Mundo de ficçãoIniciar sessãoCapítulo 5
— Isso é passado. Vicente sustentou o olhar dela. — Recente. Manuela olhou novamente para a marca mais clara no dedo anelar. — Continua sendo passado. Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada. Ela esperou uma pergunta. Não veio. Vicente apenas levou o copo aos lábios e tomou um gole. Aquilo a desarmou mais do que insistência teria desarmado. — Só isso? — perguntou. — O quê? — Não vai perguntar? — Você disse que é passado. — As pessoas normalmente não se importam. — Eu não sou como as outras pessoas. Manuela soltou um riso curto. — Essa frase parece ensaiada. — Não foi. — Pior ainda. Vicente sorriu. Ela voltou ao drinque, mas percebeu que a tensão no peito havia diminuído um pouco. Era estranho. Henrique havia passado oito meses escondendo uma verdade dela. Agora um homem que ela acabara de conhecer estava, de alguma forma, respeitando um silêncio. Talvez por isso ela não quisesse ir embora ainda. — Precisamos de regras — disse. Vicente arqueou uma sobrancelha. — Precisamos? — Você mesmo falou em regras. — Eu disse que depende da regra para eu decidir se obedeço. — Exatamente. Manuela girou a taça entre os dedos. Talvez aquilo fosse absurdo. Talvez fosse o álcool. Ou talvez fosse apenas a primeira decisão que ela tomava sem pensar no que alguém esperava dela. — Primeira: sem sobrenomes. O sorriso de Vicente diminuiu. Muito pouco. Manuela percebeu, mas não entendeu por quê. — Sem sobrenomes — ele repetiu. — Segunda: sem profissões. — Está fugindo da polícia? — Essa pergunta viola a terceira regra. — Que é? — Sem perguntas sobre o passado. Vicente apoiou o antebraço no balcão. — Essa parece importante. — É. — E o futuro? Manuela não precisou pensar. — Também não. Ele a observou por alguns segundos. — Então não falamos de onde viemos nem de onde vamos. — Isso. — E o que sobra? Ela sustentou o olhar dele. — O presente. Dessa vez, Vicente não brincou. Houve um silêncio diferente entre eles. Mais denso. Mais próximo. Como se aquele acordo tivesse deixado de ser apenas uma conversa de bar. — Sem sobrenomes — ele disse. — Sem sobrenomes. — Sem profissões. — Sem profissões. — Sem passado. — Exatamente. — Sem futuro. Manuela hesitou por um instante. — Principalmente sem futuro. Vicente inclinou a cabeça. Não perguntou por quê. Mais um ponto a favor dele. Ela estendeu a mão. — Então começamos de novo. Ele olhou para a mão dela. — Já sei seu nome. — Só o primeiro. — Verdade. Vicente segurou sua mão. O toque foi simples. Mas Manuela sentiu. Calor. Firmeza. E uma coisa incômoda que parecia atenção demais para um aperto de mãos. — Manuela — disse ela. — Vicente. — Muito prazer, Vicente sem sobrenome. — O prazer é meu, Manuela sem passado. Ela estreitou os olhos. — Não abusa. — Você cria regras demais. — E você reclama demais para alguém que acabou de aceitar todas. — Talvez eu goste de desafios. A frase veio baixa. Manuela sentiu um arrepio percorrer os braços. Definitivamente o drinque. Tinha que ser. Ela soltou a mão dele. — Quantos anos você tem? Vicente sorriu. — Isso está permitido? Manuela pensou. — Presente. — Trinta e nove. — Hm. — Hm o quê? — Nada. — Isso foi claramente um julgamento. — Talvez. — Sua vez. — Trinta e três. — Eu não perguntei. — Eu sei. — Você tem o hábito de responder perguntas que ninguém fez? — Só quando quero. Vicente riu. Manuela gostou do som. E não gostou de ter gostado. Tomou o restante do drinque. O bartender passou por eles. — Mais um? Manuela negou. — Melhor não. Vicente olhou para a taça vazia. — Responsável. — Você parece decepcionado. — Eu estava curioso para descobrir quantas regras apareciam depois do segundo drinque. — Nunca saberá. — Trágico. Ela pegou a bolsa. Era hora de ir. Não porque estivesse desconfortável. Exatamente o contrário. Estava confortável demais. E isso, naquela noite, parecia perigoso. Quando desceu do banco, ficou quase de frente para Vicente. Só então percebeu a diferença de altura de verdade. Ele era mais alto do que parecera sentado. Manuela levantou o rosto. Vicente também ficou de pé. Por um instante, ficaram perto demais. Ela sentiu o perfume dele. Madeira. Alguma coisa cítrica. Talvez vetiver. Discreto. Mas marcante. Vicente baixou os olhos até o rosto dela. Não havia pressa em seu olhar. Nem aquela confiança invasiva de homens que confundiam atenção com convite. Era pior. Ele simplesmente esperava. Como se quisesse descobrir o que ela faria. Manuela deu meio passo para trás. — Boa noite. — Boa noite, Manuela. Ela virou e começou a caminhar em direção ao elevador. — Até amanhã. Manuela parou. Olhou por cima do ombro. Vicente continuava junto ao balcão. — Quem disse que vai me ver amanhã? — Ninguém. — Então por que disse isso? Ele levantou o copo. — Intuição. — Convencido. — Você já disse isso. — E continuo certa. Manuela seguiu até o elevador. Quando as portas se abriram, entrou e apertou o botão do sétimo andar. Antes que fechassem, olhou uma última vez para o bar. Vicente ainda estava olhando para ela. Dessa vez, Manuela sorriu primeiro. As portas se fecharam. E o sorriso desapareceu no instante em que ficou sozinha. Ela encostou a cabeça no espelho. O que exatamente estava fazendo? Horas antes, estava sentada no chão do banheiro segurando uma aliança. Agora estava flertando com um homem que não conhecia. Não. Não era flerte. Era conversa. Talvez um pouco de flerte. Manuela fechou os olhos. Aquilo não significava nada. E era exatamente por isso que parecia tão seguro. Quando chegou ao quarto, tirou os sapatos e deixou a bolsa sobre a poltrona. O celular continuava desligado. Ela pensou em ligá-lo. Não ligou. Foi até a janela. Lá embaixo, o hotel parecia tranquilo. Manuela tocou o dedo onde a aliança estivera. — Passado — murmurou. Queria acreditar. Vicente permaneceu no bar depois que Manuela saiu. A expressão divertida desapareceu devagar. Ele olhou para o elevador vazio. Depois para o copo em sua mão. Sem sobrenomes. A ironia quase o fez rir. Vicente sabia o sobrenome dela. Sabia havia anos. Manuela Ferraz. A mulher que, até onde ele sabia, deveria se casar em poucos dias com Henrique Vasconcelos. Ele tinha visto fotografias. Mais de uma. Em redes sociais. Em mensagens antigas. Em uma época em que o nome Henrique Vasconcelos ainda significava amizade, e não uma coleção de assuntos que ambos preferiam manter enterrados. Vicente não sabia por que Manuela estava naquele hotel. Não sabia por que estava sozinha. Não sabia por que tinha tirado a aliança. Mas a marca no dedo era recente. E a forma como ela dissera isso é passado não parecia uma brincadeira. Algo havia acontecido. Algo grande. Vicente deveria deixar aquilo quieto. Deveria terminar o uísque, subir para seu quarto e permitir que Manuela continuasse sendo exatamente o que queria ser: uma desconhecida. Era a escolha mais sensata. Também era, percebeu com irritação, a que menos queria fazer. O bartender se aproximou. — Mais um? Vicente olhou novamente para o elevador. — Não. — Conta no quarto? Vicente assentiu. — Oito-zero-quatro. O bartender pegou o cartão. Vicente se afastou do balcão. Antes de sair, olhou mais uma vez para o elevador. Manuela tinha acabado de impor quatro regras. Vicente já havia quebrado a primeira antes mesmo de concordar com ela. Porque, para ele, ela nunca tinha sido apenas Manuela. Ela sempre fora Manuela Ferraz. E isso podia transformar aqueles cinco dias em um erro muito maior do que ele estava disposto a admitir.






