Red Queen - Feita Para Queimar
Red Queen - Feita Para Queimar
Por: J. Loz
Prólogo e Capítulo 1

Existe uma gaiola no meio do quarto. Uma gaiola de verdade, grande o suficiente pra eu entrar em pé, dormir e aparentemente viver ali igual à porra de um animal exótico problemático. Tem uma caminha de cachorro no canto, preta, ridiculamente macia, e um pote de ração cravejado em diamante logo ao lado. É como se aqueles filhos da puta realmente tivessem sentado juntos para discutir qual seria a maneira mais humilhante possível de me deixar ali dentro.

No momento, estou sentada no chão dessa humilhação arquitetônica, tentando decidir qual foi exatamente a decisão catastrófica que me trouxe até aqui. E, honestamente? A lista é longa.

A pior parte é que eu ainda consigo ouvi-los rindo do lado de fora, como se isso aqui fosse divertido e se me trancar numa gaiola depois de destruir minha vida fosse só mais um jogo particular deles.

E o pior? Nem é a gaiola, a porra da caminha ou o pote de ração. É a coleira, porque aqueles filhos da puta colocaram uma em mim.

Uma coleira preta, cara, pesada o suficiente pra eu sentir o couro roçando contra minha garganta toda vez que respiro. E bem na parte da frente, gravadas em rubis brilhantes como um troféu doentio, estão as palavras que provavelmente deveriam me fazer querer matar todos eles: “Propriedade dos The Cove Boys”.

Agora eu sou aparentemente propriedade de quatro homens completamente desequilibrados que alternam entre querer me matar, me possuir ou arrancar minhas roupas. Às vezes os três ao mesmo tempo. O que provavelmente diz coisas horríveis sobre eles e sobre mim também.

Mas, antes de você começar a me julgar — e, sinceramente, eu julgaria também —, talvez eu devesse voltar um pouquinho e te contar exatamente como eu me fodi o suficiente pra acabar presa numa porra de gaiola, usando uma coleira com o nome dos The Cove Boys gravado nela.

Capítulo 1

ROXANYA

Eu acordei antes do sol, não por escolha, mas porque pessoas como eu não tinham esse tipo de privilégio.

Abri os olhos devagar e fiquei encarando o teto rachado acima da cama, onde uma mancha antiga de infiltração se espalhava como uma ferida mal curada. Àquela hora da manhã, com a luz fraca atravessando a cortina fina, ela parecia ainda maior, quase viva. Acho que é por isso que o quarto cheirava a mofo.

Fiquei imóvel por alguns segundos, ouvindo os barulhos ao redor. O cano da parede vibrava com aquele gemido irritante de sempre e, lá fora, alguma coisa de vidro tilintou na calçada enquanto o cachorro da vizinha latia como se estivesse brigando com o mundo. 

Todos os dias eu prestava atenção nesses sons; era quase como se fosse uma rotina, porque ali ninguém dormia de verdade, só descansávamos o suficiente para continuar sobrevivendo no dia seguinte.

Que bonito, pensei, mais uma manhã como qualquer outra. Por isso eu afastei o cobertor e me sentei devagar. Senti o frio do chão atravessar a sola fina da minha meia favorita, que se encontrava rasgada no instante em que meus pés tocaram o piso. Fiz uma careta, mas me levantei mesmo assim, afinal, reclamar nunca mudou porra nenhuma.

Meu caminho seguiu até o banheiro minúsculo, onde precisei desviar do quarto da minha mãe sem encarar sua porta, como se virar o rosto evitasse de alguma forma o bacanal que acontecia lá dentro. As paredes eram finas demais para esconder qualquer tipo de segredo naquela casa, e o colchão rangia sem parar, fazendo questão de denunciar a atividade praticada.

Abri a torneira e deixei que a água corrente preenchesse o ambiente, oferecendo um barulho constante para abafar os gemidos que ecoavam pelo corredor. O espelho quebrado encostado na parede me devolveu uma versão minha que eu já conhecia bem demais. Mesmo sob a luz fraca do banheiro, meu semblante continuava firme e desafiador, porque eu simplesmente me recusava a permitir que qualquer coisa tirasse a minha paz de espírito.

A minha pele parecia feita de porcelana, o que era estranho para alguém que tinha crescido conhecendo a fome e as dificuldades da vida. Eu sei que havia algo quase cruel nisso, porque o meu rosto era bonito demais para combinar com a vida fodida que eu levava. As minhas maçãs do rosto eram altas e marcadas, o que dava à minha expressão uma beleza afiada que não pedia permissão para existir. Meu nariz era de bonequinha e minha boca carnuda e naturalmente desenhada; tinha um ar perigoso e sexy. Se você me encontrasse na rua, você poderia jurar que eu tinha feito algum tipo de preenchimento labial, mas eu malemá tinha dinheiro para sobreviver, quem dirá bancar procedimentos estéticos. Graças a Deus, era tudo natural. 

O conjunto todo era bem bonito, mas eram os meus olhos que realmente prendiam as pessoas. A tonalidade era um azul que lembrava um oceano, idêntico aos da minha mãe. Quando eu me olhava no espelho, às vezes tinha a sensação incômoda de encarar uma versão mais jovem dela, porém, o que nos separava de verdade era o cabelo.

O cabelo dela era loiro e impecável demais para aquele lugar — bonito como alguma coisa frágil que nunca deveria ter sido tocada pela miséria. O meu era preto, liso e comprido, descendo pelas costas como uma sombra derramada. Eu sabia que esse cabelo preto obviamente era a marca deixada pelo homem que me colocou no mundo e desapareceu dele antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa. Engravidar uma puta de Rust Bay por si só já era uma loucura, quem dirá ficar e assumir a responsabilidade, não é mesmo?

Se eu fosse apenas um reflexo da minha mãe e do que esperam das mulheres de Rust Bay, eu estaria condenada a repetir sua história. Usar a minha beleza e meu corpo como moeda de troca para sobreviver um pouquinho a mais a cada dia, e acho que esse era um dos motivos pelos quais eu agia como se eu sempre estivesse aguardando um sinal para correr e não olhar para trás.

Quando desliguei a torneira e saí do banheiro enrolada na toalha, voltei para o quarto rapidinho, sentindo o cabelo úmido colado às costas. Entrei no quarto já pensando na roupa que eu iria vestir e, para continuar mantendo uma rotina, a gaveta da cômoda emperrou quando puxei, como fazia quase toda manhã, e precisei dar um tranco mais forte para abri-la. Escolhi o primeiro cropped preto que encontrei e um jeans gasto nos joelhos e vesti meu bom e velho coturno surrado.

Quando terminei, fui até a janela do quarto, encostei a testa no vidro e comecei a pensar no quanto eu odiava aquela sensação constante de aperto. A pobreza escancarada em cada esquina e, principalmente, a facilidade com que a miséria se agarrava às pessoas, como se, uma vez que ela tocasse em você, ela nunca mais fosse soltar de verdade.

A verdade é que eu entendia que odiar aquele lugar era quase como odiar a mim mesma, porque Rust Bay tinha me ensinado a não esperar demais, não confiar em ninguém e, acima de tudo, que, se eu quisesse algo, eu tinha que aprender a tomar.

Um barulho seco no corredor me arrancou dos pensamentos e então escutei passos rápidos e familiares.

Meu corpo inteiro ficou em alerta antes que minha cabeça organizasse o motivo, por isso soltei a cortina devagar e me virei para a porta, sentindo aquela tensão antiga deslizar para dentro de mim como uma lâmina conhecida. Os passos pararam do outro lado e, por um instante, houve silêncio.

E então a maçaneta girou e a pessoa que eu menos queria ver naquele momento entrou no meu quarto sem bater ou pedir permissão.

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