####CAPÍTULO 04

O clique seco do desligamento ecoa no meu ouvido, finalizando a chamada de forma brutal.

Fico parada no meio da calçada fria, o telefone celular pesando toneladas na minha mão úmida de suor frio. Meu corpo inteiro treme descontroladamente. Rezo em silêncio, em um desespero infantil e acovardado, para que a tela não acenda, para que Brenda esteja errada, para que seja apenas mais um mal-entendido. Mas o aparelho vibra na minha palma.

A primeira imagem carrega na tela.

É o John, o meu marido. Ele veste o terno de corte impecável cinza-chumbo, o mesmo terno que passei duas horas alinhando a ferro na noite anterior, testando a temperatura do vapor para garantir que não houvesse uma única dobra, temendo ser punida se houvesse qualquer imperfeição. Ele exibe aquele sorriso magnético, dominante, seguro e perfeitamente ensaiado. Ao lado dele, com o corpo totalmente colado ao dele e a mão espalhada no seu peito, está Tiffany, usando um vestido vermelho de costas nuas, deslumbrante e provocante.

Uma segunda foto chega logo em seguida, sem me dar espaço para respirar. O ângulo é mais fechado, mais cruel. A mão de John está firmemente espalhada na curva da cintura dela, os dedos cravados no tecido com uma posse descarada e íntima, o mesmo toque firme e autoritário com que ele segura meu braço quando quer me lembrar de quem manda na casa e de quem eu pertenço. Mas ali, nas fotos, ele não está me corrigindo ou me reprimindo, ele está desejando outra mulher com paixão.

Em seguida, um arquivo de vídeo começa a carregar. Meus dedos tremem tanto que erram o visor duas vezes, quase deixando o telefone cair no asfalto, antes de eu conseguir pressionar o comando para abrir. O vídeo roda. Há uma música de jazz suave ao fundo, o som de risadas elegantes e o tilintar de taças de cristal em um restaurante exclusivo.

A câmera foca em John, ele se inclina devagar, sussurra algo no ouvido de Tiffany, faz a mulher gargalhar e a puxa para perto pela nuca. Não há hesitação, ele a beija. Um beijo lento, profundo, público, sem nenhuma pressa ou culpa, o mesmo homem que me diz que demonstrações de afeto são "vulgares e desnecessárias" e que se recusa a me tocar há meses, mandando-me dormir no quarto de hóspedes por qualquer motivo fútil.

Aperto os lábios com tanta força contra os dentes que sinto o gosto metálico e quente do sangue na boca, sufocando o choro desesperado que ameaça rasgar a minha garganta e me expor no meio da rua.

— Não... não... meu Deus, por favor, não faz isso comigo...

Ele olhou no fundo dos meus olhos hoje de manhã, segurou meu queixo com aquela frieza habitual, disse que eu parecia pálida, feia e insignificante, e que por isso eu deveria ficar em casa preparando o jantar para a sua volta em vez de sair. Ele me fez sentir culpada por estar cansada, me fez pedir desculpas pela minha própria existência. E enquanto eu limpava a casa repetidamente, checando cada canto para que tudo estivesse perfeito conforme as exigências dele, ele estava nos braços de outra mulher, rindo da minha obediência.

Um sobressalto de horror puro e cortante me atinge quando meus olhos caem sobre o relógio no topo da tela do celular.

Faltam apenas trinta e cinco minutos para o horário habitual dele chegar em casa.

O pânico da punição se sobressói, por instinto, até mesmo à dor devastadora da traição, é o condicionamento do medo impregnado nas minhas veias.

John é britânico com horários. Se ele chegar em casa e o portão não estiver destravado, se as luzes da sala não estiverem no tom exato que ele gosta, se o jantar não estiver servido exatamente na mesa no momento em que ele puser os pés na sala... eu ficarei sem comer de novo. Ele trancará a porta do quarto principal, me banirá para o quarto de hóspedes e me deixará no escuro, lembrando-me repetidamente de como sou inútil e incapaz.

Preciso correr.

Starto a caminhada mais rápida que minhas pernas bambas permitem, tentando cobrir os três quarteirões restantes até a nossa casa. Engulo o choro, lidando com a respiração cortada pelo esforço físico e pela angústia que destrói meu peito.

Preciso chegar antes dele, preciso apagar as mensagens da Brenda, limpar o histórico de mídias do aplicativo, lavar o rosto com água trincando de gelada para sumir com qualquer traço de lágrima ou vermelhidão nos olhos. Preciso vestir a máscara da esposa submissa, fraca, silenciosa e cega que ele treinou ao longo de quatro anos.

Mas, no momento em que meus pés pisam no pavimento da nossa rua, uma dor física, aguda e pontual cruza o meu pé da barriga.

Trago a minha mão direita ao ventre, pressionando o tecido do casaco contra o meu corpo em um gesto instintivo de proteção. A minha pele ainda está plana e inalterada por baixo das roupas pesadas, mas eu sei, eu sei com certeza absoluta há três dias.

O teste de farmácia com o resultado positivo está escondido no fundo da minha gaveta de lingeries, enterrado sob minhas poucas peças de roupa.

Estou grávida, carrego no meu próprio corpo o filho do homem que me reduziu a um nada, que destruiu minha dignidade e que me trata pior do que a um bicho, o filho do meu torturador.

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