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Capítulo 6 – Fotografias Que Acendem Tempestades

O almoço terminou quase duas horas depois.

Laura nem percebeu o tempo passar.

Rafael contava histórias da época da escola com tantos detalhes que ela conseguia visualizar cada cena como se estivesse acontecendo outra vez.

— Você lembra do professor Ernesto? — perguntou ele enquanto esperavam a sobremesa.

Laura riu imediatamente.

— O de História?

— O próprio.

— Como esquecer? Você vivia discutindo com ele.

Rafael fez uma expressão indignada.

— Eu não discutia.

— Ah, não?

Ela cruzou os braços, divertida.

— Você corrigia as datas das aulas na frente da turma inteira.

— Porque ele errava.

— E era necessário constrangê-lo?

— Eu era um adolescente cheio de convicções.

Laura levou a mão à boca para conter outra risada.

— Continua sendo.

— Só aprendi a disfarçar melhor.

Os dois voltaram a rir.

O garçom trouxe duas fatias de torta de limão.

Laura olhou para o prato e sorriu.

— Você ainda lembra que essa é minha sobremesa favorita?

Rafael deu de ombros.

— Algumas coisas a gente não esquece.

A resposta foi simples.

Natural.

Mesmo assim, Laura ficou alguns segundos olhando para ele.

Era curioso perceber que Rafael ainda guardava lembranças tão pequenas.

Gustavo nunca conseguiu decorar sequer qual era seu café favorito.

Ela afastou o pensamento imediatamente.

Não queria transformar aquele almoço em uma comparação.

Seu casamento havia terminado.

Continuar revivendo mágoas apenas prolongaria a dor.

— Em que está pensando? — perguntou Rafael.

Laura balançou a cabeça.

— Em nada importante.

Ele não insistiu.

Conhecia aquele jeito dela.

Quando queria falar, falava.

Quando precisava de silêncio, bastava permanecer ao lado.

Foi exatamente isso que fez.

Na mesa ao lado, Camila observava discretamente os dois.

Ela conhecia Bianca desde os tempos da faculdade.

Não eram melhores amigas, mas pertenciam ao mesmo grupo social e costumavam frequentar as mesmas festas.

Pegou novamente o celular.

Aproximou o zoom.

Mais uma fotografia.

Laura sorrindo.

Rafael olhando para ela enquanto falava.

Depois gravou um pequeno vídeo de poucos segundos.

Nada comprometedor.

Mas suficiente para despertar curiosidade.

Sem pensar duas vezes, enviou tudo para Bianca.

A mensagem foi curta.

"Você não disse que o namorado acabou de se divorciar? Acho que a ex dele não perdeu tempo."

Bianca estava experimentando vestidos em uma boutique quando o celular vibrou.

Ela abriu a conversa.

Franziu a testa.

Depois ampliou a fotografia.

— Quem é esse homem?

A segunda imagem mostrava Rafael puxando a cadeira para Laura sentar.

A terceira registrava os dois sorrindo.

Bianca apertou os lábios.

Não gostou do que viu.

Não por ciúmes de Laura.

Mas porque conhecia Gustavo.

Homens como ele odiavam descobrir que a mulher que haviam deixado seguia em frente rapidamente.

Pensou durante alguns segundos.

Depois sorriu.

Aquele material poderia ser bastante útil.

Quando o almoço terminou, Rafael insistiu em acompanhar Laura até uma livraria que ficava na mesma avenida.

— Você continua comprando livros sem necessidade?

Ela sorriu.

— Nunca é sem necessidade.

Entraram.

O cheiro de papel novo fez Laura fechar os olhos por um instante.

Sempre amou aquele ambiente.

Percorreu os corredores lentamente.

Passou os dedos pelas lombadas dos romances.

Pegou um livro.

Depois outro.

Rafael observava tudo em silêncio.

Até que ela parou diante de uma edição antiga de "Orgulho e Preconceito".

— Esse foi você quem me deu.

Ela olhou para ele.

— Lembra?

— Claro.

Você reclamou porque queria um romance moderno.

Laura gargalhou.

— Eu era insuportável.

— Um pouco.

Ela fingiu indignação.

— Só um pouco?

— Bastante.

Os dois voltaram a rir.

Uma senhora que passava pelo corredor sorriu ao vê-los.

— Vocês formam um casal muito bonito.

Laura e Rafael ficaram completamente sem reação.

A senhora continuou caminhando antes que qualquer um pudesse responder.

Laura abaixou a cabeça, visivelmente sem graça.

Rafael coçou discretamente a nuca.

— Acho que...

Ela o interrompeu, rindo.

— Não precisa explicar.

— Ainda bem.

Os dois saíram da livraria carregando alguns livros e continuaram caminhando pela praça em frente.

A conversa mudou de assunto naturalmente.

Nenhum deles voltou a mencionar o comentário da senhora.

Enquanto isso, Gustavo terminava uma reunião quando Bianca entrou em seu escritório.

Ela não avisou que passaria.

Fechou a porta e caminhou até a mesa.

— Tenho uma surpresa.

Ele sorriu.

— Espero que seja boa.

Ela colocou o celular diante dele.

— Olha isso.

Gustavo pegou o aparelho sem imaginar o que veria.

Bastou uma fotografia.

Seu semblante mudou completamente.

Laura.

Sentada em um restaurante.

Sorrindo.

Na companhia de Rafael.

Passou para a imagem seguinte.

Depois outra.

Em seguida, assistiu ao pequeno vídeo.

O sorriso desapareceu.

Bianca observava atentamente cada reação.

— Interessante, não acha?

Gustavo devolveu o celular.

— Onde conseguiu isso?

— Uma amiga estava no mesmo restaurante.

Ele permaneceu em silêncio.

Bianca cruzou os braços.

— Parece que sua ex-esposa não sofreu tanto quanto imaginávamos.

— Ela tem direito de almoçar com quem quiser.

A resposta saiu rápida demais.

Como se estivesse tentando convencer a si mesmo.

Bianca arqueou uma sobrancelha.

— Claro que tem.

Mas você conhece esse homem?

Gustavo respirou fundo.

— Conheço.

— Quem é?

— Rafael.

— Só isso?

Ele demorou alguns segundos para responder.

— Cresceu com ela.

Sempre foram muito próximos.

Bianca percebeu o leve endurecimento da voz dele.

Sorriu internamente.

Havia acertado.

— Então ele esperou você sair de cena.

— Não fala do que não sabe.

Ela se aproximou da mesa.

— Estou apenas comentando.

Se divorciaram ontem.

Hoje ela já está passeando com outro homem.

Gustavo levantou-se abruptamente.

— Eles eram amigos antes mesmo de eu conhecer Laura.

Bianca ficou surpresa com a intensidade da resposta.

— Tudo bem.

Não precisa ficar nervoso.

Ele caminhou até a janela do escritório.

Olhou a cidade movimentada lá embaixo.

As imagens insistiam em voltar à sua mente.

Laura sorrindo.

Laura conversando.

Laura parecendo... leve.

Estranho.

Quando imaginou aqueles trinta dias, sempre acreditou que ela permaneceria em casa.

Triste.

Esperando sua volta.

Jamais cogitou que ela reconstruiria a própria rotina tão rapidamente.

Sentiu um aperto no peito.

Não era ciúme.

Tentou convencer a si mesmo disso.

Era apenas surpresa.

Nada além.

No início da noite, Rafael deixou Laura em frente ao prédio.

Antes que ela descesse do carro, ele falou:

— Sábado alguns amigos vão fazer um jantar.

Ela o encarou.

— E?

— Acho que você deveria ir.

Laura sorriu.

— Não conheço ninguém.

— Conhece a mim.

Ela permaneceu em silêncio.

— Não estou tentando forçar nada.

Só acho que ficar trancada em casa não vai ajudar.

Laura olhou para o edifício.

Depois voltou a encará-lo.

Talvez ele tivesse razão.

Sua vida não podia parar por causa das escolhas de Gustavo.

— Está bem.

Eu vou.

Rafael sorriu satisfeito.

— Prometo que será uma noite tranquila.

Ela riu.

— Você acabou de criar uma expectativa enorme.

— Então preciso fazer valer a promessa.

Laura desceu do carro acenando.

Entrou no prédio sem imaginar que, naquele mesmo instante, Gustavo continuava olhando as fotografias enviadas por Bianca.

Quanto mais observava aquelas imagens, mais uma pergunta crescia dentro dele.

Por que Laura parecia tão feliz ao lado de Rafael?

E por que isso o incomodava tanto, se o divórcio tinha sido ideia dele?

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