Empurrando a porta da mansão, ainda com o corpo fraco, meus passos congelaram de repente.
Elena estava deitada de lado no sofá da sala, enquanto Marcos segurava uma tigela de sopa e, com todo cuidado, levava-a à boca dela colher por colher.
Ao ouvir o som da porta, Marcos levantou a cabeça bruscamente e, ao me ver, se apressou em se levantar:
— Você voltou? — Colocou a tigela sobre a mesa e, só então, percebeu a palidez do meu rosto. — O que houve? Está doente?
— Nada demais, apenas o período menstrual. — Menti sem alterar a expressão. Ele nem sequer sabia que eu havia sido envenenada por uma cobra.
Marcos assentiu, sem insistir:
— Que bom que não é nada grave.
Baixei a cabeça, prestes a sair, mas ele se colocou à minha frente, bloqueando meu caminho:
— Luana, há dois dias você fez Elena se assustar a ponto de quase perder o bebê, mas ela, generosa, não quer que você se desculpe. Ainda assim, vá preparar para ela uma refeição nutritiva, como forma de compensação.
Fiquei imóvel por um instante. No passado, Marcos cuidava tanto de mim que não me deixava nem servir um copo de água; quanto mais entrar na cozinha para preparar comida.
Ainda assim, assenti docilmente e fui até a cozinha.
Quando voltei com o prato, Marcos já carregava Elena nos braços.
— O estômago dela está incomodando. Vou levá-la ao hospital.
E saíram às pressas.
Coloquei a refeição sobre a mesa e subi em silêncio para o quarto.
Comecei a arrumar as malas, levando tudo o que era meu; o que não podia levar, joguei fora.
Separei também tudo o que tinha relação com Marcos:
as cartas de amor escritas por ele;
as gemas raras e peles preciosas que ele colecionou para mim;
o anel de companheiros que ele mesmo desenhou…
Tudo isso, provas de que um dia ele me amou, atirei na lareira acesa. As chamas devoraram cada lembrança, assim como o nosso vínculo, reduzindo tudo a cinzas.
Depois, fui ao jardim dos fundos e disse aos empregados:
— Arranquem todos os lírios do pátio.
Aqueles lírios tinham sido plantados por Marcos, porque ele sabia que eu gostava de seu perfume.
Os empregados hesitaram:
— Mas o Alfa Marcos preza muito essas flores. Nunca permite que alguém toque nelas…
— Arranquem. — Minha voz era suave. — Não tem problema. A Elena prefere rosas. Tirando os lírios, haverá espaço para plantá-las.
Eles, que já haviam percebido nesses dias o favoritismo de Marcos por Elena, não discutiram mais e obedeceram.
Quando o último lírio foi arrancado, peguei a mala que já estava pronta e saí da casa sem olhar para trás.
No hospital, Marcos sentia uma inquietação estranha. Pegou o celular e me ligou, mas eu não atendi.
Levantou-se, impaciente, mas foi detido por Elena, ainda na cama:
— Marcos, mais tarde você pode me levar ao restaurante da praia? Estou com vontade de comer o peixe de lá.
Ele hesitou por um instante e acabou recusando:
— É melhor voltarmos para casa. A Luana já preparou uma refeição nutritiva para você, com os pratos que mais gosta.
Elena pareceu contrariada, mas acabou concordando docilmente:
— Está bem. É o carinho da Luana. Vou comer tudo.
Quando os dois voltaram à mansão, encontraram o pátio em completa desordem, com pétalas murchas de lírio espalhadas pelo chão.
— O que estão fazendo?! — O rosto de Marcos escureceu e ele deu passos largos até os empregados.
Assustados, eles gaguejaram:
— Foi a Luana quem mandou arrancar todos os lírios e plantar rosas, que são as flores favoritas da Elena.
Elena bateu palmas, animada:
— Ótimo! Plantem rosas por todo o jardim e, ali no canto, construam um quiosque…
— Eu autorizei isso? Que absurdo! — A expressão de Marcos era sombria. Ele ordenou a seu assistente que me encontrasse, mas, pouco depois, o homem voltou apressado, com o rosto tenso:
— Alfa Marcos, a Luana sumiu! Levou todos os pertences do quarto! Encontramos apenas… isto. — Ele estendeu o documento de dissolução do vínculo de companheiros que estava sobre a escrivaninha.