Um CEO para a Herdeira
Um CEO para a Herdeira
Por: Anne Smith
Capítulo 1

Felicity

Washington DC, véspera de Natal, 2006

— Mamãe! Mamãe! Para onde vão levar minha mãe?

— Calma, meu amor. Sua mãe está indo para o hospital. Ela vai se cuidar e logo volta para ficar com você.

— Você promete, Lydia?

— Prometo! A Chloe está doente e precisa de tratamento, mas tudo vai ficar bem.                                         

Ela suspirou, triste, mas confiou na babá. Lydia sempre foi boa e não mentia. Sua mãe não estava bem nos últimos tempos. Seu papai George não cuidava dela e sempre a fazia chorar. Ela pensou em seu papai Thomas. Ele deveria estar olhando por elas — afinal, ele virou um anjo, e anjos devem proteger, certo?

Ninguém falou nada até a hora de dormir. Lydia lhe contou a história do soldado Thomas, a mesma que sua mãe sempre contava, e ela dormiu abraçada à foto do pai.

Felicity acordou e desceu as escadas em busca de Lydia quando ouviu seu padrasto e seu avô conversando no escritório.                                                                               

— Precisamos contar para a Mary Ann, Elliott. A garota precisa saber que a mãe dela morreu!

Ela não podia ter ouvido direito. Sua mãe não podia ter morrido!                                     

— Papai?                                                                                                           

— Bom dia, princesa. Feliz Natal. Eu comprei esse presente.

George tinha aquele sorriso que Felicity temia. Ele só sorria quando seu avô estava por perto. Quando ninguém estava, ele sempre a assustava. Ela pegou o presente e o olhou com medo.                                     

— Onde está minha mãe?                                                                                             

— Mary Ann, não é hora para perguntas. Vá para o seu quarto abrir seus presentes. Comprei algo para você, e está embaixo da árvore. Vá logo.        

— Sim, vovô.

Ela se afastou com o coração apertado. O avô nunca era bom com ela. Não entendia por que ele não gostava dela. Sua mãe sempre dizia que era porque ele estava velho — e algumas pessoas velhas são rabugentas.

A árvore de Natal tinha poucos presentes naquele ano. Sua mãe estava sempre de cama e não tinha ânimo para nada. Todos os presentes eram para Felicity, mas ela só queria sua mamãe. Lydia a encontrou chorando, encolhida embaixo da árvore.

— Lydia, onde está a mamãe?                                                                                               

A babá parecia não saber o que dizer, mas, com a voz carregada de tristeza, respondeu:                             

— Sua mamãe virou um anjinho. Seu papai não estava feliz sozinho, então veio buscá-la.                            

— Mas por quê? Por que ele não a deixou comigo? Não é justo!

O choro tomou conta dela, e Felicity não se importou que o avô não gostasse de crianças choronas. Agarrada a Lydia, ela se entregou à dor.

Não demoraram muitos dias até que ela ouviu o som do carro de George. Desde que sua mãe faleceu, seu padrasto havia viajado, e seu avô não saía do escritório. Ela correu para recebê-lo, mesmo sabendo que ele não se importava muito.

— Papai!                                                                                                                      

— Sai daqui, sua feiosa! Ele não é seu pai, é só meu!

Felicity foi empurrada pela garotinha loira que acabara de chegar com George. Ela não entendeu o que estava acontecendo. Fazia poucos dias que sua mãe havia morrido e, para sua surpresa, seu padrasto tinha sido gentil com ela.

Ela se levantou do chão e olhou para ele, que estava de mãos dadas com uma mulher loira. Um garoto estava com eles e a observava de forma estranha. Felicity sentiu medo e deu um passo para trás. A menina loira, um pouco menor que ela, mostrou a língua e fez uma careta.

— Quem são essas pessoas, papai?                                                                           

  — Ele não é seu pai!

Antes que pudesse se afastar, foi empurrada novamente ao chão, e a garota a chutou. O menino se aproximou com um sorriso sinistro e puxou seu cabelo com violência. Com um grito de dor, ela tentou se defender, até que Lydia chegou, gritando com as crianças.

— Como ousa falar assim com meus filhos? George, eu exijo que essa daí seja demitida imediatamente!     

— Ninguém vai ser demitido na minha casa!

O Sr. King chegou e olhou com raiva para o casal. George não pareceu se importar, e a mulher loira o ignorou. Lydia pegou Felicity no colo e a abraçou com força.

Com um sorriso debochado, George olhou de Felicity para o sogro e disse:

— Estas são Brigitte, minha esposa, e meus dois filhos, George Junior e Brittany. Eles agora vão morar aqui. 

— Como ousa?                                                                                                       

— Eu ouso porque sou um viúvo, caro Elliot. E não tenho planos de ficar sozinho. Se não quer aceitar minha família, sabe exatamente o que precisa fazer!                                                                                       

— Nunca! A King Aerospace nunca será sua! Está me ouvindo, George? Nunca!!

O Sr. King levou a mão ao peito e começou a ficar roxo. Felicity estava atônita demais para dizer qualquer coisa. A emergência foi chamada, e ela ficou grudada em Lydia, com medo do que aconteceria.

Ela ainda se lembrava de quando a ambulância levou sua mãe — e ela não voltou. O que aconteceria se seu avô também não voltasse?

(***)

Logan

Turquia, véspera de Natal, 2006

— Alguém chama a emergência!

— Emergência!

— Socorro!

Os gritos o deixavam cada vez mais assustado. Logan queria sair dali, mas o cinto de segurança o mantinha preso. Sua mãe estava deitada sobre ele, em uma posição estranha. Ele olhou na direção do pai, no banco do carona, e viu sua cabeça em um ângulo anormal.                                                                            

O medo o envolveu, e ele quis gritar também. A ambulância chegou, e os paramédicos começaram a agir rapidamente. Logan foi retirado do carro e colocado em uma maca. Um socorrista colocou uma máscara em seu rosto, e ele adormeceu. Quando acordou, estava no hospital.

— Ei, Logan. Como você está?                                                                                

— Oficial Morris... onde estão os meus pais?                                                   

— Bem, o médico virá conversar com você. Acho que ele já está chegando.  

— Eles estão mortos?                                                                                             

— Sim, meu garoto... infelizmente.

As lágrimas escorreram por seu rosto. Seus pais estavam mortos. Por quê?

Eles tinham acabado de sair de um supermercado quando o carro do pai não funcionou. Um soldado que passava por ali ofereceu ajuda. Logan estava jogando seu minigame quando ouviu o som de uma buzina — e, logo depois, sua mãe se jogou sobre ele.

— E o soldado?                                                                                                

— Que soldado, Logan?                                                                                                   

— O que se ofereceu para nos levar quando o carro do papai não funcionou.

— Não havia soldado nenhum. Quero dizer... quando cheguei aqui, no hospital, só falaram de vocês três.   

— O papai tentou ligar o carro, mas não funcionou. Um homem com uniforme militar se aproximou e chamou o papai pelo nome. Ele disse que nos levaria. Era ele quem estava dirigindo.                                 

— Vou procurar informações sobre ele. Você sabe o nome dele? Ou viu alguma insígnia?                           

— Não... eu estava distraído com o meu jogo.                                                             

— Tudo bem. Vamos descobrir. Não se preocupe.

Dias depois, quando já estava recuperado, Logan recebeu uma visita. Um homem de aparência nobre e expressão austera o observava.

— Logan, você se lembra de mim?                                                                    

— Sim... o senhor é o vovô Anthony.                                                                         

— Isso mesmo. Sou seu avô e vim buscá-lo para morar comigo.                              

— Eu não quero ir.                                                                                                       

— Não há ninguém aqui por você, meu rapaz. Eu sou seu único parente. E veja só: tenho uma empresa e pretendo treiná-lo para administrá-la. Afinal, estou ficando velho.                                                                

— Mas eu só tenho onze anos!                                                                                     

— Ótimo, ótimo. Já é um rapazinho. E tenho muito a ensiná-lo.                                      

— Eu não quero ir para a América. Meus pais não gostavam de lá.                          

— Infelizmente, seus pais estão mortos. Isso significa que não são mais as escolhas deles que você deve seguir, mas as minhas. E eu moro nos Estados Unidos.                                                                                   

— Eu posso ficar na base. O general vai deixar. Posso ser um soldado como o meu pai.                                

— Mas não vai. Eu não vou permitir que meu neto — meu único herdeiro — siga uma profissão tão arriscada. Você vai comigo. E não tente me desafiar, rapaz. Não serei tolerante como fui com sua mãe. Se não fosse pela teimosia dela, ela ainda estaria viva.

Logan percebeu as lágrimas nos olhos do avô. Ele havia perdido os pais. Mas seu avô havia perdido a única filha.

Ambos estavam sozinhos.

Sua mãe guardava mágoas de Anthony Fox por ele não ter aceitado seu casamento com um soldado que escolhera viver do outro lado do mundo. Mas, no fim, seu avô a amava — e estava sofrendo.

— Tudo bem. Eu vou com o senhor. Mas, quando crescer, vou ser um soldado igual ao meu pai.                 

— Veremos, meu garoto... veremos.

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