos eletrônicos, além de prestação de serviços.

Consumia uma boa parte de seu tempo e também servia de fachada para o seu trabalho dentro da Firma de segurança dirigida por seu pai. Lidava com espionagem industrial, não roubando, mas pegando os ladrões, infelizmente, em uma dessas investigações, se depararam com o pai de Clarice e a coisa era feia.

Após o almoço, que foi mais demorado e cansativo do que Clarice esperava, Cornélio observou as olheiras e a moleza dela, mas ao contrário do que qualquer um faria, aconselhando-a a ir se deitar, ele a convidou a ir ao escritório.

— Antes de você descansar, creio que será melhor esclarecermos logo nossos assuntos. Depois, você descansará mais tranquila.

Ele queria que ela não estivesse totalmente desperta, para não ver o papel que colocou entre os documentos que ela precisava assinar. Ela não saberia que estava casada com seu filho, mas herdaria tudo que era seu e em contrapartida, eles também teriam acesso a tudo que ela herdaria.

Seguiram para o escritório, ele se sentou em sua poltrona e ela de frente a ele, do outro lado da mesa.

— Agora é o tão chegado momento em que você entra para nossa corporação. Estudou, treinou, amadureceu o suficiente para iniciar o trabalho que tenho para você.

— Você sempre disse isso, mas não sei, exatamente, o que a corporação faz.

Ele fitou a face bonita e corada de sua aquisição mais valiosa, sabendo que não podia contat toda a verdade e explicou de forma simplificada.

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