Era Carolina.
Benício estava sentado à sua frente, e mesmo de costas, sua postura parecia gentil.
Ele descascava camarões com cuidado para ela, levando-os aos seus lábios.
Ela abriu a boca com naturalidade.
— Nossa! O gosto é o mesmo de dez anos atrás, não mudou nada. Eu amei!
Ela arregalou os olhos, sorrindo de surpresa.
— Eu também não mudei. Você gosta?
Benício continuou a descascar os camarões, em tom de brincadeira.
Mas suas costas, de repente tensas, traíram seu nervosismo.
Carolina piscou, atônita, e depois fez um bico.
— Mentiroso! Você mudou sim. Agora você tem a Regina.
— Confesse! O restaurante giratório, o aquário, o cruzeiro... todos esses lugares cheios de nossas memórias, você a levou a todos eles, não é?
De soslaio, ela olhou para mim.
Seu tom era carregado de uma superioridade presunçosa.
— Nunca.
A resposta de Benício foi imediata.
Inconscientemente, cerrei os punhos.
Então, suas repetidas desculpas de estar ocupado eram apenas pretextos para proteger as memórias deles.
E eu nunca fiz parte do jogo.
— Acho bom.
Carolina disse, com um ar arrogante.
— Você me prometeu que seríamos sempre os melhores amigos do mundo. Se quebrar sua promessa, vou te devorar assim!
Ela deu uma grande mordida no camarão que ele segurava, com uma expressão feroz.
Seus gestos e palavras afetadas, que antes me irritavam como chiclete no cabelo, agora apenas me cansavam, e eu não conseguia me livrar deles.
Mas ele, como sempre, apenas sorriu.
— Ah, você... nunca vai crescer.
— Como quiser, minha princesa.
Carolina exibiu um sorriso vitorioso e só então pareceu notar minha presença.
— Ah, Regina? O que você está fazendo aqui?
Benício virou a cabeça abruptamente.
Em seus olhos, surgiu um vislumbre de pânico que eu nunca tinha visto.
Logo substituído pela raiva.
— Você está me seguindo?
— Regina, primeiro a ameaça de divórcio, agora isso. Onde você aprendeu esses truques tão baixos?
— Não importa o relacionamento, as pessoas precisam de espaço. Agindo assim, você só vai me afastar cada vez mais, você...
As acusações pararam quando ele viu meus olhos marejados.
Ele hesitou e puxou a cadeira vazia ao seu lado.
Até seu tom de voz suavizou.
— Já que está aqui, jante conosco.
Esta foi provavelmente a primeira vez que ele, na frente de Carolina, notou minha tristeza.
O sorriso triunfante de Carolina congelou instantaneamente.
Mas minha tristeza não era mais porque ele não me amava.
Era por pena de mim mesma, por ter desperdiçado dez anos inteiros com alguém que não valia a pena.
— Eu não estava te seguindo, só vim jantar. E, aliás, eu tenho minha própria mesa.
Depois de falar calmamente, passei direto por eles.
Dei a volta no salão e me sentei no lugar que havia reservado.
Longe de sua vista, a deslumbrante paisagem noturna passava lentamente.
O mundo sem Benício era, de fato, espetacular.
Naquela noite, Benício não voltou para casa.
Mas, pela primeira vez, ele me enviou uma mensagem.
[Tenho uma festa hoje à noite. É com um grupo de amigos. Não pense demais.]
Olhei para a mensagem, algo que eu tanto desejei no passado, sem sentir alegria.
Apenas ironia.
No meu celular, havia um vídeo que Carolina acabara de enviar.
Uma sala de festas animada, onde eles jogavam.
Eram todos amigos de infância, com trajetórias de vida muito semelhantes.
Após algumas rodadas, o jogo estava empatado.
De repente, Carolina puxou Benício pela gola, aproximou-o e o beijou.
Depois de longos cinco minutos, ela o soltou.
— Eu beijei o Benício. Alguém mais aqui já o beijou? Acho que não. Eu ganhei!
Ela o abraçou pelo braço, feliz.
— Foi só pelo maldito espírito competitivo, peguei a boca do Benício emprestada. Não entendam mal nossa amizade, pessoal.
Eu apenas observei o Benício do vídeo.
Em dez anos juntos, ele sempre foi controlado, racional e calmo.
Eu nunca o tinha visto tão nervoso e sem jeito, com as orelhas vermelhas.
Então, ele também tinha sentimentos intensos, mas eles nunca foram para mim.
Lembrei-me de como Carolina se gabava para mim.
Eles cresceram juntos. Ele comprava seu café da manhã, a acompanhava para casa, escrevia cartas de amor para ela, brigava por ela...
Fez todas as coisas apaixonadas e intensas.
O que eu não entendia era: se ela realmente não o amava, por que continuava me provocando e me estimulando com mensagens?
Chegando até a beijá-lo por iniciativa própria.