Capítulo 6 — O Dono do Jogo

Valentina não conseguiu dormir.

Sentada no chão, encostada na cama, ela passou horas olhando para a pequena caixa onde havia guardado lembranças do relacionamento com Henrique. Fotografias de viagens, bilhetes escritos à mão, ingressos de cinema e uma lista rabiscada com os nomes que haviam escolhido para os filhos que planejavam ter um dia.

Aquilo parecia pertencer à vida de outra pessoa.

Ela pegou uma das fotos. Nela, Henrique a abraçava durante um jantar de aniversário, enquanto Lívia aparecia ao fundo, sorrindo para a câmera.

Agora, olhando com atenção, percebeu algo que antes ignorava. Os olhos dele não estavam voltados para ela.

Estavam em Lívia.

Valentina soltou uma risada amarga.

Talvez todos os sinais estivessem diante dela esse tempo todo. Talvez apenas não quisesse enxergar.

Sem pensar duas vezes, rasgou a fotografia ao meio.

Depois outra.

E mais outra.

Quando terminou, a pequena caixa estava cheia de pedaços de papel.

Ela se levantou e colocou tudo dentro de um saco de lixo.

Não queria mais lembranças.

Não queria mais promessas.

Não queria mais amar alguém que a fazia sentir tão pequena.

Na manhã seguinte, desceu para tomar café antes de ir para a empresa. Pretendia agir como se nada tivesse acontecido. Trabalharia, voltaria para casa e começaria a organizar sua mudança.

Ela não ficaria naquela mansão por muito mais tempo.

Assim que entrou na sala de jantar, encontrou a família reunida.

Alberto lia o jornal.

Beatriz tomava café em silêncio.

Lívia e Henrique estavam sentados lado a lado.

Aquilo foi quase uma provocação.

Henrique se levantou imediatamente.

— Eu estava esperando você.

— Não precisava.

— Valentina, nós precisamos conversar sem brigas.

Ela ignorou o ex-noivo e caminhou até a mesa, servindo uma xícara de café.

Foi Alberto quem quebrou o silêncio.

— Henrique nos explicou a situação. Ele reconhece que cometeu um erro.

Valentina ergueu os olhos.

— Um erro?

— Sim. Mas relacionamentos são complicados. Você é adulta o suficiente para não tomar decisões precipitadas.

Ela encarou o homem à sua frente, sem acreditar.

— O senhor quer que eu continue um casamento com um homem que me traiu com a minha irmã?

Beatriz pousou a xícara sobre a mesa.

— O casamento pode ser adiado por alguns meses. Nesse tempo, vocês colocam a cabeça no lugar.

Lívia abaixou o rosto, assumindo a expressão de vítima que conhecia tão bem.

— Eu nunca quis machucar ninguém...

Valentina perdeu a paciência.

— Então por que você não desaparece da minha frente?

Henrique segurou a mão de Lívia, num gesto automático de proteção.

Esse pequeno movimento respondeu a todas as dúvidas que ainda restavam.

Ele já havia escolhido.

E a família também.

— Eu não vou adiar casamento nenhum — declarou. — Porque ele está cancelado.

Alberto bateu a mão na mesa.

— Você está pensando na repercussão disso? Os jornais de negócios já anunciaram a união das famílias. Os nossos parceiros conhecem Henrique desde criança.

— Então casem vocês com ele.

A sala mergulhou em silêncio.

Beatriz levantou-se, indignada.

— Não fale desse jeito com seu pai!

— Meu pai? — Valentina deu um sorriso triste. — Ontem a senhora deixou bem claro que eu não sou sangue do sangue de vocês. Hoje eu entendi que também não sou prioridade.

Ela pegou a bolsa e caminhou em direção à saída.

Henrique correu atrás dela.

— Espera! Não termina tudo assim.

Valentina virou-se.

— Você me ama?

Ele abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.

Ela insistiu:

— Olha nos meus olhos e diz que me ama.

Henrique desviou o olhar.

Foi a confirmação que faltava.

— Adeus.

Ela saiu da mansão sem esperar resposta.

O Grupo Vasconcelos ocupava um enorme prédio de vidro no centro financeiro da cidade. Valentina chegou alguns minutos atrasada, mas ninguém comentou. Assim que entrou no setor financeiro, percebeu um clima estranho.

As pessoas cochichavam.

Alguns funcionários olhavam para os elevadores privativos.

Sua amiga e colega de trabalho, Clara, aproximou-se rapidamente.

— Você soube?

— Do quê?

— O presidente apareceu.

Valentina sentiu um frio na barriga.

Leonardo estava na empresa.

Ela tentou manter a calma.

— E isso é tão raro assim?

Clara arregalou os olhos.

— Raro? Ele passa meses sem colocar os pés aqui. Quando aparece, ninguém respira direito. Dizem que ele demite diretores inteiros sem alterar a voz.

Valentina lembrou-se do homem ferido na clínica, cercado por carros pretos e seguranças armados.

Não conseguia encaixar aquela imagem com a do empresário frio descrito pelos funcionários.

Enquanto organizava alguns documentos, ouviu o som do elevador executivo se abrindo.

Todo o andar ficou em silêncio.

Os passos eram lentos, firmes.

Ela não queria olhar.

Mas acabou levantando a cabeça.

Leonardo caminhava pelo corredor acompanhado de quatro homens de terno. O ferimento parecia não afetá-lo. Vestia um elegante terno preto, e sua expressão era tão séria quanto na noite anterior.

Ele passou pelos funcionários, recebendo cumprimentos respeitosos.

Quando chegou perto do setor financeiro, seus olhos encontraram os de Valentina.

O tempo pareceu desacelerar.

Ela desviou o olhar imediatamente, lembrando-se do que ele havia dito.

"Se alguém perguntar, você nunca me viu."

Continuou mexendo nos papéis, fingindo concentração.

Então ouviu uma voz grave, firme e impossível de ignorar.

— Senhorita Valentina Moreira.

Ela congelou.

Todo o escritório virou na direção dela.

Clara arregalou os olhos.

— O presidente sabe o seu nome? — sussurrou.

Valentina se levantou devagar.

— Sim... senhor?

Leonardo a observou por alguns segundos.

— Venha até a minha sala.

Os funcionários trocaram olhares curiosos. Alguns até sentiram pena dela. Ser chamada diretamente pelo presidente dificilmente era um bom sinal.

Valentina respirou fundo e o acompanhou.

Assim que a porta do enorme escritório se fechou, ela cruzou os braços.

— O senhor enlouqueceu? Ontem pediu que eu fingisse que nunca o vi, e agora me chama na frente da empresa inteira?

Leonardo caminhou até a enorme janela de vidro, mantendo as mãos nos bolsos.

— Eu precisava confirmar uma coisa.

— O quê?

Ele virou o rosto na direção dela.

— Se alguém aqui sabia quem você era para mim.

Valentina franziu a testa.

— E sabe?

— Não.

Ela soltou o ar, aliviada.

— Ótimo. Então eu posso voltar ao trabalho?

— Ainda não.

Leonardo abriu uma gaveta da mesa e colocou sobre ela um envelope pardo.

— Mandei investigar a sua vida.

Valentina sentiu o coração acelerar.

— O senhor fez o quê?

— Eu sei sobre Henrique. Sei sobre Lívia. Sei que seus pais escolheram ficar ao lado deles.

Ela empalideceu.

— O senhor não tinha esse direito.

— Talvez não.

Ele deu a volta na mesa e parou diante dela.

— Mas, ontem à noite, você salvou a minha vida. E eu não permito que alguém toque no que é meu.

Valentina ficou sem reação.

— Eu não sou propriedade de ninguém.

Desde que entrara na sala, um discreto sorriso apareceu no rosto de Leonardo.

— Ainda não.

Antes que ela pudesse responder, alguém bateu à porta.

Um dos seguranças entrou, visivelmente preocupado.

— Chefe, encontramos o homem que organizou o atentado.

A expressão de Leonardo voltou a ficar fria.

— Está vivo?

— Sim.

— Então leve-o para o galpão. Eu mesmo vou interrogá-lo.

O segurança assentiu e saiu.

Valentina observou a cena em silêncio. Aquela conversa não fazia sentido para o presidente de uma empresa.

Ela olhou para Leonardo e fez a pergunta que a perseguia desde a noite anterior.

— Quem é você de verdade?

Ele sustentou o olhar dela por longos segundos.

Então respondeu, sem qualquer hesitação:

— O homem de quem você deveria ficar longe.

Mas, no fundo, ambos já sabiam que era tarde demais para isso.

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