Capítulo 2

Capítulo 2

ROXANYA

A porta se abriu, batendo na parede com força demais para aquela hora da manhã, e Ravenna apareceu no batente, como se aquele corredor miserável fosse a entrada de um palácio. Ela estava com um vestido azul que parecia chique demais para aquela casa e sustentava aquele ar irritante de princesa que ela cultivava como se o mundo realmente lhe devesse reverência.

O tecido azul se ajustava com perfeição no corpo dela, e o jeito como erguia o queixo parecia feito para lembrar a qualquer um que ela se considerava melhor do que o lugar onde tinha nascido, o que era uma piada, considerando onde morávamos.

Eu e Ravenna éramos gêmeas idênticas, e as semelhanças acabam na aparência. Enquanto ela era o arquétipo da doçura fingida e controlada, eu era uma verdadeira explosão de sentimentos e impulsos. Talvez fosse esse o motivo pelo qual ela nunca soube lidar comigo de forma equilibrada, sempre me medindo e nutrindo uma inveja enrustida e mal disfarçada que só deixava um rastro amargo e tóxico por onde passava, dominando todo o espaço ao nosso redor e transformando qualquer tentativa de convivência em um campo minado emocional.

Os olhos dela deslizaram por mim, medindo dos pés à cabeça, carregados daquele desdém elegante que ela usava como joia — uma expressão aprendida cuidadosamente ao longo dos anos para me ferir e diminuir.

— Então é verdade? — sua voz soou cheia daquela inveja mal contida e do veneno habitual. — Você realmente terminou com o Zack?

Levantei os olhos para ela, sentindo uma irritação que começava a se acumular dentro de mim antes mesmo que qualquer palavra pudesse escapar pelos meus lábios. Seu comportamento e sua energia contaminavam qualquer ambiente, e a manhã prometia ser ainda mais difícil com aquela tempestade prestes a explodir entre nós.

— Não acredito que você entrou no meu quarto a essa hora da manhã só pra vir com esse tipo de conversa inútil — resmunguei.

Ravenna arqueou uma sobrancelha, demonstrando que minha grosseria não tinha surtido o efeito esperado; afinal, ela nem se surpreendia mais com a minha reação agressiva e hostil.

— Que resposta charmosa — murmurou, com uma voz cheia de sarcasmo e uma pitada de diversão amarga. — Então, sim, pelo visto é verdade.

Cruzei os braços diante do peito, sem qualquer intenção de ceder ou suavizar a atmosfera tensa que se estabeleceu naquele quarto apertado.

— E desde quando eu te devo satisfação? — retruquei, deixando claro que não pretendia me submeter a nenhuma espécie de interrogatório.

Ela inclinou a cabeça ligeiramente, como se fosse uma emoção natural e sublime que só ela tinha direito de expressar.

— Ninguém pediu satisfação, Roxanya — disse, sua voz carregando um tom de falsa inocência. — Eu só fiz uma pergunta simples.

Uma risada curta e sem qualquer sinal de humor escapou dos meus lábios, uma reação rápida que denunciava o quanto eu não via graça naquela encenação.

— Para começar, Roxanya é o caralho — afirmei, a voz tremendo de raiva. — Eu detesto que me chamem assim e, para piorar, você invadiu o meu quarto com toda essa cara de quem veio pronta para me irritar só para confirmar uma fofoca antiga e irrelevante. Então, para poupar seu tempo, vou dizer logo: eu não te devo explicação alguma sobre Zack, nem sobre minha vida ou sobre porra nenhuma do que eu faço.

O brilho nos olhos dela ganhou um tom satisfeito, quase como se fosse exatamente essa a resposta que ela esperava arrancar de mim desde o momento em que seus pés pisaram no meu quarto.

— Bom, primeiramente, até onde sei, Roxanya ainda é o seu nome de batismo, então, talvez devesse reclamar com quem te deu esse nome e, em segundo lugar, touché — sussurrou com um sorriso irônico. — Isso só confirma que vocês terminaram, já que a pergunta te afetou tanto assim.

Soltei uma risada seca, carregada de desprezo.

— Você entrou aqui só para confirmar isso? Que patético — respondi com sarcasmo.

Um sorriso pequeno e cruel surgiu nos lábios dela, como se tivesse alcançado algum tipo de vitória silenciosa.

— Talvez eu esteja apenas curiosa para entender por que o Zack finalmente se cansou de você — provocou, soltando as palavras como facas afiadas.

A provocação teve um efeito forte, mas não no sentido que ela desejava. Em vez disso, soltei uma resposta afiada que ela não esperava.

— Talvez você esteja acostumada demais a se contentar com migalhas do que nunca conseguiu ter inteiramente — retruquei, sentindo um prazer frio em desarmar sua provocação.

Pude ver o choque e o fogo no olhar dela, mesmo sabendo que poucas pessoas conheciam melhor as expressões de Ravenna do que eu mesma.

— Você se acha muito especial, não é? — rebateu com veemência. — Como se todo mundo estivesse constantemente atrás de algo que você acha que pertence só a você.

— Não todo mundo — respondi friamente. — Só você.

Ravenna lentamente descruzou os braços, e novamente seu olhar percorreu meu corpo inteiro, com aquele desprezo cuidadosamente ensaiado.

— Não seja ridícula — respondeu. — Nem tudo gira em torno de você.

— Não? — inclinei a cabeça com ironia, imitando seu tom. — Então, explica por que você entrou no meu quarto assim que soube de qualquer coisa?

Seus dedos apertaram a moldura da porta com força. Nossa relação sempre fora uma guerra incansável, feita de farpas afiadas demais para serem chamadas de conversa. Era uma dança amarga entre duas irmãs que não conseguiam se amar, mas também nunca conseguiam se afastar de verdade.

Ravenna gostava de se comportar como a versão polida e perfeita da família — a filha bonita, delicada, refinada, a garota que parecia trazer a elegância de outro mundo. Já eu, parecia que arruinava toda a perfeição e ordem que ela tentava exibir ao mundo.

— Sabe qual é o seu problema, Roxanya? — ela perguntou com aquele tom que usava quando se sentia superior. — Você destrói tudo o que toca e, depois, se faz de incompreendida, fingindo que é vítima das circunstâncias.

Dei um passo firme em sua direção, e foi o bastante para paralisá-la no lugar.

— E sabe qual é o seu problema, Ravenna? — disse sem vacilar. — É mil vezes pior porque você passou a vida toda querendo o que é meu, mas nunca teve coragem de admitir isso. Então, aproveita, porque eu já joguei tudo fora.

O silêncio que pairou entre nós era pesado, do tipo que só existe entre pessoas que dividem o mesmo rosto e, ainda assim, se odeiam por saber exatamente onde doía mais. Não havia nada de bonito naquela tensão carregada — só rancor profundo.

— Você sempre estraga tudo com essa arrogância nojenta — sibilou Ravenna, a voz repleta de desprezo. — E depois fica aí, se fazendo de forte, como se ninguém pudesse tocar em você.

Ri baixo, o som rouco carregado de desafio.

— Você adoraria me tocar se pudesse, não é mesmo? — Provoquei.

Ela me deu um leve empurrão no ombro como uma forma de provocação, achando que eu não iria revidar. Talvez Ravenna se sentisse corajosa naquela manhã, porque aquilo foi o limite para minha paciência. Agarrei seu pulso com força antes que sua mão descesse, apertando com vigor suficiente para fazê-la prender a respiração.

— Não encosta em mim de novo, vadia — falei, palavra por palavra, com ameaça explícita.

Ela tentou puxar a mão, porém não permiti que escapasse imediatamente. Os olhos azuis dela ardiam em fúria e ressentimento.

— Me solta, Roxanya — ordenou, a voz saturada de irritação contida.

— Então aprende a se colocar no seu lugar, porra — respondi com firmeza, sem relaxar o aperto.

Ela soltou uma risada incrédula, como se aquilo tudo fosse um tipo ridículo de teatro.

— Meu lugar? — replicou com sarcasmo. — Você que está confundindo tudo, já que, pelo que sei, você ainda mora nesta casa, mesmo sabendo que não é bem-vinda aqui.

Aquilo atingiu bem lá no fundo de uma forma rápida e suja, exatamente onde ela queria que doesse. Imediatamente soltei o pulso dela com força suficiente para fazê-la dar meio passo para trás.

— Sai do meu quarto — exigi.

— Ou o quê? — provocou, desafiante.

Minha respiração ficou lenta e controlada, o tipo de calmaria que em mim sempre vinha um segundo antes do estrago.

— Ou eu esqueço que você é minha irmã e arranco esse aplique de segunda qualidade que você usa na cabeça — ameacei.

Ravenna sustentou meu olhar por mais um instante e, dentro dos seus olhos, havia raiva, mas havia outra coisa também. Aquela inveja antiga, feia, impossível de esconder por completo, e não importava o quanto ela tentasse ser perfeita, polida, admirada, ela ainda precisava entrar no meu espaço para se sentir melhor.

Ela alisou a própria roupa como se pudesse apagar o momento de tensão entre nós duas.

— Você não merece ninguém ficando do seu lado por muito tempo, aliás foi só questão de tempo até Zack perceber isso.

Sorri de forma cruel, porque seu discurso feria profundamente, mas eu não daria esse gosto a ela.

— Então aproveita e vai correndo logo — respondi sarcástica — que o caminho já está totalmente livre, tenho certeza de que você já decorou a rota.

Por um instante, imaginei que ela poderia retomar a ofensa ou que buscaria uma nova forma de me ferir com frases afiadas e ensaiadas, mas, para minha surpresa, Ravenna lançou um último olhar carregado de desprezo, sustentou a postura e girou nos calcanhares com toda a dignidade ensaiada e artificial que conseguiu montar naquele instante.

Antes de sair, ela parou na porta e deixou escapar seu último recado venenoso.

— Um dia, Roxanya, todo mundo vai querer sua cabeça, e eu vou adorar cada segundo desse espetáculo quando esse dia chegar.

Encostei o ombro na parede fria e cruzei os braços.

— Melhor isso do que passar a vida inteira invejando a própria irmã — respondi sem hesitar.

Ela ficou imóvel por um segundo, seu rosto tomando a forma de uma expressão de raiva reprimida, antes de bater a porta com tamanho ímpeto que a parede inteira estremeceu sob o impacto.

O silêncio que permaneceu no quarto depois de sua saída não trouxe conforto algum; muito pelo contrário, deixou no ar aquele gosto amargo e pesado de ressentimentos antigos, como se a atmosfera estivesse impregnada de um odor podre formado pelas antigas feridas que nunca cicatrizaram. Ravenna sempre soube exatamente onde enfiar a faca para machucar, e eu sempre soube exatamente como revidar na mesma moeda e intensidade.

Após sua saída, a sensação que ficou no ar parecia errada, desconfortável — aquele tipo de pressentimento inquietante que parece escorrer lentamente pela pele, como o silêncio pesado que antecede uma tempestade, quando o céu escurece e tudo ao redor parece parar em expectativa tensa.

Desde cedo, aprendi a confiar nesses instintos e a reconhecer quando algo não está certo. Quase sempre, essas intuições trazem notícias ruins e, naquela manhã em particular, antes mesmo de cruzar a porta do meu quarto, eu já sabia que o dia reservava muito mais do que uma simples discussão com minha irmã.

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