Mundo ficciónIniciar sesiónDepois de Carlos, Carmem mergulhou ainda mais nos estudos. A formatura chegou como chegam alguns sonhos: depois de tanto esforço que, quando finalmente acontecem, parecem irreais. Iolanda assistiu à filha receber sua conquista com as mãos apertadas contra o peito. Rosalina chorou antes mesmo de o nome de Carmem ser anunciado. Mais tarde, Carmem soube que Carlos havia abandonado aquela trajetória e se envolvido com o mundo do crime. A notícia lhe trouxe tristeza, mas também uma certeza incômoda: às vezes, duas pessoas começam lado a lado e uma única sequência de escolhas é suficiente para levá-las a destinos opostos. Ela seguiu.
A carreira militar havia sido seu primeiro grande sonho, mas não era o último. Desde muito jovem, Carmem se perguntava por que algumas pessoas conseguiam transformar a dor em força enquanto outras pareciam aprisionadas por ela. A Psicologia começou como curiosidade e se tornou chamado. Quando sua situação financeira permitiu, ingressou na faculdade. Vieram outros cinco anos de estudo. Outros finais de semana perdidos. Outras noites curtas. Dessa vez, porém, Carmem já não estudava para fugir da vida que tinha. Estudava para construir a vida que queria. A Psicologia Jurídica a fascinou. Havia, naquele encontro entre comportamento humano, trauma, responsabilidade e justiça, algo que dialogava profundamente com sua própria história.
Fez especializações. Destacou-se. Recebeu convite para lecionar. No primeiro dia diante de uma turma, segurou o marcador entre os dedos e ficou alguns segundos olhando para os alunos. Lembrou-se da menina que ia à escola com fome. Sorriu.
— Bom dia. Podemos começar?
A professora nasceu ali. Aos poucos, sua trajetória também mudou a família. Irmãos que haviam abandonado os estudos voltaram para a escola. Alguns chegaram à faculdade. Iolanda repetia para quem quisesse ouvir que a filha “tinha ido longe”. Carmem sempre respondia:
— Nós fomos.
Mas havia uma parte de sua vida que continuava cuidadosamente fechada. O amor. Ela não tinha pressa. Não queria alguém que admirasse sua força apenas enquanto ela não o contrariasse. Não queria ciúme disfarçado de cuidado nem controle chamado de proteção. Queria parceria. E, se isso não existisse, preferia a própria companhia. Aos vinte e nove anos, prestou concurso para atuar como psicóloga jurídica. Quando viu seu nome entre os aprovados, não gritou. Fechou os olhos. Por alguns segundos, voltou a ser a garota que correra pelas ruas para não perder o portão da prova da Marinha. Só que agora ela não precisava mais perguntar se conseguiria.
Ela sabia. Pouco depois, foi nomeada para atuar no tribunal, mantendo também parte de sua vida acadêmica. No primeiro dia, caminhou pelos corredores observando portas, processos, advogados apressados e servidores que pareciam conhecer cada centímetro daquele lugar.
Carmem diminuiu o passo por alguns segundos. O som dos saltos ecoava pelo corredor amplo, misturando-se às vozes baixas e ao movimento constante de pessoas carregando processos. Vestia uma calça de alfaiataria escura, camisa clara e um blazer bem cortado. Os cabelos estavam cuidadosamente arrumados, e a postura segura escondia a ansiedade daquele primeiro dia.
Parou diante de uma janela e observou o movimento lá fora. Por um instante, quase sorriu ao pensar na distância entre aquela mulher e a menina que estudava à noite, cansada, contando moedas para o ônibus.
Não sentia vergonha daquela menina.
Sentia orgulho.
Tudo o que vivera a acompanhava até ali — não como um peso, mas como parte da mulher que havia se tornado.
— Doutora Carmem?
Ela se virou.
Uma servidora segurava uma pasta contra o peito.
— Sim.
— Precisamos da senhora em uma das salas. Há um caso aguardando avaliação.
Carmem assentiu e recebeu a pasta. Antes de abri-la, respirou fundo. Era apenas seu primeiro dia, mas alguma coisa naquele lugar lhe provocava uma sensação estranha, quase como se a vida estivesse prestes a mudar novamente.
Ela afastou o pensamento.
Não acreditava em pressentimentos.
Ainda.
Carmem não fazia ideia de que, entre todas aquelas salas, havia uma porta que a levaria diretamente ao passado. E, do outro lado dela, um homem que ainda se lembrava de um beijo ocorrido muitos anos antes.







