Capítulo 2

Felicity

30 de julho de 2013

— Qual o seu nome?

— Felicity. E o seu?

— Madeline. Você é americana, não é?

— Sou. E você?

— Inglesa. Mas morei um tempo no Canadá e também já estive em outros lugares.

— Legal. É a primeira vez que saio do meu país.

— E veio justamente para um internato rigoroso...

— Aqui é muito ruim?

— “Ruim” seria um termo ameno. Aqui é pior que o inferno! As garotas são horríveis. A administração é pior ainda.

— N-nossa. Faz quanto tempo que você estuda aqui?

— Entrei no ano passado. Meu pai se casou de novo, e a nova esposa não quis a filha de outra mulher em casa. E você? Por que veio pra cá?

— Minha mãe faleceu, e meu padrasto me mandou. Mas acho que aqui não pode ser pior do que conviver com a Brigitte e a Brittany.

— Quem são as vadias?

— A esposa do meu padrasto e a filha dela.

— Cara, que falta de sorte! Bom, vou tentar te ajudar aqui, mas fica esperta: as Cruelas estão procurando novatas para destruir.

— Cruelas?

— É o apelido das garotas que mandam por aqui. Se você for rica — do tipo muito rica — elas não vão te incomodar tanto.

— Entendi...

— Olha, você pode mentir. Dizer que está aqui porque é filha da amante do presidente ou sei lá.

— Já tive um tio presidente. Ele morreu em um acidente, mas...

— Vai dar certo. Elas se interessam por gente influente.

— Hum... Espero sobreviver...

E Felicity sobreviveu aos seis anos no internato na Suíça.

As Cruelas provocavam, mas não eram tão cruéis quanto as pessoas que ela havia deixado em casa.

Madeline não ficou muito tempo. A família não pôde pagar, e ela voltou para seu país.

E, apesar de Felicity desejar fazer amizades, era muito tímida e insegura.

A adolescência foi chegando ao fim, e sua vida se resumia aos estudos e à luta para não voltar aos Estados Unidos antes de poder administrar sua empresa. Com as ameaças de George, ela temia não ter a chance de cuidar do que havia herdado. Até que a ideia de fazer faculdade na Europa começou a surgir em sua mente.

Seu padrasto não concordou. Ele deixou claro que não a manteria mais se ela insistisse.

Então, o jeito foi estudar dobrado e conseguir uma bolsa integral.

Ela conseguiu duas, mas, para a família Benson, cursava apenas uma: Belas Artes.

Sem que soubessem, ela também fazia, a distância, Administração de Empresas em uma universidade inglesa pouco conhecida.

Seu plano estava definido: voltaria para casa e tomaria de volta o que era seu.

Ela só não sabia como faria isso.

Não conhecia o testamento deixado por seu avô.

Não tinha ninguém com quem conversar a respeito.

Seu avô nunca apresentou pessoas da empresa a ela — afinal, morreu quando Felicity tinha apenas onze anos.

Com a ajuda da internet, tentou pesquisar o máximo possível sobre a King Aerospace, mas não tinha como saber quem, entre aquelas pessoas, era de confiança ou se importava com a herdeira.

Em uma tentativa de encontrar ajuda, procurou sua babá nas redes sociais, mas sem sucesso.

Lydia não estava em lugar algum, e o último telefone pelo qual haviam se falado já não existia mais.

A guerra começaria quando ela voltasse — e ela estava com medo.

Principalmente porque sabia que ainda a mantinham sob controle rígido, mesmo estando em Londres.

Na primeira vez que saiu do alojamento estudantil e percebeu um homem a seguindo, pensou que fosse uma tentativa de assalto.

Mas ele não a abordou.

Apenas a seguiu até ela voltar ao campus.

E isso se repetiu todas as vezes.

Ela denunciou o perseguidor, mas foi informada de que o homem trabalhava para seu padrasto e estava ali para garantir sua segurança.

Na verdade, ele estava controlando cada passo seu.

Isso precisava acabar.

Quando voltasse, teria que dar um basta.

O único problema… era que ela não tinha coragem suficiente para enfrentar os Benson.

Ela precisava de ajuda. Mas não sabia a quem recorrer.

(***)

Logan

20 de novembro de 2013, Base americana no Iraque

— Esta será uma missão difícil. Não podemos falhar. Um erro de alguém e todos sofrem. A morte é o menor dos seus problemas. Se forem pegos, preparem-se para o inferno. Todos vocês receberam treinamento nos Estados Unidos. Aqui é o Iraque. Não há apoio externo, não há socorro. Vocês são responsáveis por si mesmos, entenderam?

— Sim, senhor!

— Ótimo. Não espero ter baixas hoje. Se algum de vocês falhar, não vou me importar em deixá-lo para trás. Não estou aqui para cuidar de ninguém. Meu objetivo é eliminar o inimigo e não permitir que ele fuja, e o de vocês deve ser o mesmo. Todos a bordo e preparem-se para enfrentar o inimigo!

Logan perguntou a si mesmo o que estava fazendo ali.

Ele não estava pronto.

O treinamento militar em solo americano não foi fácil, mas não se comparava ao medo de enfrentar terroristas que não tinham medo de nada — e tampouco misericórdia.

Ele subiu no Hummer, segurando sua arma com força.

O maxilar estava travado, e ele tentou controlar o coração acelerado.

Seu avô lhe dissera para não se alistar, que ele não havia nascido para aquilo.

Ele o enfrentou — e agora estava ali, tremendo de medo.

O Hummer percorria a estrada acidentada rumo ao território inimigo.

Informações indicavam terroristas acampados a poucos quilômetros da base, o que os levou àquela missão.

Precisavam eliminar o inimigo antes que fossem eliminados por ele.

O grupo havia feito parte da equipe de Saddam — eles não estavam brincando.

Logan não estava pronto.

O jipe parou, e todos os soldados desceram em meio a uma confusão que fez o sargento responsável chamar-lhes a atenção.

O grupo era composto por uma minoria de veteranos.

Logan era apenas mais um entre muitos soldados recém-treinados.

A diferença é que ele tinha tido uma vida confortável, enquanto muitos daqueles rapazes simplesmente não tinham escolha: era o exército ou a miséria.

Os soldados se embrenharam na mata de pinheiros, avançando lentamente.

A cada passo que dava, o medo o dominava com mais força.

Ele queria desistir. Voltar atrás. Mas não havia escolha.

Uma mina explodiu não muito longe.

Um soldado foi lançado pelos ares. Fim da linha.

A coragem acabou.

Ele não conseguiu mais caminhar.

Uma sensação de pânico tomou conta de suas veias, e a bile subiu à garganta.

Logan começou a vomitar.

Um soldado próximo zombou dele.

Um veterano, vindo logo atrás, o obrigou a continuar.

Ele seguiu à força.

Quando estavam próximos do acampamento, o confronto começou.

Logan não sabia o que fazer.

De repente, todo o seu treinamento parecia inútil.

Ele travou. Tiros zuniam, explosões ecoavam.

Ele se agachou atrás de um pinheiro e ficou ali, tremendo.

Um veterano gritou com ele, mas Logan não ouvia.

Estava em choque.

Viu um terrorista correr com uma granada em direção ao grupo onde estava o sargento, mas não conseguiu alertar nem atirar.

Outro soldado percebeu e disparou, mas não impediu a explosão, que atingiu um novato.

O confronto não durou muito.

Os terroristas teriam sido vitoriosos se não fosse a chegada de reforços.

Uma equipe da Força Aérea, que bombardeava outro acampamento, veio em socorro.

Quando tudo terminou, Logan ainda estava em choque.

O sargento responsável pela incursão foi até ele e desferiu um golpe em seu rosto.

Gritos e xingamentos se seguiram.

Sua inaptidão gerou revolta e críticas de todos os lados.

Mas o pior ainda estava por vir: ele seria deixado ali, sozinho, para passar a noite como punição.

Então, um dos veteranos apontou mais três novatos que também haviam paralisado de medo ou não agiram conforme o treinamento. O sargento os deixou para trás com apenas uma arma para defesa.

Naquela noite, Logan encontrou três irmãos e um salvador.

Alguém que não os julgou por não estarem prontos para o combate.

Ele os resgatou da zona de perigo, mas, infelizmente, um deles foi atingido e ficou gravemente ferido.

Enquanto caminhavam, revezando-se para carregá-lo, o oficial que os encontrou os encorajava.

Apesar disso, Logan tomou uma decisão: não continuaria.

Seu avô tinha razão — ele não era corajoso como seu pai.

Não tinha nascido para aquela vida.

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