Mundo de ficçãoIniciar sessãoValentina demorou alguns segundos para encontrar a voz.
Ela ainda encarava a porta do escritório, por onde o segurança acabara de sair, repetindo mentalmente as palavras que ouvira.
"Leve-o para o galpão. Eu mesmo vou interrogá-lo."
Aquilo não era uma conversa normal. Não era a linguagem de um empresário discutindo um problema corporativo. Havia algo muito maior escondido atrás da imagem impecável de Leonardo Vasconcelos.
Ela respirou fundo e deu um passo para trás.
— Eu acho melhor voltar ao meu setor.
Leonardo não tentou impedi-la.
— Pode ir.
Ela caminhou até a porta, mas parou antes de sair.
— O senhor ainda não respondeu.
— Respondi.
— Não. O senhor só disse que é um homem de quem eu deveria ficar longe.
Leonardo sustentou seu olhar.
— E é a mais pura verdade.
Valentina queria fazer dezenas de perguntas, mas desistiu. Abriu a porta e deixou a sala.
Assim que voltou ao setor financeiro, todos os colegas a cercaram.
Clara foi a primeira.
— O que aconteceu? Você está branca! O presidente brigou com você?
— Não.
— Então por que ele chamou você?
Valentina tentou sorrir.
— Assuntos de trabalho.
A amiga estreitou os olhos.
— Estranho. Ele nunca fala diretamente com ninguém daqui. Nem os diretores têm acesso fácil à sala dele.
Antes que Valentina pudesse responder, seu celular vibrou.
Era uma mensagem de Henrique.
"Nós precisamos conversar. Eu estou na recepção da empresa. Não vou embora até você me ouvir."
Ela fechou os olhos por um instante.
Era a última coisa de que precisava.
Desceu até o térreo decidida a acabar com aquilo de uma vez. Assim que saiu do elevador, viu Henrique esperando próximo à recepção, segurando um pequeno buquê de flores.
Ao vê-la, ele abriu um sorriso aliviado.
— Graças a Deus. Você não atende minhas ligações.
— Porque eu não quero falar com você.
Ele estendeu as flores.
— Trouxe isso para você.
Valentina sequer olhou para o presente.
— Pode jogar no lixo.
Henrique segurou o braço dela com delicadeza.
— Eu sei que você está magoada, mas me escuta. O que aconteceu com a Lívia foi uma confusão. Eu nunca quis perder você.
Ela soltou uma risada amarga.
— Engraçado. Porque parecia muito confortável enquanto a beijava.
— Eu me deixei levar.
— Durante quanto tempo? Uma semana? Um mês? Ou vocês estão juntos há tanto tempo que eu virei apenas um obstáculo?
Henrique ficou em silêncio.
Esse silêncio doeu mais do que qualquer resposta.
— Você não entende — disse ele, baixando a voz. — Eu tenho sentimentos pela Lívia, mas também amo você. Eu estava tentando resolver tudo sem machucar ninguém.
Valentina o encarou, incrédula.
— Você queria ficar com nós duas?
Ele não respondeu.
Ela afastou a mão dele de seu braço.
— Que bom que finalmente está sendo honesto.
Nesse momento, a porta principal da empresa se abriu.
Dois homens de terno entraram primeiro, observando o ambiente ao redor. Em seguida, Leonardo apareceu.
A movimentação na recepção parou imediatamente.
Funcionários e seguranças se endireitaram, cumprimentando-o com respeito.
Leonardo caminhava com tranquilidade, mas seus olhos pararam exatamente na cena diante dele.
Henrique ainda estava muito perto de Valentina.
E isso bastou para endurecer sua expressão.
Ele se aproximou sem pressa.
— Algum problema, senhorita Valentina?
Henrique virou o rosto, surpreso.
— Você conhece o presidente?
Valentina abriu a boca para responder, mas Leonardo falou antes.
— A senhorita Moreira é uma excelente funcionária.
Henrique estendeu a mão, tentando parecer cordial.
— Prazer. Sou Henrique Albuquerque, noivo dela.
O aperto de mão nunca aconteceu.
Leonardo simplesmente olhou para a mão estendida e depois para Valentina.
— Noivo?
Ela respirou fundo.
— Ex-noivo.
A resposta fez Henrique perder a calma.
— Não decide isso sozinha! Nós ainda temos muito para conversar.
Leonardo deu um passo à frente, ficando entre os dois.
— A senhorita Moreira deixou claro que não deseja conversar.
Henrique franziu a testa.
— Isso é um assunto pessoal. Não acho que o senhor deva se envolver.
Um dos seguranças de Leonardo moveu-se discretamente, mas ele fez um pequeno gesto para que permanecesse onde estava.
— Você veio até a minha empresa importunar uma funcionária durante o expediente. Agora isso também é um assunto meu.
A recepção inteira assistia à cena em silêncio.
Henrique tentou manter a postura.
— Eu só quero resolver um problema com a mulher que amo.
Valentina sentiu um aperto no peito ao ouvir aquelas palavras. Dias atrás, teria acreditado nelas. Agora pareciam vazias.
Leonardo voltou-se para ela.
— O que você quer fazer?
Era uma pergunta simples.
Mas fazia muito tempo que ninguém lhe perguntava o que ela queria.
Não seus pais.
Não Henrique.
Não a família.
Todos apenas decidiam por ela.
Valentina ergueu a cabeça e respondeu com firmeza:
— Eu quero que ele vá embora.
Henrique arregalou os olhos.
— Valentina...
— Vá embora. E não me procure mais.
Ele tentou insistir, mas dois seguranças da empresa já se aproximavam. Percebendo que estava sendo observado por dezenas de pessoas, apertou o buquê de flores com força e deu alguns passos para trás.
Antes de sair, lançou um olhar para Leonardo.
— Isso não acabou.
Leonardo não respondeu.
Apenas esperou até que Henrique atravessasse a porta de vidro e desaparecesse do lado de fora.
A recepção voltou ao movimento normal aos poucos.
Valentina abaixou a cabeça.
— Obrigada.
— Você não precisa agradecer.
— Preciso, sim. Ele não teria ido embora tão fácil.
Leonardo permaneceu em silêncio por alguns instantes.
Então estendeu a mão para ela.
— Venha comigo.
Ela olhou para a mão dele, confusa.
— Para onde?
— Almoçar.
Valentina quase achou que tinha ouvido errado.
— O senhor está me convidando para um almoço?
— Estou.
— Por quê?
Ele respondeu sem desviar os olhos dela:
— Porque desde ontem você só encontra pessoas tentando usar, enganar ou machucar você.
Ela sentiu o coração acelerar.
Leonardo continuou:
— E porque eu gostaria que, pelo menos durante uma hora, você estivesse ao lado de alguém que não quer nada além da sua companhia.
Valentina ficou sem reação.
Não sabia quase nada sobre aquele homem.
Sabia apenas que era poderoso, perigoso e carregava segredos que podiam destruir vidas.
Mesmo assim, por algum motivo, a presença dele transmitia uma segurança que ela não sentia havia muito tempo.
Sem perceber, seus dedos tocaram o cartão preto guardado dentro da bolsa.
Então, ignorando a curiosidade dos funcionários e o olhar furioso de Henrique, que ainda observava tudo do lado de fora do prédio, ela tomou uma decisão.
— Tudo bem... eu aceito.
Um discreto brilho surgiu nos olhos de Leonardo.
Do outro lado da rua, dentro do carro onde havia parado para vigiar a cena, Henrique fechou as mãos em punhos.
Ele nunca imaginou que perderia Valentina.
E menos ainda que o homem que estava ao lado dela seria justamente Leonardo Vasconcelos, o empresário mais influente e misterioso da cidade.
O que Henrique ainda não sabia era que aquele encontro aparentemente inocente mudaria o destino de todos eles... e o colocaria na mira do homem mais perigoso do país.







