Evangeline
Tiro os meus sapatos, guardo-os na sacola e calço os chinelos.
Subir a ladeira do morro de salto alto é uma tortura.
O lado bom é que também faço exercício.
Aceno para as pessoas.
Vejo um pequeno bar e vou até lá.
Pergunto para o dono se ele conhece Tereza, a mãe de Rafaela.
— A Terezinha que vende geladinho?
— Ela mesma.
Ele me ensina onde fica a casa dela.
— Muito obrigada.
Digo e sigo para a casa de Tereza.
Quando a situação é bem séria, os assistentes sociais fazem uma visita surpresa à casa da criança ou do adolescente que está sendo prejudicado por algum familiar.
Bato na porta de madeira.
A casa é bem pequena.
Sinto um cheiro horrível.
— Dona Tereza, posso ter uma palavrinha com a senhora?
Ninguém responde.
— Dona Tereza... Tem alguém em casa?
Segundos depois, uma menina que aparenta ter nove anos abre a porta.
O vestido que ela usa está todo sujo e rasgado.
— Quem é você? A Rafa me disse para não falar com estranhos, mas eu estou com tanta fome. A senhora tem comida para me dar?
Sinto meu coração sangrar.
— Eu tenho esse biscoito amanteigado...
Digo procurando o biscoito dentro da minha bolsa.
Assim que o encontro, a menina o pega das minhas mãos e começa a comer como se nunca tivesse se alimentado na vida.
— Sua irmã está em casa?
— Ela foi vender geladinho.
— E a sua mãe?
— Está bebendo com o namorado.
— Larissa, já falei para não falar com estranhos.
Rafaela chega e fica me olhando com desconfiança.
Noto um hematoma perto do olho esquerdo e um corte no lábio inferior.
— Rafaela, eu sou assistente social do CRAS. Vim saber por que você não está mais indo para a escola.
— Eu tenho que trabalhar. Minha mãe só vive bebendo.
Me aproximo.
— Eu posso entrar?
— Pode, mas a casa está um chiqueiro.
Entro na casa.
A pia está cheia de pratos e restos de comida azeda. Tem larvas andando na pia.
Que nojo.
— Tem comida para vocês comerem?
— Eu trouxe salgadinhos.
— Querida, salgadinhos não são comida. Você e sua irmã estão em fase de crescimento e precisam comer bem.
Ela solta uma risada amarga.
— Moça, como a gente vai comer bem? O dinheiro dos geladinhos só dá para comprar lanches.
— E o dinheiro que sua mãe recebe do governo?
— Ela paga o aluguel e gasta o resto com cachaça e homem.
Meu Deus.
— Quem é essa vaca?
Tereza entra na sala tropeçando.
O cheiro forte de vodca preenche o ambiente.
— Mamãe!
Larissa corre e abraça a mãe.
— Me larga, praga! Rafa, cadê a grana dos geladinhos? O meu dinheiro já acabou.
Me aproximo.
— Senhora, o dinheiro não é só seu. O governo manda a ajuda para você pagar as contas e comprar comida. Olha só para essa casa toda suja. A sua filha mais velha está trabalhando em vez de ir para a escola, e a mais nova fica sozinha morrendo de fome.
Ela fecha a cara.
— Quem você pensa que é para falar assim comigo?
— Meu nome é Evangeline. Sou assistente social.
Digo e mando uma mensagem para o grupo Plantão CT.
"Por favor, mandem uma equipe para este endereço imediatamente. A situação é grave."
Logo recebo uma resposta.
"Ok, Eva. Estamos indo."
Solto um suspiro de alívio.
— Sua peste! Foi você que ligou para o Conselho Tutelar? A surra da semana passada não colocou juízo na sua cabeça?
Tereza pega um chinelo e j**a na Rafa.
Me coloco na frente da menina.
— A senhora ficou louca? Olha, eu sei que o alcoolismo é uma doença bem séria, mas não é desculpa para você agredir suas filhas.
— Cala a boca, sua patricinha idiota! Eu sou uma mãe solo. Os pais delas sumiram quando fiquei grávida. O dinheiro do governo não dá para sobreviver. A minha vida é muito difícil. Preciso me divertir.
Olho para Tereza com nojo.
— Tem algum parente que possa acolher as crianças?
— Só tenho a minha irmã, mas ela é bem pior que eu.
— Moça, por favor, eu não quero morar com a tia Darlene. É muito ruim.
Me abaixo para ficar na altura de Larissa.
— Meu bem, você e a sua irmã vão para um lugar melhor. Eu te prometo que vou sempre visitar vocês.
— Promete?
Ela levanta o dedo polegar.
— Prometo.
Digo e entrelaço meu dedo polegar com o dela.
— As pragas vão para um abrigo? Que notícia maravilhosa! Agora vou poder trazer meu namorado para morar aqui.
Ajeito a minha postura.
— Mulheres como você não deveriam ser mães.
— Vá se ferrar, loira.
Diz e deita no sofá.
— Evangeline, eu vou poder voltar para a escola? Tem comida no abrigo?
Pergunta Rafaela, preocupada.
Sorrio para ela.
— Sim, meu amor. Você vai voltar a estudar. E não se preocupe, no abrigo você e sua irmã vão se alimentar corretamente.
Ela sorri.
Pela janela, vejo um carro branco com O adesivo do Conselho Tutelar.
Eles chegaram.
Um homem e uma mulher entram na casa.
Olham o local e as crianças.
— Eva, por favor, ajude as crianças a arrumar as coisas. Elas vão para um abrigo institucional.
Diz o homem, que já conheço.
— Claro. Onde fica o quarto, meninas?
Sigo as duas.
O quarto é muito pequeno.
Só tem uma cama de solteiro.
As meninas têm poucas roupas.
Saímos do quarto com duas bolsas.
— Esperem! Eu vou continuar recebendo a grana do governo, né?
Tereza se levanta e anda de forma desorientada.
Ela fica na frente deles.
— Óbvio que não, senhora. Não saia da cidade. O caso está sendo encaminhado agora mesmo para a delegacia de polícia. A senhora irá responder por lesão corporal e maus-tratos.
responde a conselheira
Ela engole em seco.
Saímos da casa.
As crianças entram no carro e se sentam no banco de trás.
Me despeço delas e sigo meu caminho.
Ainda tenho que fazer vários relatórios.
Meu celular vibra.
É uma mensagem de Danilo.
"Venha para casa. Precisamos conversar."