Mundo de ficçãoIniciar sessãoLaura acordou antes do despertador tocar.
Levou alguns segundos para perceber que o teto acima de sua cabeça não era o do apartamento onde vivera durante cinco anos.
O quarto era claro, silencioso e tinha o perfume suave de madeira nova misturado ao aroma das flores que decoravam a varanda.
Ela se sentou lentamente na cama.
Durante alguns instantes, apenas observou o ambiente.
A mala permanecia aberta no chão.
Algumas roupas ainda estavam dobradas sobre a poltrona.
A caixa de fotografias continuava fechada ao lado da cabeceira.
Tudo era provisório.
Mas, curiosamente, aquele apartamento transmitia uma paz que ela não sentia havia muito tempo.
Levantou-se, caminhou até a varanda e abriu a porta de vidro.
O vento fresco tocou seu rosto.
Lá embaixo, algumas pessoas passeavam com cachorros enquanto outras caminhavam em direção ao trabalho.
A vida seguia normalmente.
E ela precisava aprender a fazer o mesmo.
Seu celular vibrou.
Na tela apareceu uma mensagem de Marina.
"Já está instalada?"
Laura respondeu quase imediatamente.
"Sim."
"Posso passar aí hoje?"
"Claro."
"Levo café."
Laura sorriu.
Marina sempre aparecia nos momentos difíceis sem fazer perguntas desnecessárias.
Guardou o celular e começou a organizar o apartamento.
Dobrou roupas.
Guardou sapatos.
Colocou alguns porta-retratos sobre o aparador da sala.
Quando abriu a caixa de fotografias, encontrou dezenas de lembranças.
Viagens.
Aniversários.
Natal.
Momentos felizes ao lado de Gustavo.
Olhou cada uma delas durante alguns segundos.
Depois separou todas em uma pilha.
Não teve coragem de jogá-las fora.
Mas também não queria deixá-las expostas.
No fundo da caixa havia uma fotografia antiga.
Ela devia ter uns quinze anos.
Marina fazia careta para a câmera.
Rafael aparecia atrás dela segurando um sorvete enorme enquanto Laura ria sem conseguir olhar para a lente.
A lembrança arrancou um sorriso.
Naquela época, os três acreditavam que seriam amigos para sempre.
A vida tinha outros planos.
Enquanto isso, Gustavo terminava de fazer a barba.
Olhou o relógio.
Bianca insistira para que ele passasse o dia inteiro com ela.
Dizia que agora não existiam mais desculpas.
Tomou café rapidamente.
Ao sair do quarto, o silêncio do apartamento chamou sua atenção.
Instintivamente falou:
— Laura, você viu...
A frase morreu antes de terminar.
Não havia ninguém para responder.
Ele passou a mão na nuca.
Abriu a geladeira.
Havia poucas coisas.
Laura sempre fazia compras às quartas-feiras.
Também costumava deixar frutas cortadas em potes de vidro.
Agora a geladeira parecia vazia.
Pegou uma garrafa de água.
Fechou a porta.
Antes de sair, olhou para o sofá.
A manta cinza continuava dobrada exatamente onde ela havia deixado.
Pensou em guardá-la.
Acabou desistindo.
Pegou as chaves do carro e foi embora.
Bianca o esperava em um café elegante.
Assim que o viu, levantou-se para abraçá-lo.
— Bom dia, namorado.
Gustavo sorriu.
— Bom dia.
Ela segurou seu braço enquanto caminhavam até a mesa.
— Hoje você é todo meu.
— Achei que já fosse ontem.
— Ontem você ainda estava resolvendo burocracias.
Ela riu.
— Hoje começa nossa vida.
Sentaram-se.
Bianca falava sem parar.
Comentava viagens.
Restaurantes.
Uma festa que aconteceria no sábado.
Os amigos queriam conhecê-lo oficialmente.
Ela fazia planos como se o futuro estivesse completamente decidido.
— Vamos para Angra no próximo feriado.
— Pode ser.
— Também quero reformar meu apartamento.
— Hum...
— Você está me ouvindo?
Gustavo piscou.
— Claro.
Ela estreitou os olhos.
— Não parece.
Ele sorriu sem graça.
— Só estou cansado.
Bianca segurou sua mão.
— Esquece tudo o que aconteceu.
Agora somos nós dois.
Ele concordou com um movimento de cabeça.
Mas, estranhamente, continuava sentindo um vazio difícil de explicar.
Pouco antes das dez horas, a campainha do apartamento de Laura tocou.
Marina entrou carregando duas sacolas.
— Trouxe café, pão de queijo, bolo de milho e brigadeiro.
Laura riu.
— Isso alimenta um batalhão.
— Sofrimento dá fome.
As duas se abraçaram.
Sentaram-se na varanda.
Conversaram durante quase uma hora.
Marina escutava tudo atentamente.
Quando Laura terminou de contar sobre o pedido absurdo de Gustavo, a amiga balançou a cabeça, indignada.
— Ele enlouqueceu.
— Acho que ele realmente acredita que tudo voltará ao normal.
— E você?
Laura olhou para a xícara.
— Não existe volta.
Marina sorriu discretamente.
— Ainda bem.
Laura ergueu os olhos.
— Ainda bem?
— Você merece alguém que a coloque em primeiro lugar.
Ela permaneceu em silêncio.
Marina apoiou a mão sobre a dela.
— Posso fazer uma pergunta?
— Claro.
— Você encontrou Rafael ontem?
Laura sorriu.
— Encontrei.
— Meu Deus...
Marina levou a mão ao peito.
— Faz quantos anos?
— Uns seis.
— Continua bonito?
Laura riu.
— Marina...
— O quê? Estou curiosa.
— Mudou bastante.
— Bonito ou não?
Laura balançou a cabeça.
— Sim...
Marina sorriu de um jeito malicioso.
— Eu sabia.
Laura respirou fundo.
— Ele continua exatamente como era.
Educado.
Calmo.
Respeitoso.
Marina ficou alguns segundos observando a amiga.
Depois falou baixinho:
— Você sabe que ele gostava de você.
Laura arregalou os olhos.
— Não.
— Sabia, sim.
— Nunca falou nada.
— Porque você começou a namorar Gustavo.
Laura permaneceu imóvel.
Marina continuou.
— Rafael preferiu respeitar sua escolha.
Jamais tentou atrapalhar seu relacionamento.
Laura sentiu um aperto no peito.
Durante todos aqueles anos, nunca havia pensado nessa possibilidade.
Sempre enxergara Rafael como um amigo.
Um porto seguro.
Marina sorriu.
— Ele sofreu muito quando você se afastou.
Laura baixou os olhos.
— Eu fui injusta.
— Você estava apaixonada.
— Mesmo assim...
Respirou fundo.
— Eu poderia ter explicado.
Marina apertou sua mão.
— Ainda há tempo de recuperar uma amizade.
Laura não respondeu.
Mas aquelas palavras permaneceram ecoando dentro dela.
No início da tarde, seu celular tocou.
Era Rafael.
Ela hesitou antes de atender.
— Oi.
— Estou incomodando?
— Não.
— Só queria saber se você conseguiu se instalar.
Laura sorriu.
— Consegui.
— Faltou alguma coisa?
Ela olhou ao redor.
— Acho que não.
— Tem certeza?
— Sim.
Ele riu.
— Então fico mais tranquilo.
Houve alguns segundos de silêncio.
Rafael quebrou o clima.
— Está ocupada agora?
— Não.
— Almoçou?
— Ainda não.
— Conheço um restaurante perto daí.
A comida é excelente.
Laura pensou por alguns instantes.
Não queria ficar sozinha o restante do dia.
Também não queria dar qualquer significado diferente ao convite.
Era apenas um almoço entre amigos.
— Tudo bem.
— Passo aí em meia hora.
Depois que desligou, Laura percebeu que estava sorrindo.
Não era um sorriso apaixonado.
Era o conforto de reencontrar alguém que fazia parte das melhores lembranças da sua vida.
Rafael chegou exatamente no horário combinado.
Ao vê-la sair do prédio usando uma calça jeans clara e uma camisa branca simples, abriu um sorriso espontâneo.
— Você está com uma aparência melhor.
Laura brincou.
— Então ontem eu estava um desastre?
— Ontem você parecia alguém que tinha carregado o mundo inteiro nas costas.
Ela riu.
Entrou no carro.
Durante o trajeto, conversaram sobre assuntos leves.
Escola.
Professores antigos.
Os amigos da adolescência.
Histórias engraçadas que pareciam esquecidas.
Em poucos minutos, a tensão dos últimos dias começava a diminuir.
Rafael percebeu.
E ficou satisfeito.
Não precisava fazer grandes gestos.
Se conseguisse devolver um pouco da alegria que Laura perdera, já estaria feliz.
Os dois entraram no restaurante ainda conversando sobre uma viagem escolar desastrosa em que Marina havia confundido açúcar com sal durante um café da manhã.
Laura ria tanto que precisou enxugar uma lágrima no canto dos olhos.
Sem que nenhum dos dois percebesse, uma mulher sentada na mesa ao lado observava discretamente a cena.
Ela pegou o celular.
Fotografou Laura e Rafael juntos.
Sorriu.
Conhecia Bianca desde a faculdade.
E tinha certeza de que aquela imagem renderia uma conversa muito interessante.
Enquanto isso, completamente alheios ao olhar curioso da desconhecida, Laura e Rafael continuavam recuperando uma amizade que jamais deveria ter sido interrompida.







