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Capítulo 2: O Desespero Antes da Queda

​O som estridente do celular de Carlos cortou a atmosfera matinal da sala de jantar como uma lâmina afiada. Era o segundo dia após o início oficial da contagem regressiva para o casamento, e o café da manhã, que deveria ser um momento de celebração burguesa, transformou-se em um cenário de filme de terror corporativo.

​Carlos atendeu o aparelho com o rosto avermelhado de impaciência, as mãos levemente trêmulas enquanto tentava manter a compostura diante da esposa e da filha favorita.

​— Alô? Quem fala? ... O que quer dizer com contas bloqueadas? Como assim o Banco Central e a auditoria federal congelaram os fundos de reserva da construtora?! — o grito de Carlos ecoou pelas paredes revestidas de madeira nobre, fazendo com que a xícara de café escorregasse de seus dedos e espatifasse no tapete persa de alto padrão, espalhando líquido escuro por toda a extensão.

​Helena soltou um grito abafado, levando as mãos à boca em sinal de choque absoluto.

— Carlos! O que está acontecendo? Do que você está falando?

​Júlia, que estava no meio de uma mordida em um croissant, parou instantaneamente, com os olhos arregalados de pânico.

— Pai, é brincadeira, né? O senhor está falando do casamento? O orçamento da festa não foi mexido, foi?

​Rodrigo, que acabara de entrar na sala com seu terno impecável de grife — o mesmo terno que eu havia financiado anonimamente para alimentar sua vaidade —, franziu o cenho com força. Ele deu dois passos largos até o sogro, segurando-o pelos ombros.

— Carlos, olhe para mim. Que história é essa de bloqueio? Minhas ações na construtora estão atreladas a esses fundos! Se houver congelamento, nossos contratos com a prefeitura vão por água abaixo em poucas horas!

​Enquanto o caos absoluto se instalava ao meu redor, eu permaneci perfeitamente imóvel na minha cadeira. Mantive a cabeça baixa, os ombros ligeiramente caídos e os lábios entreabertos em uma expressão de choque fingido, exatamente como a "pobre noiva ingenua" que eles acreditavam que eu era. Mas por dentro, o meu cérebro operava em rotação máxima.

​Na tela holográfica invisível que apenas os meus óculos de contato inteligentes projetavam na minha retina, os códigos da Nexis AI executavam a segunda fase do protocolo: o rastreamento cruzado de todas as contas offshore que Carlos e Rodrigo utilizavam para desviar verbas públicas. Cada centavo ilegal estava sendo catalogado e enviado de forma encriptada para a mesa do promotor mais implacável do estado.

​— Eles dizem... que há evidências de fraudes fiscais e lavagem de dinheiro datadas dos últimos cinco anos — gaguejou Carlos, o suor frio brotando em sua testa enquanto ele encarava a tela do próprio celular, onde um relatório oficial de congelamento de ativos piscava em vermelho-sangue. — Não é possível! Quem fez isso? Quem teve acesso aos servidores internos da empresa?!

​— Calma, pai! Deve ser um erro do sistema, um bug temporário da Receita Federal! — tentou argumentar Rodrigo, embora sua voz já estivesse falhando, traindo o verniz de segurança que ele tanto amava ostentar. Seus olhos correram pela sala até pararem em mim. Por um segundo fugaz, uma sombra de dúvida cruzou o olhar dele. — Valentina... você... você mexeu em algum computador da escritório recentemente?

​O silêncio na sala tornou-se espesso como chumbo. Helena e Júlia viraram-se para mim ao mesmo tempo, os olhares carregados de um ranço antigo e desconfiança súbita.

​Levantei o rosto lentamente, permitindo que uma lágrima solitária — totalmente controlada pela minha vontade — escorresse pela minha bochecha. Fiz minha voz tremer de medo genuíno, injetando toda a fragilidade que eles esperavam da "filha adotiva problemática".

​— Eu? S-saber mexer em computadores corporativos, Rodrigo? Você sabe que eu mal sei lidar com a planilha de convites do casamento... — comecei a soluçar baixinho, fingindo tremer as mãos sobre o colo. — Eu só queria que o nosso casamento fosse perfeito... por que vocês estão me olhando assim? Eu não fiz nada!

​A atuação foi perfeita. A reação deles foi imediata: um misto de alívio arrogante e desdém profundo.

​— É claro que ela não fez nada, Rodrigo! Deixe de ser paranóico — interveio Helena, irritada, correndo para acalmar o futuro genro. — A Valentina mal sabe somar troco na padaria, quanto mais hackear o sistema financeiro do país. Ela é incapaz de formular um pensamento estratégico complexo. É só o estresse da nossa situação que está fazendo você ver fantasmas.

​Rodrigo respirou fundo, balançando a cabeça como se censurasse a si mesmo por ter cogitado tal absurdo. Ele se aproximou de mim, forçando um sorriso condescendente, e tocou meu ombro com uma falsa ternura que me embrulhou o estômago.

​— Me desculpe, meu amor. O estresse está me deixando louco. Não foi minha intenção duvidar de você — sussurrou ele, antes de se voltar desesperado para Carlos. — Venha, Carlos. Precisamos ir agora mesmo para o escritório central. Se não reversmos isso antes do meio-dia, estaremos arruinados antes mesmo do sábado.

​Enquanto os três saíam correndo da mansão em estado de choque, tropeçando uns nos outros em direção aos carros, fiquei para trás na sala de jantar silenciosa.

​Limpei a lágrima falsa do meu rosto com as costas da mão. O sorriso gélido voltou aos meus lábios, desenhando uma linha de pura satisfação.

​Enquanto isso, a quilômetros dali, nos andares superiores da torre de vidro da Vance Tech, outro homem observava os gráficos do mercado desabar exatamente onde a Nexis AI havia calculado. Arthur Vance girava uma caneta de metal entre os dedos, com um sorriso enigmático nos lábios ao ver o relatório de movimentações financeiras anônimas.

​— Quem quer que esteja destruindo a construtora por dentro... tem a mente de uma verdadeira imperatriz — murmurou Arthur para si mesmo, sentindo o peito vibrar com uma adrenalina rara. — E eu mal posso esperar para conhecê-la.

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