Mundo de ficçãoIniciar sessãoROXANYA
Com um suspiro rápido de impaciência, agarrei com força minha mochila, que estava largada aos pés da cama e, sem muita cerimônia, enfiei meu uniforme dentro dela, pouco me fodendo se ele ficaria amassado ou não, pois o tempo era curto demais para me preocupar com pequenos detalhes. Sabia que meu turno no The Rusted Halo, o bar decadente onde eu trabalhava, começaria em menos de trinta minutos. Já estava absurdamente atrasada para encarar o que me esperava: servir bebida de baixo custo para homens grosseiros que acreditavam que uma gorjeta de meros dois reais teria poder suficiente para comprar meu sorriso falso e minha paciência limitada.
Enquanto dava meus primeiros passos para sair do quarto, ouvi a voz de Ravenna vindo da sala.
— Você é uma mentirosa do caralho, Roxanya — disse ela com aquele tom acusatório.
Eu não quis nem perder tempo com aquela paranoia habitual dela e revirei os olhos num gesto automático de cansaço e impaciência; já me sentindo sufocar de tédio antes mesmo de começar o dia.
— Ah, sinceramente, vai se foder — resmunguei, minha voz embargada de frustração e desgaste, enquanto dava as costas ao quarto de uma vez. — Qual é o seu problema dessa vez, Ravenna? Você não cansa de ficar atrás de mim para criar confusão?
Atravessei a sala e encontrei minha irmã imóvel diante da janela que dava para a rua; os braços cruzados sobre o peito numa postura defensiva e, aquela expressão amarga, tão característica dela, estampada no rosto.
— Meu problema? — ela começou, sua voz carregada de reprovação, deixando a tensão aumentar no ambiente. — Você age como se tivesse terminado com Zack porque quis, como se fosse uma grande conquista largá-lo quando bem entendesse, mas veja só… — apontou com delicadeza para a janela, direcionando meu olhar para fora. — Ele ainda está vindo atrás de você, Roxanya.
Aquilo foi tudo o que eu precisava ouvir para sentir um ódio instantâneo subir das profundezas do meu ser.
— Você está maluca, sua vadia do caralho? — exclamei, não conseguindo esconder a fúria que me invadia.
Ela, por sua vez, riu de um jeito amargo e sem o menor traço de alegria.
— Se você não acredita em mim, então venha olhar pela janela e veja com seus próprios olhos — rebateu, me desafiando.
Não tive outra escolha e, mesmo contra a minha vontade, passei por ela com um passo irritado, preparada para rebatê-la com qualquer coisa que servisse para encerrar aquela conversa inútil. No entanto, as palavras sumiram da boca, morrendo antes de saírem, porque, quando voltei o olhar para a rua, lá estava ele.
Zack, sentado relaxadamente no capô de seu carro, como se fosse o rei daquela rua decadente, completamente alheio a qualquer problema. Uma perna estava dobrada, o cigarro sustentado entre os dedos enquanto soltava a fumaça lentamente, pelo nariz.
O vento gelado daquela manhã bagunçava seus cabelos loiros longos, o que só o fazia ainda mais atraente, porque ele tinha aquela capacidade irritante de transformar decisões ruins em algo tentador e sedutor à primeira vista. Zack Callahan parecia uma estrela do rock, com aquele ar de despreocupação e charme selvagem que tornava quase impossível resistir, e agora ele estava ali, parado em frente à minha casa, e eu sabia exatamente o que aquele olhar calmo, que ele só fazia quando queria alguma coisa e, na maioria das vezes, ele nunca aceitava ir embora sem conseguir.
Essa mistura de raiva e desgosto fervia dentro de mim, queimando com uma intensidade avassaladora a ponto de quase me fazer perder o controle. Eu estava cansada desse jogo tóxico de vai e vem com ele, daquela sensação constante de que ele sempre achava que tinha o direito indiscutível de invadir minha vida e meu espaço quando bem entendesse, como se eu fosse propriedade dele.
Atrás de mim, Ravenna soltou uma risada sem nenhuma pitada de humor na voz.
— Patético é pouco — ela comentou.
Com um desprezo visível, apertei a alça da mochila com tanta força que meus dedos começaram a doer, sentindo a necessidade de extravasar aquela tensão acumulada que se alojava no meu peito.
— Cala a boca, Ravenna — respondi com voz firme e fria, ignorando suas provocações.
Sem mais delongas, joguei a mochila sobre o ombro e atravessei a sala com passos decididos, disposta a lidar com aquele filho da puta que ousava estacionar na minha porta como se tivesse algum direito.
— Para onde você pensa que vai? — indagou Ravenna, embora soubesse perfeitamente a resposta.
— Vou mandar esse desgraçado embora — respondi.
Desci as escadas da varanda com passos apressados, sentindo a raiva pulsando dentro do meu peito com tanta força que parecia quase me derrubar. Mal percebi os sons dos meus pés contra o chão áspero do jardim seco, onde as plantas já não tinham força para crescer, simbolizando o estado miserável da nossa casa. Eu era uma tempestade prestes a explodir, pronta para confrontar aquele homem que continuava a cruzar os limites da minha paciência.
Assim que me aproximei, Zack levantou os olhos e encontrou os meus com uma calma quase desafiadora, como se estivesse me esperando perder o controle e reagir impulsivamente. O desgraçado tinha a audácia de sorrir daquele jeito, tentando me provocar, querendo que eu arrancasse aquele cigarro da sua boca e o enfiasse em algum lugar que só minha imaginação vingativa poderia conceber.
Fiquei parada diante dele, os braços cruzados firmemente e a respiração pesada, tentando manter a compostura apesar da tempestade interior.
— Roxy... — sua voz saiu baixa, tentando achar uma brecha em minha resistência.
— Você enlouqueceu? — rosnei com desprezo, a irritação me dominando. — Que porra você está fazendo na frente da minha casa, Zack? Vai embora, eu não te quero aqui.
Ele desceu do capô com uma lentidão quase calculada, corpo alto, magro e surpreendentemente atraente, mantendo aquela calma irritante que só ele parecia saber controlar perfeitamente.
— Precisamos conversar — declarou, sua voz carregada de seriedade, emanando um peso que eu não estava interessada em ouvir.
Soltei uma risada seca, sem o menor traço de diversão.
— Engraçado, porque eu tenho quase certeza de que essa parte de “precisamos conversar” acabou quando mandei você sumir da minha vida — retruquei, firme e inflexível, deixando claro que não havia mais espaço para discussões.
Zack passou a língua pelo lábio inferior, desviando o olhar por um segundo, tempo o bastante para parecer arrependido.
— Eu sei que você está com raiva — confessou, tentando uma aproximação suave.
— Não, Zack — rebati, com zombaria. — Raiva eu sinto quando alguém pega a última cerveja da geladeira. O que eu estou sentindo é tão forte que precisaria de um advogado criminal para lidar com a intensidade do meu ódio.
Ele respirou fundo, como se estivesse tentando manter a calma, e isso me irritou ainda mais.
— Até quando vai continuar com essa porra de surto, Roxy? — perguntou ele, ordenando uma resposta para um comportamento que não entendia.
Soltei uma risada sem um pingo de humor.
— Surto? — repeti, destacando a palavra como se fosse absurda.
— Sim, surto — ele confirmou. — Você inventou um monte de histórias na sua cabeça, alimentou fantasmas que não existem e decidiu destruir todo o nosso relacionamento baseando-se apenas nessa invenção.
Meu sangue ferveu instantaneamente.
— Ah, então a famosa Pink Lady, aquela vadia de capacete purpurinado, é invenção minha agora? — desafiei, minha voz carregada de desprezo que parecia não ter limites.
O maxilar dele se fechou com força, sinal claro de que minha provocação o atingiu em cheio. Isso só serviu para alimentar todos aqueles pensamentos loucos e paranoicos que me consumiam há semanas.
— Você me tirou das corridas, Zack. Você vetou meu nome em praticamente todos os circuitos importantes, e quer mesmo que eu acredite que isso não tem nada a ver com aquela vadia? — a acusação saiu afiada, quase cortando o ar entre nós.
— Eu te tirei das corridas porque você estava dirigindo como se quisesse se matar, caralho — rebateu seco, tentando manter a postura firme e autoritária.
Apontei o dedo em seu peito, desafiando sua autoridade como nunca fizera antes.
— Eu tenho certeza de que você nunca se importou com a minha segurança até começar a ficar ocupado demais fodendo a sua groupie de capacete rosa — minhas palavras foram como tiros certeiros.
— Ela não é porra nenhuma minha e você está ouvindo fofocas de bastidores e tratando tudo como verdade absoluta — respondeu ele, indignado, tentando se defender do que supostamente eram apenas rumores.
— E você decidiu aparecer na minha frente, agindo como um namorado arrependido depois de passar semanas grudado naquela vadia? — devolvi com ainda mais agressividade, denunciando que doía tanto quanto queimava.
Os olhos dele escureceram em uma fagulha de raiva.
— Não fala dela assim — ordenou, a voz baixa e ameaçadora, mostrando que parecia proteger algo que não queria admitir.
Foi como um tapa na cara, uma revelação que me atingiu com força máxima, e meu sangue voltou a ferver, queimando ainda mais do que antes.
— Ah, então ela é importante mesmo, não é? — soltei, desafiadora, fazendo-o encarar a verdade que ele tentava esconder.
— Foi exatamente isso que você ouviu? — Zack replicou, me olhando com incredulidade. — Caralho, Roxy, você pega qualquer coisa e transforma numa guerra dentro da sua cabeça.
— Quando eu descobrir quem é aquela filha da puta que está por trás daquele capacete purpurinado, eu vou acabar com ela.
Finalmente, pela primeira vez desde que saí da varanda, vi uma verdadeira expressão de irritação cruzar o rosto de Zack. Naquele momento, parecia que a situação começava a descontrolar-se para ele também. Com um movimento rápido, ele segurou meu pulso antes que eu pudesse fazer qualquer coisa impensada.
— Para de falar merda, você não vai se meter em briga com ninguém — avisou, firme, prendendo minha mão com força.
Meu coração batia forte dentro do meu peito, pulsando com um ódio profundo e fervente que eu lutava para conter.
— Me larga, caralho! — gritei com toda a força.
Ele mudou abruptamente sua expressão, e eu não precisei de muito para reconhecer aquela mudança. Afinal, eu conhecia o jeito como a mandíbula dele se enrijecia, tremendo e se fechando com tanta força que parecia prestes a se partir — era o típico sinal inconfundível de quando ele estava prestes a ceder à violência, pronto para quebrar tudo ao redor. Apesar de toda a contrariedade evidente, ele acabou soltando minha mão lentamente.
— Então essa é a sua decisão? — ele perguntou, como se esperasse que eu mudasse de ideia e voltasse atrás.
Ergui o queixo com determinação, tentando impor a minha vontade e mostrar que não havia mais espaço para dúvidas ou hesitações dentro de mim.
— Eu não vou mais voltar com você — disse com veemência, minha voz carregando não só a raiva, mas também o peso de tudo que passamos e que me fez chegar a essa decisão definitiva. — Agora, desapareça da minha frente para sempre. A partir deste momento, você está oficialmente livre para enterrar o seu pau naquela vadia nojenta quantas vezes quiser. E, sinceramente, espero que ela faça companhia para você quando os Rust Devils se foderem nas corridas dos circuitos, porque eu já não faço parte desse jogo sujo.
Zack passou a língua lentamente pelo piercing no canto da boca; seus olhos continuavam fixos em mim, como se estivesse tentando decifrar qual seria o meu próximo passo, o ponto em que eu poderia ceder.
— Essa é realmente a sua resposta final, Roxanya? — perguntou, pronunciando meu nome de um jeito que soou como um aviso sombrio, carregado de ameaças silenciosas.
— Sim, é — respondi sem titubear, olhando fixamente nos seus olhos. — E agora, vai para o inferno, seu desgraçado.
Ele ficou me encarando por longos segundos e então sorriu. Diferente dos sorrisos carinhosos que ele costumava me dar, aquele era o tipo de sorriso que alguém dá, segundos antes de fazer alguma coisa cruel.
— Certo — murmurou.
Nesse instante, meu estômago apertou numa sensação amarga de apreensão, porque eu conhecia Zack tempo suficiente para saber algo crucial sobre ele: ele nunca aceitava ser contrariado.







