Mundo de ficçãoIniciar sessão
POV. Augusto
O sol brilha em Paris, e hoje deveria ser o dia mais importante da minha vida. Hoje eu pediria Poliana em casamento. Ela é o amor da minha vida. Nos conhecemos desde a infância, e desde então sempre foi assim — natural, intenso, inevitável. Estou em frente à Torre Eiffel, segurando um buquê de rosas. As preferidas dela. Aguardo sua chegada. Olho para o relógio no pulso mais vezes do que gostaria de admitir. Nada. O horário que combinamos já passou. Tento ligar algumas vezes, mas nenhuma chamada é atendida. Um aperto estranho se forma no meu peito. Uma sensação ruim. Como uma premonição. Antônio, meu motorista , se aproximou e pediu licença. — Senhor Augusto… — Pois não, Antônio? — É sua mãe. Ela ligou no meu celular. Como o senhor não atendeu… Pego o aparelho da mão dele, irritado, e atendo. — Mãe, se eu não atendi é porque estou ocupado. As palavras dela vêm como um furacão. Meu coração acelera. E, ao mesmo tempo, sinto como se tivesse parado de bater. Deixo o celular escapar da minha mão. O buquê de rosas cai no chão. As lágrimas descem sem que eu consiga impedir. Antônio se aproxima rapidamente, segurando-me quando minhas pernas enfraquecem. — Senhor Augusto… Ele me chama, mas a voz soa distante. Nada em mim reage. Como assim eu perdi o meu amor? Como isso pode ser possível? Antônio me conduz até o carro. Entramos em silêncio e seguimos para o hospital. Nada voltou a ser como antes naquele dia. Foi o dia em que o amor da minha vida morreu. Dez anos depois... Estou diante do túmulo da única mulher que amei. Os anos passaram, mas a dor permaneceu. Nunca consegui esquecê-la. Coloco sobre a lápide um buquê de rosas vermelhas. As preferidas dela. Fico ali, em silêncio. Um acidente de carro te levou de mim no dia em que eu te pediria em casamento. Naquele dia, prometi que nenhuma mulher ocuparia o seu lugar. E cumpri essa promessa. Enquanto estou perdido nos meus pensamentos, uma jovem passa por mim. Ela carrega um buquê de begônias. Cabeça baixa. Óculos. Ela chora em silêncio ao atravessar o caminho entre os túmulos. Fico intrigado. Begônias são flores raras em cemitérios. Quando ela passa ao meu lado, a brisa espalha seu perfume até mim. Eu congelo. Minha mente me trai. Meu corpo reage antes da razão. — Poliana… Meu coração dispara. Vou até ela rapidamente e seguro seu braço. Com o impacto, as flores caem no chão. Ela se vira assustada. Olhos verdes arregalados encontram os meus. Fico mudo. Ela puxa o braço com força e me encara. — Você é maluco? Ou tá treinando pra ser? A voz dela me traz de volta à realidade. O mesmo perfume… Mas não é ela. Ou talvez seja esse lugar que esteja me deixando nostálgico demais. Ajeito o terno e mantenho o olhar firme. — Me desculpe, senhorita. Eu a confundi com alguém. Ela se abaixa em silêncio, juntando as flores do chão. Ajusta os óculos e se levanta, encarando-me. — Não sei de onde você vem, mas por aqui os humanos não saem agarrando ninguém. A não ser que sejam tarados. — Garota, eu pedi desculpas. Quer o quê mais? Outras flores? — Aliás… begônias? Sério? — Olha só… além de tarado, ainda é intrometido. — Não vou ficar aqui discutindo com alguém como você. Ela me olha e solta uma risada curta. — Se olhar para os lados, senhor, vai ver que só tem euzinha pra discutir… ou o senhor costuma falar com os mortos? O deboche dessa menina me prende. Contra a minha vontade, desperta algo incômodo — uma vontade absurda de continuar discutindo. O perfume é o mesmo de Poliana. Mas a audácia… não. Poliana era sensível. Meiga. Essa aí é só… doida. Viro as costas e me afasto. Não quero pensar nela. Não aqui. Entro no carro e fecho a porta. — José, me leve para casa. Desde que Antônio foi demitido, sem eu entender o porque até hoje, José trabalha pra mim. Recosto no banco, sentindo um peso estranho no peito. — Hoje não quero ver ninguém. Preciso ficar sozinho. Mas, pela primeira vez em anos, o silêncio não parece suficiente. .






