A gota d'água que me fez desabar foi o que vi no celular de Benjamin.
Naquela tarde, ele deixou o aparelho sobre o sofá enquanto tomava banho. De repente, a tela se acendeu com uma notificação de um grupo.
O grupo se chamava "Família da Savannah" e tinha cinco integrantes: Papai, Mamãe, Benjamin, Wyatt e Savannah.
Meus pais, meu irmão e meu namorado há três anos criaram um grupo de família com alguém que nem sequer tinha parentesco com eles.
E eu era a única excluída.
Não consegui me impedir de abrir a conversa. O grupo foi criado no dia da mudança, e o histórico de mensagens já era longo.
Minha mãe publicou uma foto do quarto de Savannah com a legenda:
"Savannah, finalmente você tem seu próprio quarto."
Benjamin respondeu com uma sequência de emojis de fogos de artifício:
"Quem mexer com você vai ter que se entender comigo primeiro."
Rolei a tela para cima. Em uma mensagem de voz, minha mãe falava com um tom caloroso e feliz:
"Wyatt, você cuida melhor de Savannah do que de Riley. A vida dela foi muito difícil. Fico aliviada em saber que você sempre estará por perto para cuidar dela."
"Não se preocupe, Sra. Sullivan. Sempre vou cuidar de Savannah", Wyatt respondeu.
"Cara, você tem todo o meu respeito", Benjamin acrescentou.
Então, vi a conversa particular entre Savannah e Wyatt, fixada por ele logo acima das mensagens do grupo.
"Wyatt, Riley não vai ficar chateada?", Savannah perguntou.
"Não. Ela não sabe desse grupo."
"Que bom. Não quero que Riley fique triste."
Depois dessa mensagem, Savannah acrescentou um emoji feliz saltitando.
Ela dizia que não queria me magoar, mas, assim que confirmou que eu não sabia sobre o grupo, sentiu-se aliviada. Ficou até feliz.
Coloquei o celular de volta no sofá. Meus dedos estavam gelados, como se eu acabasse de ler uma sentença que não dizia respeito a mim.
O julgamento terminou muito tempo antes, mas a acusada foi a última a descobrir o veredito.
Benjamin saiu do banho e fechou a expressão.
— Você mexeu no meu celular?
— Por que eu não estou no grupo "Família da Savannah"? — perguntei, com a voz trêmula.
A sala mergulhou em silêncio no mesmo instante.
Minha mãe saiu da cozinha, meu pai abaixou o jornal e Savannah espiou pela porta do quarto, mostrando apenas metade do corpo.
Benjamin arrancou o celular da minha mão.
— Esse grupo é para discutirmos como cuidar de Savannah. O que isso tem a ver com você?
— Wyatt é meu namorado! — Eu praticamente gritei. — Mãe, você mandou que ele sempre cuidasse de Savannah. Está tentando dar o meu namorado para ela também?
O rosto da minha mãe endureceu.
— Por que está gritando desse jeito? O pai dela deu a vida para salvar Benjamin! Como irmã mais velha, você não pode ser um pouco mais compreensiva?
Wyatt entrou bem naquele momento, e sua primeira reação foi se distanciar da situação.
— Riley, você está imaginando coisas demais. Eu só cuido de Savannah como amigo, nada além disso.
— Então por que me deixou plantada no nosso aniversário de namoro para ficar com ela? Por que ela ganhou um presente de 120 dólares, enquanto eu recebi balas em promoção que custaram dois?
Wyatt perdeu a paciência.
— Naquele dia, ela estava arrasada. Eu não podia simplesmente deixá-la sozinha. Meu Deus, dá para esquecer isso de uma vez?
Savannah começou a chorar.
— Riley, sinto muito. A culpa é toda minha.
Benjamin avançou de repente e apontou o dedo bem diante do meu rosto.
— Riley, já acabou? O Sr. Keller perdeu a vida para me salvar! Isso significa que devo a Savannah pelo resto da vida. Se não quer me ajudar a pagar essa dívida, então dê o fora daqui!
Meu próprio irmão me mandava sair da nossa casa, mas nenhuma das pessoas presentes disse uma palavra para contestá-lo.
Meu pai massageou as têmporas e murmurou:
— Pronto, chega. Todo mundo se acalme.
Ele não disse que Benjamin estava errado, tampouco pediu que eu ficasse.
Permaneci no meio da sala como uma criminosa à espera da sentença.
E qual era o meu crime?
Não ser altruísta o bastante.
Sem dizer mais nada, virei-me e voltei para o depósito, trancando a porta atrás de mim.
Do lado de fora, minha mãe acalmava Savannah, Benjamin a consolava e Wyatt apoiava os dois.
A ordem logo foi restaurada, como se a discussão que acabara de acontecer não passasse de um anúncio que todos podiam pular.
…
Nos dias seguintes, o apartamento pareceu ficar ainda mais animado.
Minha mãe organizou uma comemoração antecipada para o aniversário de Savannah e encomendou um bolo de morango com três andares. Benjamin comprou balões e cordões de luzes decorativas, passando a noite inteira sentado no chão da sala enquanto enchia os balões.
Wyatt aparecia todos os dias para jantar. Depois da refeição, ele pintava com Savannah na varanda, e as risadas dos dois percorriam todo o corredor.
Ninguém me excluía de propósito. A verdade era que, em meio a toda aquela agitação e união, eu nunca existi para começo de conversa.
Durante a madrugada, comecei a esvaziar o depósito. Coloquei livros didáticos, roupas velhas, diários, uma bolsa de lona e os biscoitos vencidos que Wyatt me deu dentro de um saco de lixo. Depois, levei tudo escondida até o contêiner do prédio.
Depois de tantos anos, tudo o que me pertencia coube em um único saco de lixo.
Lavei e dobrei o vestido rosa com estampa floral que Savannah me deu, deixando-o cuidadosamente diante da porta do quarto dela.
Às quatro da manhã de 14 de agosto, antes mesmo de o céu começar a clarear, enrolei o tapete de ioga e o apoiei contra a parede. Em seguida, coloquei o balde de limpeza de volta no lugar.
O depósito ficou impecável, sem qualquer sinal de que alguém um dia morou ali.
Levei comigo apenas uma mochila. Dentro dela, estavam uma muda de roupa, meu documento de identidade e a carta de designação da base.
Caminhei silenciosamente pelo corredor.
O aroma adocicado das velas de morango escapava do quarto de Savannah. No quarto de Benjamin, o ventilador girava com um zumbido constante, enquanto um ronco regular vinha do quarto principal.
Todos dormiam profundamente.
Aquela família não precisava de mim.
Abri a porta de segurança e entrei em um táxi. Depois, peguei o celular. Bloqueei todos eles no WhatsApp e removi minha foto de perfil.
Quando chegasse à base, precisaria entregar o aparelho.
Eu passaria cinco anos do outro lado de montanhas e rios, sem precisar olhar para trás.
…
Às sete e meia da manhã, minha mãe se levantou para preparar o café.
— Savannah, você quer ovos cozidos ou fritos com a gema mole? Benjamin, pare de ficar enrolando na cama!
Por força do hábito, ela caminhou até o depósito e abriu a porta.
O cômodo estava vazio, com exceção do tapete de ioga enrolado e apoiado em um dos cantos.
Minha mãe ligou para o meu número, mas descobriu que meu celular estava desligado. Em seguida, enviou uma mensagem pelo WhatsApp, porém minha foto de perfil já aparecia em cinza.
— Edward! — A voz dela falhou. — Riley foi embora! E levou todas as coisas dela!
Benjamin saiu correndo do quarto, ainda descalço. Ele ligou mais de uma dúzia de vezes, mas todas as chamadas terminaram com a mesma mensagem automática e fria.
Wyatt também correu até o apartamento e ficou imóvel diante da porta do depósito.
Naquele exato momento, o celular do meu pai tocou.
Era um número desconhecido.
— Alô, falo com Edward Sullivan? Meu nome é Colton Bennett. Eu trabalhava com Liam Keller. Recentemente, encontrei algumas coisas daquela época enquanto organizava os pertences dele. Existem certos detalhes sobre o dia em que Benjamin caiu no rio que acredito que o senhor precisa saber.