Coincidência

Capítulo 6

Manuela acordou às sete e treze da manhã com a sensação de que alguma coisa estava errada.

Por alguns segundos, não soube onde estava.

O teto não era o de seu quarto.

Os lençóis tinham cheiro diferente.

As cortinas estavam completamente fechadas.

Então lembrou.

Henrique.

O celular.

A fotografia.

A aliança.

O hotel.

Vicente.

Manuela abriu os olhos.

— Ótimo.

De todas as coisas que poderiam ter ocupado seu primeiro pensamento naquela manhã, o desconhecido do bar definitivamente não deveria estar entre elas.

Virou para o lado e procurou o celular.

Estava desligado sobre o criado-mudo.

Ela o encarou.

Talvez pudesse permanecer assim durante cinco dias.

Era tentador.

Mas sua mãe provavelmente já estaria prestes a mobilizar a polícia, os bombeiros e metade da família.

Manuela respirou fundo e ligou o aparelho.

A tela pareceu enlouquecer.

Mensagens.

Chamadas perdidas.

Notificações.

Mãe — 17 chamadas.

Henrique — 11 chamadas.

Isabela — 6 mensagens.

Cerimonial — 3 chamadas.

Além de familiares, amigas e números que ela nem reconhecia.

Manuela fechou os olhos.

Aquilo era justamente o que tinha tentado deixar para trás.

Abriu primeiro a conversa com Isabela.

Chegou?

Manuela, responde.

Se você estiver dormindo, ignora meu surto.

Sua mãe está me ligando.

Eu disse que você está bem. Não falei onde está.

Henrique também me ligou. Não atendi porque sou uma amiga exemplar e talvez porque eu queira cometer um crime.

Apesar de tudo, Manuela sorriu.

Digitou:

Estou viva. Dormi. Não mate ninguém.

A resposta veio quase imediatamente.

Não prometo.

Manuela deixou o celular sobre a cama.

Então viu a mensagem da mãe.

Filha, só me diga que está bem. Não precisa explicar nada.

O peito apertou.

Ela ligou.

A mãe atendeu antes do segundo toque.

— Manuela?

— Oi, mãe.

— Meu Deus. Onde você está?

Manuela fechou os olhos.

— Estou bem.

— Isso não responde.

— Eu sei.

Silêncio.

— Henrique apareceu aqui ontem.

Manuela apertou os lençóis.

— O que ele falou?

— Só disse que vocês brigaram e que você precisava de espaço.

Claro.

Henrique não tinha contado.

— Mãe...

A voz falhou.

Do outro lado, a mãe ficou quieta.

— O casamento não vai acontecer.

A frase finalmente saiu.

Era a primeira vez que Manuela dizia aquilo em voz alta para alguém além de Henrique e Isabela.

Pareceu definitivo.

— O quê?

— Eu cancelei.

— Manu, o que aconteceu?

Ela olhou para a mão esquerda.

A marca ainda estava ali.

— Eu não consigo falar sobre isso agora.

— Ele fez alguma coisa?

Manuela sentiu os olhos arderem.

— Fez.

A mãe respirou fundo.

— Você está segura?

— Estou.

— Está sozinha?

Manuela hesitou.

Pensou em Vicente.

Absurdo.

— Estou.

— Quer que eu vá buscar você?

— Não.

— Tem certeza?

— Preciso ficar sozinha um pouco.

Houve uma pausa.

— Então fica.

Manuela quase chorou.

Esperava perguntas.

Conselhos.

Talvez até aquela frase terrível: pensa bem antes de jogar tudo fora.

Mas a mãe apenas continuou:

— Quando quiser voltar, me liga. Não importa a hora.

— Obrigada.

— E come alguma coisa.

Manuela riu entre as lágrimas.

— Pode deixar.

— Eu te amo.

— Também te amo.

Desligou.

Ficou alguns minutos sentada na cama.

Depois abriu a conversa de Henrique.

Onze chamadas.

Cinco mensagens.

Não abriu nenhuma.

Colocou o celular no silencioso.

Precisava comer.

A ordem da mãe ainda funcionava aos trinta e três anos.

Quarenta minutos depois, Manuela entrou no restaurante do hotel usando um vestido leve, sandálias e óculos escuros grandes demais para um ambiente fechado.

Não eram estilo.

Eram estratégia.

Escondiam perfeitamente os olhos inchados.

Escolheu uma mesa perto da janela.

O café da manhã tinha tudo o que alguém poderia desejar.

Pães.

Frutas.

Bolos.

Ovos.

Sucos.

Manuela olhou para aquilo sem vontade nenhuma.

Pegou café.

Uma fatia de pão.

Algumas frutas.

Sentou.

Seu celular vibrou.

Henrique.

Ela virou a tela para baixo.

— Estratégia eficiente.

Manuela congelou por meio segundo.

Conhecia aquela voz.

Levantou o rosto.

Vicente estava parado ao lado da mesa.

Calça escura.

Camisa azul clara.

Mangas novamente dobradas.

Cabelo ainda ligeiramente úmido.

Ele parecia irritantemente descansado.

— Está me seguindo?

— Bom dia para você também.

— Bom dia.

Vicente indicou o celular virado para baixo.

— Eu estava falando disso.

— Continua parecendo perseguição.

— Prometo que não invadi seu quarto.

— Reconfortante.

Ele sorriu.

Manuela olhou ao redor.

— Você toma café aqui?

Vicente ergueu uma sobrancelha.

Ela percebeu.

— Certo. Pergunta idiota.

— Estou hospedado aqui.

— Eu lembro.

— Então podemos chamar de coincidência.

— Ainda estou avaliando.

Vicente segurava uma xícara de café.

— Posso?

Indicou a cadeira vazia.

Manuela poderia dizer não.

Talvez devesse.

Mas havia alguma coisa estranhamente confortável em conversar com alguém que não fazia ideia do que tinha acontecido.

Pelo menos era nisso que ela acreditava.

— Pode.

Vicente puxou a cadeira.

— Obrigado.

— Não se acostume.

— Você fala isso bastante.

— E você continua aparecendo.

— Coincidência.

— Claro.

Ele bebeu o café.

Manuela pegou uma uva.

Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.

Novamente aquele silêncio fácil.

Vicente olhou para os óculos dela.

— Bonitos.

— Obrigada.

— Principalmente às nove da manhã dentro de um restaurante.

Manuela apontou uma uva para ele.

— Cuidado.

— Isso é ameaça?

— Aviso.

— Posso perguntar por que está usando?

Ela pensou.

— Pode.

Vicente esperou.

Manuela colocou a uva na boca.

— Eu disse que pode perguntar. Não disse que responderia.

Ele riu.

— Está aprendendo rápido.

— As regras são minhas.

— Verdade.

O celular vibrou outra vez.

Manuela nem olhou.

Vicente também não.

E ela gostou disso.

— Você tem algum plano para hoje? — ele perguntou.

— Isso entra em futuro.

— Algumas horas contam como futuro?

— Tecnicamente.

— Suas regras precisam de revisão.

— Faça uma reclamação formal.

— Para quem?

— Para mim.

— E você vai analisar?

— Provavelmente negar.

Vicente sorriu.

Manuela tomou o café.

— Piscina.

— O quê?

— Meu plano. Vou ficar na piscina, ler alguma coisa e tentar não pensar.

— Parece ambicioso.

— A parte de não pensar?

— Principalmente.

Ela o encarou.

— E você?

— Trabalho.

Manuela apontou para ele imediatamente.

— Profissão.

— Não disse qual.

— Chegou perto.

— Então ainda estou dentro das regras.

— Por pouco.

Vicente inclinou-se para trás.

— Você leva isso muito a sério.

— Talvez eu precise.

A resposta saiu mais sincera do que pretendia.

Ele ficou quieto.

Manuela se preparou para a pergunta.

Não veio.

Em vez disso, Vicente apontou para o prato dela.

— Isso é seu café da manhã?

— Sim.

— Uma fatia de pão e quatro uvas?

— Cinco.

— Impressionante.

— Não estou com fome.

— Essa não foi uma pergunta.

Manuela sorriu.

— Está ficando bom nisso.

— Aprendo rápido.

Uma garçonete se aproximou.

— Senhor Albuquerque, deseja o habitual?

Manuela não percebeu imediatamente.

Vicente, sim.

O olhar dele mudou.

Só por um instante.

— Sim, obrigado.

A garçonete se afastou.

Manuela levou a xícara aos lábios.

Então parou.

Devagar.

Olhou para Vicente.

Ele permaneceu perfeitamente tranquilo.

Mas já era tarde.

— Albuquerque?

Silêncio.

Manuela tirou os óculos escuros.

Pela primeira vez naquela manhã, Vicente viu diretamente seus olhos.

— Parece que alguém acabou de quebrar a primeira regra.

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