O PESO DE UMA PROMESSA

 O Peso de uma Promessa

A madrugada envolvia a Fazenda Luzes da Aurora em um silêncio profundo, quebrado apenas pelo canto distante dos curiangos e pelo vento que atravessava lentamente as copas das figueiras centenárias.

 Da janela do antigo escritório de Marcos Távora, uma luz permanecia acesa muito depois de todos terem recolhido. Sentada na cadeira onde o pai costumava passar horas analisando contas, mapas de pastagens e projetos para a propriedade, Íris segurava a carta que recebera durante a leitura do inventário. 

O papel já apresentava pequenas marcas nas bordas, consequência das inúmeras vezes em que fora aberto e fechado desde a tarde anterior. Ela conhecia cada linha de memória, mas insistia em relê-las, como se, em algum momento, encontrasse entre aquelas palavras uma explicação para a decisão que transformará sua vida em um enigma.

Os olhos voltaram ao trecho em que Marcos dizia para ela jamais perder a confiança nas pessoas. Aquela frase doía mais do que qualquer outra. Depois da traição de Ricardo, confiar novamente parecia impossível. Agora, seu próprio pai lhe pedia que entregasse o futuro ao homem que mais respeitava.

 Não por amor. Não por desejo. Mas por acreditar que Enzo era digno de caminhar ao seu lado. Íris fechou os olhos e levou a carta ao peito. Conhecia o pai o suficiente para saber que ele jamais tomaria uma decisão impensada. Mesmo assim, seu coração se recusava a aceitar um casamento construído sobre uma obrigação.

Do outro lado da casa, Helena permanecia acordada. Passara parte da noite organizando algumas gavetas do quarto, mais para ocupar as mãos do que por necessidade. 

Entre documentos antigos e fotografias, encontrou um pequeno caderno de capa de couro pertencente a Marcos. Não era um diário. Eram apenas anotações soltas sobre a fazenda, funcionários, investimentos e ideias para o futuro. Em várias páginas aparecia o nome de Enzo, sempre acompanhado de observações que demonstravam confiança absoluta:

 —“Entreguei a negociação dos touros ao Enzo." 

—“Só ele conhece esta terra como eu." 

—“Se um dia eu faltar, ele saberá o que fazer." 

Helena fechou o caderno lentamente. Pela primeira vez, começou a compreender que o marido talvez estivesse preparando aquela sucessão muito antes do infarto.

Enquanto a casa permanecia mergulhada no luto, o campo não permitia pausas. Antes mesmo do amanhecer, Enzo já caminhava pelos currais com a prancheta de manejo nas mãos. Conferia a alimentação do rebanho, orientava a vacinação de um lote de novilhas e reorganizava o cronograma da semana. 

Trabalhava com intensidade incomum, como se cada tarefa concluída afastasse por alguns minutos os pensamentos que insistiam em persegui-lo. Os peões percebiam seu esforço, mas respeitavam seu silêncio.

Miguel aproximou-se carregando uma corda enrolada sobre o ombro.

— Seu Enzo, o caminhão da ração chega depois do almoço.

— Confere o depósito antes. Quero sabê exatamente quanto ainda tem.

— Pode deixá.

Miguel hesitou antes de continuar.

— O povo da cidade tá falando muito desse casamento.

Enzo permaneceu olhando para os animais.

— E desde quando conversa de cidade alimenta boi?

Miguel sorriu sem graça.

— Alimentá num alimenta, mas incomoda.

Enzo finalmente voltou o rosto para ele.

— Deixa o povo falá. Nós tem serviço.

Poucos metros adiante, Dona Cida distribuía canecas de café aos trabalhadores. Assim que viu Zeca e Joca cochichando perto do galpão, aproximou-se com as mãos na cintura.

— Ocês dois tão trabalhando ou inventando moda?

Joca coçou a nuca.

— A gente só tava comentando.

— Comentando nada. Tão fazendo fofoca.

Os dois riram.

— Dona Cida, a senhora acha que esse casamento sai mesmo?

Ela ficou séria.

— Eu acho que seu Marcos nunca fez nada sem pensá dez vez antes. Se ele escreveu isso, tinha motivo. E enquanto esse motivo num aparece, o melhor que ocês faz é cuidá do serviço e rezá por essa família.

As palavras encerraram o assunto.

Pouco depois, Íris apareceu caminhando em direção ao centro veterinário. Apesar da noite mal dormida, mantinha a postura firme. Um bezerro recém-nascido precisava ser examinado, e ela se recusava a abandonar suas responsabilidades.

 Enzo observou sua aproximação de longe. Por alguns segundos pensou em ir ao encontro dela, mas desistiu. Qualquer conversa naquele momento apenas aumentaria o constrangimento entre ambos.

Ainda assim, foi ela quem tomou a iniciativa.

— Bom dia.

— Bom dia, dona Íris.

O tratamento formal pareceu erguer um muro invisível entre os dois.

Ela respirou fundo.

— O senhor pretende continuar me chamando assim?

Enzo sustentou seu olhar.

— Acho mais respeitoso.

— Meu pai nunca gostou de distância dentro dessa fazenda.

A frase ficou suspensa entre eles.

Enzo baixou discretamente a cabeça.

— Desculpe Íris.

Pela primeira vez desde a leitura do testamento, ela sorriu de maneira quase imperceptível.

Não era felicidade.

Era apenas o reconhecimento de que ambos estavam tentando atravessar a mesma tempestade.

No fim da manhã, Enzo entregou a administração dos currais a Zeca, entrou na caminhonete e seguiu para Santa Esperança. Durante todo o trajeto repetia para si mesmo que faria a única coisa correta. Marcos merecia ser honrado, mas aquele casamento jamais poderia acontecer.

 Íris era jovem, tinha toda uma vida pela frente e não deveria carregar o peso de um homem marcado pelo passado.

Ao estacionar diante do escritório do doutor Álvaro Menezes, respirou profundamente antes de subir as escadas. Assim que entrou, o advogado levantou-se para recebê-lo.

— Eu imaginei que o senhor viria.

Enzo permaneceu de pé.

— Vim informar que não aceito essa condição. Não vou me casar com a filha do meu melhor amigo.

Álvaro permaneceu alguns segundos em silêncio.

Depois fechou cuidadosamente

a pasta que analisava.

— Antes de formalizar essa decisão, há algo que o senhor precisa saber.

Enzo franziu a testa.

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