Capítulo 2 — O Homem Ferido

Valentina sentiu as pernas perderem a força.

As palavras de Lívia ainda ecoavam em sua cabeça.

— Tempo suficiente para você entender que ele nunca foi realmente seu.

Ela olhou para Henrique, esperando que ele negasse, que dissesse que a irmã estava mentindo, que tudo aquilo era um mal-entendido absurdo. Mas ele permaneceu em silêncio, com os olhos baixos, como um criminoso pego em flagrante.

Aquele silêncio destruiu os últimos pedaços do seu coração.

— Então é verdade... — sua voz saiu quase como um sussurro. — Enquanto eu escolhia as flores do nosso casamento, vocês estavam juntos.

Henrique deu um passo em sua direção.

— Valentina, me escuta. As coisas não aconteceram do jeito que você está pensando.

Ela riu. Um riso baixo, amargo, carregado de decepção.

— Existe algum jeito aceitável para um homem trair a noiva com a irmã dela?

Lívia cruzou os braços, completamente à vontade.

— Você sempre teve tudo. A atenção dos nossos pais, a confiança da empresa, um noivo perfeito... Não pode me culpar por ele ter percebido que ama outra pessoa.

Valentina virou lentamente o rosto para a irmã.

Ela havia dividido brinquedos, roupas, segredos e até sonhos com aquela garota. Defendeu Lívia quando os próprios pais a criticavam, ajudou em sua adaptação depois que ela voltou para a família e acreditou que, enfim, tinha conquistado uma irmã.

Era tudo mentira.

— Você podia ter escolhido qualquer homem no mundo — disse, segurando as lágrimas. — Mas escolheu justamente aquele com quem eu ia me casar.

Lívia ergueu os ombros.

— O amor não escolhe.

A frase foi a última gota.

Valentina não respondeu. Apenas pegou a pasta caída no chão e saiu daquele quarto. Atrás dela, Henrique ainda chamou seu nome algumas vezes, mas ela não parou.

Se ficasse ali por mais um minuto, desmoronaria.

Entrou no carro sem saber para onde iria. Ligou o motor e saiu dirigindo pelas ruas da cidade, enquanto as lágrimas finalmente escorriam pelo seu rosto.

Ela não percebeu quanto tempo passou.

Quando deu por si, já estava longe do centro, em uma avenida cercada por antigos galpões industriais. Precisava respirar. Precisava pensar. Precisava encontrar uma maneira de voltar para casa e fingir que ainda tinha forças.

Foi então que um estrondo cortou a noite.

Do outro lado da rua, dois carros pretos surgiram em alta velocidade. Um deles perdeu o controle após uma curva fechada e bateu violentamente contra a grade de um depósito abandonado.

O segundo veículo parou alguns metros atrás.

As portas se abriram.

Três homens desceram correndo, todos vestidos de preto. Mesmo à distância, Valentina percebeu que estavam armados.

Seu coração disparou.

— Meu Deus...

O instinto mandava acelerar e fugir dali. Qualquer pessoa sensata faria isso.

Mas, antes que pudesse reagir, ouviu um disparo.

Depois outro.

Os homens começaram a atirar contra o carro acidentado.

Valentina observou, horrorizada, quando a porta do motorista se abriu com dificuldade. Um homem saiu cambaleando, segurando o próprio abdômen, claramente ferido.

Ele usava um terno escuro, agora manchado de sangue.

Os atiradores correram em sua direção.

Sem pensar, Valentina arrancou o carro e jogou o veículo entre eles e o desconhecido. O som da buzina ecoou pela rua.

Os criminosos se assustaram por um instante.

— Entra! — ela gritou, abaixando o vidro. — Anda logo!

O homem ferido a encarou.

Mesmo sob a luz fraca dos postes, ela conseguiu notar seus olhos escuros, frios e atentos. Não era um olhar de vítima. Era o olhar de alguém acostumado a sobreviver.

Ele abriu a porta do passageiro e entrou.

— Acelera.

Valentina pisou fundo.

Os homens atrás deles voltaram a atirar. Um dos tiros acertou a parte traseira do carro, arrancando um grito assustado dela.

— Eles estão vindo! — disse, olhando pelo retrovisor.

— Eu sei.

A voz do desconhecido era grave, firme e estranhamente calma para alguém que estava perdendo sangue.

Ela fez uma curva brusca e entrou em uma rua estreita. Os pneus cantaram no asfalto molhado. Outro carro surgiu atrás deles, perseguindo-os.

— Quem são eles? — perguntou, com as mãos tremendo no volante.

O homem não respondeu.

Continuou olhando pelo vidro traseiro, calculando a distância entre os veículos.

De repente, tirou uma pequena arma debaixo do paletó.

Valentina arregalou os olhos.

— Você... você está armado?

— Continue dirigindo.

— Meu Deus... em que eu me meti?

Ele virou o rosto para ela.

Mesmo pálido por causa do ferimento, havia algo extremamente intimidador em sua presença. Um tipo de autoridade que não precisava ser explicada.

— Se você parar o carro, eles matam nós dois.

Ela engoliu em seco e continuou.

Depois de alguns minutos de perseguição, o veículo que os seguia desapareceu em uma bifurcação. O homem ao lado observou por mais alguns segundos antes de abaixar a arma.

Valentina soltou o ar preso nos pulmões.

— Acho que... acho que conseguimos.

Nenhuma resposta.

Ela olhou de lado e percebeu que ele estava quase inconsciente. O sangue atravessava o tecido do terno e escorria pelo banco.

— Ei! Você está bem?

Ele fechou os olhos por um instante.

— Não me leve para um hospital.

— O quê? Você levou um tiro!

— Não... hospital.

Ela quase perdeu o controle do carro.

— Você enlouqueceu? Se eu não chamar ajuda, você vai morrer!

Ele segurou o braço dela antes que alcançasse o celular.

O toque foi firme, mas não agressivo.

— Eles vão me encontrar lá.

Aquelas palavras fizeram um arrepio percorrer a espinha de Valentina.

Quem era aquele homem?

Que tipo de vida levava para preferir sangrar até a morte a dar entrada em um hospital?

Ela não conhecia a resposta.

Mas, olhando para aquele rosto marcado pela dor e para a camisa completamente vermelha, percebeu que não conseguiria abandoná-lo.

Respirou fundo e tomou uma decisão impulsiva.

— Eu conheço uma clínica pequena. O dono é um médico aposentado, amigo do meu falecido avô. Ele atende casos particulares e não faz perguntas.

O desconhecido a encarou em silêncio.

— Se você confiar em mim, eu posso salvar a sua vida.

Por alguns segundos, apenas o som do motor ocupou o interior do carro.

Então ele assentiu devagar.

— Meu nome é Leonardo.

Valentina sentiu o coração falhar uma batida.

Leonardo.

O nome era familiar demais.

Ela olhou outra vez para o homem ao seu lado, reparando melhor nos traços fortes, no relógio caro e na postura impecável mesmo ferido.

Não podia ser.

Era impossível.

— Leonardo... Vasconcelos?

Ele não respondeu.

Mas o silêncio foi suficiente.

Valentina apertou o volante com força, completamente atordoada.

O homem que ela havia acabado de tirar da mira de assassinos... era justamente o presidente da empresa onde trabalhava.

E ela ainda não fazia ideia de que, naquela noite, acabara de salvar a vida do homem mais perigoso que já pisaria em seu caminho.

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