No quarto dia após a mudança, descobri que nem mesmo o depósito seria meu por muito tempo.
Durante o café da manhã, minha mãe comentou casualmente com meu pai, Edward Sullivan:
— Quando Riley for embora, quero derrubar a parede do depósito para aumentar o closet de Savannah — disse, como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Ela tem tantas coisas que um único guarda-roupa mal dá conta.
Meu pai assentiu enquanto mordia a torrada.
— Claro. Vamos chamar alguém para tirar as medidas.
Savannah prendeu a colher entre os dentes antes de dizer em voz baixa:
— Sra. Sullivan, não precisa fazer isso. Eu nem tenho tantas roupas assim.
Benjamin riu e bagunçou o cabelo dela.
— Talvez não tenha muitas agora, mas depois eu levo você para fazer compras.
Sentada do outro lado da mesa, continuei comendo meu cereal em silêncio.
Ninguém perguntou se eu realmente queria fazer mestrado ou me mudar.
Eles apenas precisavam que eu fosse embora. Depois disso, apagariam até o último vestígio de que um dia eu morei ali.
Naquela tarde, Wyatt apareceu carregando duas sacolas, uma grande e outra pequena.
Na maior, havia um kit profissional de marcadores com 128 cores, cuidadosamente acomodado em uma maleta de couro. Parte da etiqueta de preço ainda estava presa à embalagem.
O conjunto custava 120 dólares.
Wyatt o entregou a Savannah com as duas mãos.
— Benjamin comentou que você gosta de desenhar. Este kit tem uma paleta completa de cores. Experimente.
Os olhos de Savannah brilharam, e ela apertou a maleta contra o peito com um sorriso radiante.
Em seguida, Wyatt me entregou a sacola pequena.
Quando a abri, encontrei um pacote de balas de caramelo em promoção, daquelas vendidas em qualquer supermercado. O adesivo amarelo, indicando o preço promocional de dois dólares, continuava colado na embalagem.
— Comprei isso para você no caminho. Você gosta de doces, não é? — perguntou Wyatt.
Mais de uma vez, eu disse a ele que não gostava de doces.
Na verdade, eu adorava comida apimentada. Durante o inverno, nada me satisfazia mais do que um prato de tacos bem picantes, recheados com jalapeños. A pimenta precisava ser forte o bastante para fazer gotas de suor brotarem no meu nariz.
No entanto, Wyatt só se lembrava das coisas de que Savannah gostava.
— Wyatt, eu não gosto de doces.
Ele coçou a cabeça e deu de ombros, encerrando o assunto com um sorriso despreocupado.
— Então dê para Savannah. Não vale a pena desperdiçar.
Deixei o pacote de balas de caramelo sobre a mesa de centro e voltei para o depósito.
Enquanto fechava a porta, ouvi Savannah dizer em voz baixa:
— Wyatt, Riley parece um pouco chateada.
Wyatt não respondeu.
Alguns segundos depois, ouvi o som de Savannah abrindo a embalagem dos marcadores e, em seguida, o murmúrio baixo dele:
— Esta cor é bonita.
Wyatt já nem se dava ao trabalho de falar sobre mim pelas costas. Em vez disso, simplesmente agia como se eu não existisse e continuava rindo e conversando com Savannah.
Aquela frieza doeu mais do que qualquer enxurrada de insultos.
Naquela noite, saí do depósito para buscar água. Ao passar pelo quarto dos meus pais, percebi que a porta estava entreaberta.
A voz do meu pai chegou até mim, carregada de uma leve hesitação:
— Amor, você não acha que Riley está um pouco estranha ultimamente? Ela quase não falou desde que nos mudamos.
Parei ao lado da porta com o copo na mão, e meu coração de repente se acelerou.
Minha mãe respondeu imediatamente, descartando a preocupação como se aquilo nem merecesse ser mencionado.
— O que poderia estar errado com ela? Riley é assim desde pequena, faz parte da personalidade dela. É uma verdadeira muda. Não fique mimando, ou só vai piorar.
Meu pai permaneceu em silêncio durante alguns segundos e não tocou mais no assunto.
Continuei parada do lado de fora, segurando o copo de água com firmeza. Nem uma única gota transbordou.
Não era verdade que ninguém percebeu.
Eles perceberam. Só não achavam que isso importava.
Mais tarde, enquanto arrumava a sala, vi uma notificação de compra aparecer no tablet de Savannah, que ela deixou carregando sobre um móvel.
Era um pedido feito em uma loja de móveis, no valor total de 18 mil dólares. O endereço de entrega era o nosso apartamento, e o pagamento estava no nome da minha mãe.
Somando o jogo de cama, as cortinas, o colchão e todos os outros itens, calculei que minha mãe gastou mais de 20 mil dólares para preparar o quarto de Savannah.
Enquanto isso, não havia sequer uma cama dobrável no depósito onde eu dormia.
Savannah pareceu sentir um pouco de culpa. Ela revirou uma sacola de compras, tirou um vestido de dentro e o entregou para mim.
— Riley, vi este vestido e achei que ficaria muito bonito em você. Comprei com meu próprio dinheiro.
O vestido era rosa e tinha uma estampa floral, igual às cortinas do quarto dela. Era sua cor favorita e também sua estampa preferida.
Embora eu nunca usasse rosa e minha cor favorita fosse azul, aceitei o presente e agradeci. Afinal, pelo menos Savannah ainda me enxergava, mesmo que não enxergasse quem eu realmente era.
Naquela noite, enquanto eu estava deitada sobre o tapete de ioga, a tela do meu celular se iluminou. Era o e-mail de confirmação da Base do Noroeste.
"Srta. Riley Sullivan, sua documentação de admissão foi aprovada. Apresente-se na base até o dia 15 de agosto. Todos os aparelhos de comunicação serão recolhidos na chegada."
O Sr. Atwood também incluiu uma observação pessoal:
"Toda a equipe de pesquisa está esperando por você. Seu modelo de dados é o núcleo deste projeto. Não se preocupe, pois tudo já foi preparado para recebê-la."
Li aquela mensagem três vezes.
Havia pessoas para quem eu era importante, pessoas que aguardavam minha chegada.
Só que nenhuma delas morava naquele apartamento.