Um Espião Rendido - A Firma
Um Espião Rendido - A Firma
Por: Deypi
Capítulo 1. O Início

Chovia torrencialmente e Clarice se abrigou debaixo de uma ponte. Tentava não se molhar, o que era quase impossível. O vento frio castigava seu corpo magro, vestido com roupas simples e que não a protegiam dos respingos da chuva de vento. Tremia, sentindo saudades de casa, da cama quentinha e do carinho de sua mãe que a cobria toda noite.

— Isso tudo passou e tem que ficar no esquecimento, Clarice. Sua mãe morreu e seu pai colocou aquela mulher dentro de casa e ainda teve um filho com ela. — falou consigo mesma.

A mulher era sua madrasta, Noélia,  que a expulsou de casa na primeira oportunidade. Aproveitando que Ewerton, o pai, estava viajando a negócios e com a desculpa de  passear, levou a adolescente para um município distante. Parou o carro em um posto de gasolina e pediu que ela fosse à loja de conveniência para comprar um lanche para elas.

Assim que Clarice entrou na loja, Noélia partiu.

A menina viu o carro saindo e correu atrás, sem prestar atenção na estrada movimentada, sendo atropelada. Ficou internada no hospital da cidadezinha, em coma, por duas semanas e quando acordou, estava desmemoriada. O hospital pesquisou, mas nem a polícia descobriu quem era a jovem. Seus dados pareciam ter sido apagados dos registros.

Passou mais quatro meses internada para se recuperar das fraturas. Médicos e funcionários do hospital a trataram como uma familiar, pois a menina era educada e carinhosa, absorvendo cada atenção e carinho que recebia.

Porém, ela não podia continuar no hospital para sempre e foi acolhida por uma dama da sociedade. Os médicos disseram que ela recuperaria a memória, mas três anos se passaram, até que ela começou a ter lampejos de seu passado. Lembrou seu nome e aniversário, justamente quando completava 18 anos.

Sua vida naquela casa não era de membro da família, mas de empregada. Não recebia salário, pois a patroa dizia que era por conta da hospedagem, comida, roupa e educação. Na verdade, suas roupas eram dadas pela ação social da igreja local, estudava na escola pública e dormia no quarto da empregada.

Espirrou, percebendo que um resfriado se aproximava e não podia ficar doente, justo agora, que recuperava a memória. Foi uma maneira cruel de ter sua vida de volta e lembrar do abandono que sofreu.

A voz arrastada de um dos convidados, assim como o cheiro de bebida que exalava dele e de suas roupas, intoxicaram o ambiente e deixaram Clarice enjoada. Já era tarde, o jantar que a patroa ofereceu havia terminado, mas aquele indivíduo continuava bebendo sem parecer disposto a ir embora.

Clarice precisou limpar e arrumar as salas e ele não tirava os olhos dela, até que, em um instante que ficaram sozinhos depois que todos se foram e a patroa se ausentou, ele aproveitou e a atacou. 

Ela tentou de todas as formas, livrar-se dele, mas ele a imprensou de frente para a parede e conforme ela lutava, ele bateu fortemente a sua cabeça contra a dureza da alvenaria pintada.

A pancada a deixou tonta e além da dor, sentiu o sangue escorrer por sua tez.

— Martin, o que você pensa que está fazendo? — a voz esganiçada da patroa gritando da escada, o fez parar.

O som agudo, também despertou Clarice, que aproveitou o susto do homem, empurrou-o, conseguindo se livrar e correr. Não percebeu para onde ia e nem a chuva pesada que caía do lado de fora, correu para longe daquela casa, com suas memórias voltando no processo.

Se perguntassem como ela chegou ao lugar em que estava; debaixo da ponte, não saberia responder. Foram  tantas imagens, palavras e acontecimentos que vieram à sua mente, atordoando-a, que confundiu sua percepção do caminho. Acabou dormindo de exaustão, mas logo acordou com a andança de um cachorro que foi se esconder no mesmo lugar.

A chuva cessou.

Deixando o lugar, ela subiu até a estrada e seguiu andando por ela,  afastando-se cada vez mais do lugar de onde veio. Andava praticamente se arrastando e abraçando o corpo com os braços. O frio era intenso e por conta de suas roupas molhadas, sentia-se adoecer.

Cornélio Dietrich estava voltando de uma visita a um velho amigo, pensando nas coisas que teria que fazer para restaurar a propriedade que havia adquirido. Pretendia ampliar sua firma de segurança, formando uma academia de treinamento altamente especializada.

Já era madrugada e o carro seguia silenciosamente pela estrada, o motorista prestava atenção dobrada no trajeto por causa da pista molhada. Os farois fortes iluminavam bem o caminho e Cornélio vislumbrou uma silhueta que parecia mais se arrastar, do que andar.

— Pare o carro, Hector. Vamos ver se precisa de ajuda.

— Parece uma jovem e está molhada e suja de lama.

O carro parou na frente dela, que sem qualquer percepção do que estava a sua volta,  bateu no carro e caiu.

— Moça, moça… — abaixando-se Hector, chamou a jovem, mas ela desmaiou.

— Coloque-a no carro, vamos levá-la para o hospital.

— Sim, senhor.

O motorista e segurança, pegou uma manta que sempre deixava no carro do homem imponente que beirava os cinquenta anos, enrolou a jovem, colocou-a no banco de trás do carro e os dois foram na frente. 

Chegaram ao hospital da cidade vizinha de onde Clarice morava e ela foi prontamente atendida, pois todos reconheciam o homem importante que a levou.

Ele não soube dizer nada sobre a jovem, apenas que a encontrou na estrada, mas se responsabilizou pela internação e deixou seu endereço e telefone para o contactarem caso necessário. Esperou no corredor até o médico vir dar notícias. Assim que ele passou pela porta, Cornélio ergueu-se do assento e perguntou:

— Como ela está, doutor?

— Com um princípio de pneumonia e alguns ferimentos leves, mas nada preocupante. Ela acordou e nos forneceu seus dados, agora está medicada e dormindo em um de nossos leitos.

— Que ótimo. Então, vou para casa e volto amanhã, cuide bem dela, doutor, arcarei com as despesas.

— Sim, Sr. Dietrich. O senhor ficou responsável por ela? Ela pediu para não contactar a família, disse que a anos não os vê.

— Sem problemas, verei isso depois e a levarei quando tiver alta.

— Está certo, bom descanso, então.

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