Mundo de ficçãoIniciar sessãoO som estridente do celular de Carlos cortou a atmosfera matinal da sala de jantar como uma lâmina afiada. Era o segundo dia após o início oficial da contagem regressiva para o casamento, e o café da manhã, que deveria ser um momento de celebração burguesa, transformou-se em um cenário de filme de terror corporativo.
Carlos atendeu o aparelho com o rosto avermelhado de impaciência, as mãos levemente trêmulas enquanto tentava manter a compostura diante da esposa e da filha favorita. — Alô? Quem fala? ... O que quer dizer com contas bloqueadas? Como assim o Banco Central e a auditoria federal congelaram os fundos de reserva da construtora?! — o grito de Carlos ecoou pelas paredes revestidas de madeira nobre, fazendo com que a xícara de café escorregasse de seus dedos e espatifasse no tapete persa de alto padrão, espalhando líquido escuro por toda a extensão. Helena soltou um grito abafado, levando as mãos à boca em sinal de choque absoluto. — Carlos! O que está acontecendo? Do que você está falando? Júlia, que estava no meio de uma mordida em um croissant, parou instantaneamente, com os olhos arregalados de pânico. — Pai, é brincadeira, né? O senhor está falando do casamento? O orçamento da festa não foi mexido, foi? Rodrigo, que acabara de entrar na sala com seu terno impecável de grife — o mesmo terno que eu havia financiado anonimamente para alimentar sua vaidade —, franziu o cenho com força. Ele deu dois passos largos até o sogro, segurando-o pelos ombros. — Carlos, olhe para mim. Que história é essa de bloqueio? Minhas ações na construtora estão atreladas a esses fundos! Se houver congelamento, nossos contratos com a prefeitura vão por água abaixo em poucas horas! Enquanto o caos absoluto se instalava ao meu redor, eu permaneci perfeitamente imóvel na minha cadeira. Mantive a cabeça baixa, os ombros ligeiramente caídos e os lábios entreabertos em uma expressão de choque fingido, exatamente como a "pobre noiva ingenua" que eles acreditavam que eu era. Mas por dentro, o meu cérebro operava em rotação máxima. Na tela holográfica invisível que apenas os meus óculos de contato inteligentes projetavam na minha retina, os códigos da Nexis AI executavam a segunda fase do protocolo: o rastreamento cruzado de todas as contas offshore que Carlos e Rodrigo utilizavam para desviar verbas públicas. Cada centavo ilegal estava sendo catalogado e enviado de forma encriptada para a mesa do promotor mais implacável do estado. — Eles dizem... que há evidências de fraudes fiscais e lavagem de dinheiro datadas dos últimos cinco anos — gaguejou Carlos, o suor frio brotando em sua testa enquanto ele encarava a tela do próprio celular, onde um relatório oficial de congelamento de ativos piscava em vermelho-sangue. — Não é possível! Quem fez isso? Quem teve acesso aos servidores internos da empresa?! — Calma, pai! Deve ser um erro do sistema, um bug temporário da Receita Federal! — tentou argumentar Rodrigo, embora sua voz já estivesse falhando, traindo o verniz de segurança que ele tanto amava ostentar. Seus olhos correram pela sala até pararem em mim. Por um segundo fugaz, uma sombra de dúvida cruzou o olhar dele. — Valentina... você... você mexeu em algum computador da escritório recentemente? O silêncio na sala tornou-se espesso como chumbo. Helena e Júlia viraram-se para mim ao mesmo tempo, os olhares carregados de um ranço antigo e desconfiança súbita. Levantei o rosto lentamente, permitindo que uma lágrima solitária — totalmente controlada pela minha vontade — escorresse pela minha bochecha. Fiz minha voz tremer de medo genuíno, injetando toda a fragilidade que eles esperavam da "filha adotiva problemática". — Eu? S-saber mexer em computadores corporativos, Rodrigo? Você sabe que eu mal sei lidar com a planilha de convites do casamento... — comecei a soluçar baixinho, fingindo tremer as mãos sobre o colo. — Eu só queria que o nosso casamento fosse perfeito... por que vocês estão me olhando assim? Eu não fiz nada! A atuação foi perfeita. A reação deles foi imediata: um misto de alívio arrogante e desdém profundo. — É claro que ela não fez nada, Rodrigo! Deixe de ser paranóico — interveio Helena, irritada, correndo para acalmar o futuro genro. — A Valentina mal sabe somar troco na padaria, quanto mais hackear o sistema financeiro do país. Ela é incapaz de formular um pensamento estratégico complexo. É só o estresse da nossa situação que está fazendo você ver fantasmas. Rodrigo respirou fundo, balançando a cabeça como se censurasse a si mesmo por ter cogitado tal absurdo. Ele se aproximou de mim, forçando um sorriso condescendente, e tocou meu ombro com uma falsa ternura que me embrulhou o estômago. — Me desculpe, meu amor. O estresse está me deixando louco. Não foi minha intenção duvidar de você — sussurrou ele, antes de se voltar desesperado para Carlos. — Venha, Carlos. Precisamos ir agora mesmo para o escritório central. Se não reversmos isso antes do meio-dia, estaremos arruinados antes mesmo do sábado. Enquanto os três saíam correndo da mansão em estado de choque, tropeçando uns nos outros em direção aos carros, fiquei para trás na sala de jantar silenciosa. Limpei a lágrima falsa do meu rosto com as costas da mão. O sorriso gélido voltou aos meus lábios, desenhando uma linha de pura satisfação. Enquanto isso, a quilômetros dali, nos andares superiores da torre de vidro da Vance Tech, outro homem observava os gráficos do mercado desabar exatamente onde a Nexis AI havia calculado. Arthur Vance girava uma caneta de metal entre os dedos, com um sorriso enigmático nos lábios ao ver o relatório de movimentações financeiras anônimas. — Quem quer que esteja destruindo a construtora por dentro... tem a mente de uma verdadeira imperatriz — murmurou Arthur para si mesmo, sentindo o peito vibrar com uma adrenalina rara. — E eu mal posso esperar para conhecê-la.






