CAPÍTULO 05

MARCO SALVATORI

O tilintar dos talheres contra a porcelana era o único som que preenchia a sala de jantar. O jornal em minhas mãos estava aberto, mas eu sequer prestava atenção às palavras. Minha mente já estava inquieta com os compromissos do dia, os negócios que precisavam da minha atenção.

Ao meu lado, minha esposa permanecia sentada, imóvel, os olhos vazios fixos em algum ponto distante. O café esfriava em sua xícara, intocado. Ela estava aérea, perdida dentro da própria mente. Um incômodo constante. Eu me certificava de que ficasse assim. Era melhor para todos.

A cuidadora, sempre atenta, mantinha-se perto dela, fingindo zelo. Sua lealdade a mim ia além dos deveres profissionais, e era isso que a tornava útil.

Deslizei os olhos pelo relógio de ouro em meu pulso e franzi o cenho.

— Chame Jade — ordenei à empregada, sem desviar o olhar do jornal. — Ela conhece as regras. Deveria estar aqui.

A mulher assentiu rapidamente e saiu da sala. O silêncio voltou a dominar o ambiente, mas agora estava impregnado por uma irritação crescente.

Minutos depois, passos hesitantes ecoaram pelo chão de mármore. Levantei os olhos quando a empregada retornou, o rosto pálido e apreensivo.

— Senhor... — ela pigarreou, como se escolhesse as palavras. — A senhorita Jade não está no quarto.

Minha mão se fechou em um punho sobre a mesa. O jornal deslizou de meus dedos e caiu ao chão.

— Como assim, não está?

— Ela... não está em nenhum lugar da casa, senhor.

Meu estômago afundou. Um frio cortante percorreu minha espinha antes de ser substituído por um calor furioso. Meus olhos se estreitaram enquanto me inclinava ligeiramente para frente, minha voz agora carregada de uma ameaça letal.

— Chame os seguranças. Agora.

A empregada saiu apressada. Cada segundo que passava me corroía por dentro. Quando os homens entraram, meus olhos cravaram-se neles com puro ódio.

— Como ela saiu daqui? — minha voz era um rosnado, cada palavra carregada de fúria contida.

Os seguranças trocaram olhares nervosos. Um deles engoliu em seco antes de se arriscar a falar:

— Senhor, nenhum dos portões foi abertos. Nenhum carro saiu da propriedade.

Minha paciência se esgotou num instante. Meu punho bateu contra a mesa com força, fazendo a porcelana estremecer e o silêncio pesar ainda mais.

— Então me expliquem, desgraçados, como diabos ela desapareceu?!

O medo se espalhou nos olhos deles, e eu me alimentei disso. Minha voz saiu cortante, definitiva:

— Se algo acontecer com Jade, um de vocês vai pagar por isso!

Um arrepio de pânico percorreu o ambiente. O silêncio foi quebrado apenas pelo barulho abafado da xícara deslizando dos dedos trêmulos da minha esposa e tombando contra o prato. Ela nem pareceu notar.

Mas eu notei tudo. E alguém pagaria caro por esse erro.

...

DOMINICK

O velho deve estar arrancando os cabelos agora. Um dia inteiro se passou e Jade ainda não colocou nada na boca. Isso tá me tirando do sério. Ela é teimosa, orgulhosa... Mas vai quebrar. Todos quebram.

Essa casa de temporada não era o plano, mas o lugar certo ainda não tava pronto. Paciência. Hugo, meu cúmplice, estava resolvendo isso pra mim. Ele é pai de Edgar, meu irmão mais velho que morreu pelas mãos do maldito marco.

Ele mais do que ninguém me lembra do motivo de tudo isso. "Você não pode hesitar, Dominick. Passou anos esperando esse momento. Ela é o meio para o fim."

Essas palavras queimam na minha cabeça enquanto pego a corda e a fita preta. Respiro fundo. É agora, eu não posso mas voltar atrás.

...

Entro no quarto. Jade me encara, a respiração acelerada, como um animal acuado. Os olhos dela gritam pavor, e isso deveria me satisfazer. Mas tudo que sinto é raiva.

Ela vê a corda em minhas mãos, a fita adesiva preta.

— Não! Não... fica longe de mim! — A voz dela falha, mas o medo é real.

— Cala a boca. — Minha paciência já era.

Ela se debate, mas eu sou mais forte. Muito mais forte. A empurro na cama, imobilizando seus braços com a corda. O cheiro do medo dela enche o ar.

— Por favor! Não faz isso comigo! — Os olhos dela brilham com lágrimas, implorando.

Abro a fita com os dentes, o barulho ecoando no quarto silencioso. Meu sangue ferve.

— Coopera e não vai doer. — Minha voz sai firme, mas algo dentro de mim se retorce.

Ela balança a cabeça freneticamente. Ela não quer. Azar o dela.

Passo os dedos pelo rosto dela, afastando os cabelos desgrenhados. Ela se encolhe, o corpo todo tremendo.

— Só faz o que eu mandar, princesa. — Meu tom sai baixo, sombrio.

Ela solta um som abafado, negando. Então a levanto, coloco-a no chão. Amarrada, silenciada pela fita. Um desastre ambulante.

Pego o celular. Ela vê e começa a se debater de novo. O pânico toma conta do rosto dela. Sabe o que eu vou fazer.

— Seu pai precisa pagar. E você... você é só o começo. — Minha voz sai gelada, cruel. Gravo o vídeo. Rápido. Preciso que Marco sinta o gosto do medo.

O gosto de ver sua princesinha tão desprotegida, nas minhas mãos. Detonada!

Ele vai sentir a dor, vai sentir a fúria de não poder fazer nada.

Ela chora, mas o olhar dela... não é só medo. É raiva. É ódio. Um ódio tão denso que chega a me sufocar.

Envio o vídeo pro Hugo pra ele passar pro maldito.Era missão cumprida.

Mas enquanto olho pra ela, algo me incomoda. A intensidade nos olhos dela, o jeito que ela me encara...

Era isso que eu queria, não era?

Então por que diabos isso não parece tão certo assim?

....

Eu solto um suspiro e me abaixo de frente pra ela. Ela não me olha. Os olhos fixos no chão, o rosto ainda molhado de lágrimas. Respiro fundo, mais uma vez. Minha paciência está no limite. Seguro o queixo dela, forçando-a a me encarar. Mas ela desvia, desafiadora como sempre.

— Isso não tem nada a ver com você. — Minha voz sai baixa, controlada.

Ela não reage. Fica ali, firme. Então continuo.

— Teu pai fez muito mal a muitas pessoas...

E então, finalmente, ela me olha. Mas não como eu esperava. Não há medo. Apenas desafio. Orgulho.

— Não me olha assim, garota. — Minha voz sai grave, carregada.

Ela me encara com ainda mais desprezo. A raiva queima no olhar dela.

— Essa tua rebeldia me deixa louco! — rosnou, arrancando a fita da boca dela de uma vez só.

Ela solta um grunhido de dor.

— Argh!

Mas em vez de chorar ou implorar, ela me olha com um brilho felino nos olhos.

— Eu vou acabar com você! — ela solta, com ódio gotejando de cada palavra.

Eu sorrio, de canto. Esse jogo está ficando cada vez mais interessante.

— E eu achando que você estava com medo.

Ela não recua. Continua, cheia de veneno.

— Meu pai já deve ter notado que eu não estava em casa. Ele vai te caçar! Vai te achar e, quando isso acontecer, eu quero estar lá pra ver.

Paro de andar e a encaro. Ela quer me desafiar? Que seja.

— Eu mal posso esperar então...

Ela rosna e eu saio do quarto, pegando o celular e ligando pra Hugo.

...

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