CAPITULO 8

No palácio de Deméter, as paredes de mármore pareciam tremer com a angústia da deusa da agricultura. Mas ela não estava sozinha. Sentada no parapeito de uma janela que dava para os picos congelados do monte, observando o mundo lá embaixo com um sorriso cínico, estava Despina.

Irmã de Perséfone, Despina era o oposto da doçura da jovem desaparecida. Nascida da fúria e do inverno, ela carregava nos olhos a frieza das geadas e um ressentimento antigo por sempre viver à sombra da "filha perfeita" de Deméter.

Você devia parar de andar de um lado para o outro, mãe — disse Despina, a voz arrastada, enquanto brincava com uma pequena adaga de gelo que criava entre os dedos. — Vai acabar desgastando o chão do palácio. E, honestamente? Toda essa cena por causa da Perséfone já está ficando cansativa.

Deméter parou abruptamente, o olhar fulminante direcionado à filha.

Como você pode ser tão insensível? Sua irmã sumiu há três dias! Ninguém a viu, o campo de rosas asiáticas de seu pai está em ruínas. Algo terrível aconteceu, Despina. Eu sinto isso.

Despina soltou uma risada curta, seca, que fez o ar do aposento esfriar alguns graus. Ela saltou do parapeito, caminhando devagar até a mãe.

O que aconteceu foi que ela finalmente cansou de ser a bonequinha de porcelana do Olimpo — desdenhou Despina, inclinando a cabeça. — Mas se você quer tanto saber onde ela está, por que não pergunta para o verdadeiro culpado? Vá falar com o "Soberano do Universo". Zeus adora fingir demência quando as coisas saem do controle dele.

Deméter franziu a testa, dando um passo à frente.

O que você quer dizer com isso? Eu acabei de falar com Zeus. Ele diz que ela deve ter fugido com algum rapaz, que eu me preocupo demais...

E você acreditou? — Despina revirou os olhos, a expressão mudando para algo mais sombrio. — Por favor, mãe. Você realmente acha que um reles mortal ou um deus menor conseguiria despedaçar um campo protegido pelo próprio Zeus sem que ele percebesse? Aquela destruição não foi um sequestro comum. Foi o resultado de uma briga. Uma briga feia.

Despina aproximou-se ainda mais, o tom de voz caindo para um sussurro venenoso, carregado de uma satisfação cruel por saber mais do que a própria mãe.

Perséfone andava escondendo segredos. Ela andou mexendo com forças que nem o papai dela consegue controlar direito. Na noite em que ela sumiu, o céu não estava apenas chovendo, o mar lá embaixo parecia querer engolir a terra. Houve um confronto no Olimpo que apagou até as estrelas por alguns segundos. Zeus sabe exatamente quem levou a sua preciosa filha... ou, pelo menos, sabe quem tentou matá-la antes que ela caísse no mundo dos mortais.

Deméter sentiu o sangue congelar nas veias. As palavras de Despina batiam dolorosamente com o mistério de Anastácia lá embaixo: o confronto divino, a tempestade violenta e o mar enfurecido.

Despina... — a voz de Deméter falhou. — O que você sabe? Diga-me!

Despina apenas sorriu, um sorriso gélido que não alcançou seus olhos, e deu as costas para a mãe, caminhando de volta para a janela.

Eu não sei de nada, mãe. Sou apenas a filha rejeitada, lembra? Mas se eu fosse você, olharia para onde as ondas quebram com mais força. Às vezes, o que cai do Olimpo não morre... apenas esquece quem é.

......

De volta ao mundo dos mortais, o silêncio tenso da sala subterrânea foi quebrado por um som que fez o sangue de Dimitra congelar. O gongo principal do Partenon ecoou três vezes — um sinal de alerta que só era usado em caso de visitas de extrema importância ou perigo iminente.

Fique aqui — sussurrou Dimitra para Anastácia, cobrindo rapidamente os pertences com um pano escuro. — Não saia desta sala por nada.

Antes que Anastácia pudesse protestar, a alta sacerdotisa subiu as pressas. No entanto, o pressentimento de Anastácia era forte demais para deixá-la parada. Ignorando a ordem, ela seguiu Dimitra discretamente pelos corredores de pedra até alcançar a fresta de uma cortina que dava para o salão principal do templo.

O cenário no pátio interno era de puro terror. Todas as sacerdotisas estavam de joelhos, com as cabeças coladas ao chão de mármore. Nicolas estava estático perto de uma das colunas, com a mão firmando o cabo de sua ferramenta, os olhos fixos na figura que havia acabado de cruzar o portal.

Não era Hermes. O visitante era muito mais intimidador.

O visitante exalava uma aura de poder opressor. Trajava uma armadura de metal fosco e trazia um elmo que ocultava seu rosto, mas seus olhos brilhavam com um tom dourado e gélido, aquele guerreiro era um lacaio das geleiras eternas — Anatásia paralisou, seus olhos pareciam muito com o par de olhos que Anastácia havia visto em seu estalo de memória. O cheiro de ozônio que ela sentira antes agora preenchia todo o salão, tornando o ar difícil de respirar.

Era um guerreiro do norte, mas parecia ter algo errado com ele, parecia não responder por si, parecia corrompido:

Sacerdotisa — a voz do guerreiro ecoou pelas paredes do templo, grave e pesada como o estrondo de placas tectônicas se movendo. — Não vim buscar as bênçãos de Atena, e não tenho tempo para os seus rituais.

Dimitra adiantou-se, tentando manter a postura firme, embora suas mãos tremessem levemente sob as mangas do vestido.

O Partenon está sob a proteção da deusa da sabedoria, viajante. Que assunto o traz aqui com tanta urgência?

O enviado deu um passo à frente, e o mármore sob seus pés pareceu clarear sutilmente, como se uma fina camada gelo se formasse a cada passo.

Três noites atrás, uma ladra caiu do topo do monte durante a tempestade. Meus rastreadores indicam que ela despencou até a base desta montanha. Entregue a garota, Dimitra.

Ele ergueu o olhar, varrendo o salão com desdém, aproximando-se perigosamente da cortina onde Anastácia se escondia. O coração da jovem martelava tão forte contra as costelas que ela temeu que o guerreiro pudesse ouvi-lo.

Entregue a garota, Dimitra — ordenou o emissário, com uma calma ameaçadora. — Se ela estiver morta, quero o corpo. Se estiver viva, ela pertence às montanhas. Negue a existência dela e este templo inteiro será engolido por uma avalanche antes do pôr do sol.

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