06

Zara Nox

O final de semana passou rápido demais.

Entre risadas, pipoca e confissões que só o vinho permite, eu e Liz ficamos ainda mais próximas.

Ela tinha um jeito leve de ver o mundo, o oposto da minha visão prática e contida, e talvez por isso eu gostasse tanto de estar com ela.

Mas segunda-feira chegou como um soco no estômago - a lembrança de que minha vida agora tinha regras, horários, e um chefe que mexia comigo de um jeito que eu não queria admitir.

Hoje, eu precisava chegar mais cedo.

Lorenzo havia me enviado um e-mail na sexta à noite confirmando uma reunião importante com investidores estrangeiros, e eu seria responsável por preparar toda a documentação e acompanhá-lo.

A ideia de passar a manhã ao lado dele me deixava com o estômago revirando.

Saí de casa antes do amanhecer.

O ar frio cortava o rosto, e as ruas ainda estavam meio vazias. O som dos saltos ecoando no mármore do prédio me fez lembrar o primeiro dia - como tudo parecia novo, assustador, e ao mesmo tempo... certo.

Cheguei à empresa trinta minutos antes do horário.

A portaria estava silenciosa, apenas o som dos elevadores subindo e descendo. Cumprimentei o segurança com um sorriso rápido e entrei.

A sala da presidência estava vazia, como sempre nas primeiras horas da manhã.

Liguei as luzes, abri as cortinas, e o sol da manhã invadiu o ambiente, dourando o vidro da mesa e o couro das poltronas.

"Respira, Zara", pensei.

Tudo precisava estar perfeito.

Peguei as apostilas, organizei-as por tema, revisei os slides, e fui para a sala de reuniões. Preparei café fresco, organizei os copos, e pedi alguns lanchinhos pela copa.

O som da máquina de café era o único ruído confortável naquela manhã silenciosa.

Foi quando ouvi a voz.

Grave, calma, e inconfundível.

- Tão cedo aqui?

Meu corpo reagiu antes da mente.

Um arrepio percorreu minha espinha, e por um instante esqueci de respirar.

- Vim organizar as coisas antes da reunião, senhor Castellani - respondi, virando-me.

Ele estava ali, encostado na porta, o paletó escuro contrastando com o branco da camisa.

Os cabelos estavam levemente bagunçados, e o perfume - aquele aroma amadeirado e viciante - se espalhava pelo ar como um convite.

Andei até o outro lado da mesa, instintivamente tentando colocar uma barreira entre nós.

- O que eu disse sobre brilhar? - ele perguntou, arqueando uma sobrancelha, o tom meio provocante.

Meu coração deu um salto.

- Eu só estou fazendo meu trabalho. - respondi, voltando-me para a bandeja de café.

Ouvi o som dos passos dele se aproximando, lentos, seguros.

- Você tá fugindo de mim? - perguntou, num tom baixo, quase divertido.

- Fugindo? - repeti, sem coragem de encará-lo. - Não, claro que não.

- Engraçado... porque parece exatamente isso.

Senti o calor do corpo dele próximo ao meu, o cheiro do perfume misturado com o café recém-passado. Fechei os olhos por um segundo, tentando controlar a respiração.

- Eu só quero manter as coisas profissionais, senhor Castellani.

- Lorenzo. - Ele corrigiu, firme. - Aqui estamos sozinhos, pode me chamar de Lorenzo.

Meu olhar encontrou o dele, e foi como cair num abismo.

A intensidade em seus olhos me desarmava completamente.

Por um instante, esqueci que ele era meu chefe, esqueci de onde estava. Só havia aquele silêncio elétrico entre nós.

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