Mundo de ficçãoIniciar sessãoAura Keller
Quando acordei, a luz do dia entrava pelas cortinas claras do hotel. Por um segundo, não entendi onde estava. Minha cabeça latejava, a boca estava seca e meu corpo parecia pesado. Sentei na cama rápido, assustada, e olhei ao redor. O quarto estava arrumado. Minhas roupas estavam intactas. Nada do meu corpo doía de forma estranha. Ninguém tinha me tocado.
Mesmo assim, o pânico veio forte. Eu ainda conseguia sentir o gosto amargo daquela taça. Ainda via os dois homens me seguindo. Meu coração disparou e as lágrimas vieram sem aviso.
Olhei para a mesinha de cabeceira e vi um bilhete dobrado. Peguei com as mãos trêmulas.
"Depois que acordar, me ligue. Precisamos conversar. Lucas."
Havia um número de telefone embaixo. Eu não lembrava o rosto dele com clareza. Só lembrava que ele tinha colocado a mão na minha boca e me escondido. Que ele não acreditou em mim no começo.
Meu peito apertou. Eu precisava sair dali. Precisava ir para casa.
Saí do hotel como uma sonâmbula, peguei um táxi e voltei para casa com o coração na garganta. O bilhete estava amassado dentro da minha bolsa.
Quando entrei, a cena que vi me paralisou.
Beatriz estava sentada à mesa da sala de jantar, usando minhas roupas de dormir, o conjunto de seda azul que Miguel tinha me dado no nosso aniversário de casamento. Ela bebia café calmamente, como se fosse dona da casa. Miguel estava ao lado dela, com o rosto sério.
Os dois viraram para mim ao mesmo tempo.
"Onde você estava, porra?" Miguel se levantou, a voz carregada de raiva. "Você some a noite inteira e agora aparece assim? Como se nada tivesse acontecido? Isso não é comportamento de uma mulher casada, Aura!"
Eu abri a boca, mas as palavras demoraram a sair. Meu corpo ainda estava fraco.
"Beatriz me drogou..." falei, a voz rouca. "Ela colocou alguma coisa na minha taça. Dois homens começaram a me seguir. Eu tive que me esconder. Eu quase..."
"Chega!" ele me cortou, batendo a mão na mesa. "Você some e agora quer virar o jogo? Beatriz estava preocupada pra caralho com você! Ficou aqui comigo a noite inteira tentando te achar enquanto você estava por aí fazendo Deus sabe o quê!"
Beatriz colocou a mão no braço dele, com expressão de vítima.
"Eu falei pra você que ela estava fazendo isso por ciúmes, Miguel. Eu fiquei aqui o tempo todo. Como posso ser culpada se eu estive ao lado de Miguel a noite inteira?"
Eu senti o sangue ferver.
"Você está mentindo!" gritei, olhando para Beatriz. "Foi você! Você sempre fez isso! Sempre manipulou ele!"
Beatriz se levantou devagar, ainda usando minhas roupas.
"Eu acho melhor eu ir embora..." disse ela, com a voz trêmula. "Não quero causar problema entre vocês."
"Não!" Miguel segurou o braço dela. —"Você não vai a lugar nenhum. Você vai ficar aqui com a gente por uns dias. Ainda não se adaptou de volta à cidade."
Eu olhei para ele, incrédula.
"Você está ouvindo o que está falando, Miguel? Ela está usando minhas roupas! Dormiu na nossa cama? E agora vai ficar aqui?"
Ele me encarou com frieza.
"Para de drama. É por poucos dias. E sim, ela vai ficar no nosso quarto. Ela tem medo de escuro e essa casa é muito sombria. Você pega suas coisas e leva pro quarto de hóspedes."
Eu senti algo se quebrar dentro de mim. Uma dor tão grande que quase não conseguia respirar.
"Você está se ouvindo?" minha voz saiu baixa, quase um sussurro. "Você está realmente me pedindo pra sair do meu próprio quarto pra sua amiga de infância dormir com você?"
Miguel abriu a boca para responder, mas o celular dele tocou. Ele olhou para a tela e saiu para atender, me deixando sozinha com ela.
Beatriz se aproximou devagar, até ficar bem na minha frente. O sorriso doce desapareceu. Sobrou só frieza.
"Não sei como você conseguiu escapar ontem " sussurrou ela. "Mas isso não muda nada. Você dormiu fora de casa. Deve ter ficado com outro homem. Eu vou fazer o Miguel ver exatamente quem você é."
Eu não pensei. A raiva, a humilhação e a dor de anos saíram todas de uma vez. Dei um tapa forte na cara dela. O som ecoou pela sala.
Beatriz soltou um grito e se jogou para trás, caindo sobre a mesinha de centro de vidro. O vidro quebrou com um estrondo alto. Ela caiu no chão, com um corte no braço que começou a sangrar.
Miguel voltou correndo.
"O que você fez?!" ele berrou.
Antes que eu pudesse explicar, ele me agarrou pelos ombros e me jogou contra a parede com força. Minha cabeça bateu com violência no pilar. Uma dor explosiva subiu pela nuca e o mundo girou por um segundo.
"Você está louca?!" ele gritou, o rosto vermelho de raiva. "Você machucou ela!"
Beatriz começou a chorar, segurando o braço.
"Eu não quero mais ficar aqui, Miguel... ela está com muito ciúme... eu tenho medo dela..."
Miguel a pegou no colo sem hesitar.
"Vou te levar pro hospital, Bia. Vai ficar tudo bem, não se preocupe."
Ele passou por mim como se eu fosse invisível. Antes de sair, virou o rosto e disse:
"Quando eu voltar, quero que suas coisas estejam fora do nosso quarto."
A porta bateu.
Fiquei ali, encostada na parede, com a cabeça latejando e o corpo tremendo. As lágrimas desciam sem parar. Eu não conseguia mais aguentar.
Dona Sônia apareceu correndo da cozinha, pálida.
"Minha filha... meu Deus..." ela ajoelhou ao meu lado e me ajudou a sentar no sofá." Você não pode aceitar isso. Como um marido pode fazer isso com uma esposa tão boa?"
Eu solucei.
"Beatriz sempre fez isso... sempre manipulou ele... mas pra mim chega, Sônia. Chega."
Subi as escadas cambaleante. Entrei no quarto de hóspedes, abri o armário e comecei a tirar minhas roupas do quarto principal. Cada peça que eu tirava parecia arrancar um pedaço de mim.
Quando terminei, sentei na escrivaninha do quarto de hóspedes, liguei o notebook e abri um documento novo.
Pedido de divórcio.
Minhas mãos ainda tremiam quando comecei a digitar. As lágrimas caíam sobre o teclado, mas eu não parei.
Por três anos eu tentei consertar as coisas entre nós, mas agora eu não estava mais tentando, eu estava acabando com tudo que um dia eu sonhei para nós.







