Mundo de ficçãoIniciar sessão–– Eba! –– Marlin estava extremamente mais animada com o acordo de companheirismo do que eu –– Agora eu sou companheira de alguém, mesmo que você seja ainda mais fraca do que eu, quer dizer, você é fêmea, né? Eu te dei um nome feminino sem nem ter certeza de que você é fêmea, macho, os dois ou mesmo nenhum deles.
–– Eu sou fêmea e sou uma mulher. Isso pareceu responder a pergunta da garota-cachorro, que ficou caminhando quase em pulos na minha frente, esperando que eu a seguisse. Eu a segui. Chegamos em uma cidade bonita, relativamente grande e bem estruturada para um mundo que vivia sua época medieval como aquele. A arquitetura era muito similar a de uma cidade-estado italiana na época da Renascença, algo como Florença. Entretanto, havia algo que a diferenciava dessas cidades-estado. Seus habitantes. A cidade de nome Solis era habitada, em sua maioria, por monstros –– ou pelo menos, não-humanos, já que também têm elfos, anões, e outros seres não classificados nem como monstros, nem como humanos ––. Podia-se ver várias raças de duendes, como orcs, leprechauns, goblins, hobgoblins, bugbears –– eles são literalmente ursos-abelhas. Um design bem diferente do que eu via nos livros de rpg da minha outra vida –, trasgos e gnomos. Além disso temos outros tipos de monstros com animais, fungos –– na verdade, só algumas pessoas-cogumelo que andam sempre em bando –– e plantas como base da aparência, sendo em sua maioria pessoas-felinos ou pessoas-canídeos –– juro que estou vendo até lobos-guará e onças-pintada. –– Você já deve ter percebido –– Marlin comentou quase sussurrando, o que me surpreendeu, pois antes ela só tinha falado quase gritando –– que tanto a família Fungi quanto os canitech e felinare adolescentes e adultos tem a forma parecida com a minha, não é? De criaturas bípedes e tudo mais, enquanto os outros monstros são quase como os animais normais. –– Os duendes…. –– Eu falei só monstros –– balançou a cabeça, fazendo sinal de silêncio –– Não consideramos os duendes como monstros. Da forma como ela falou, interpretei logo que os duendes não gostavam muito de serem chamados de monstros, diminuindo até o tom de voz, de forma que eu mesmo quase não consegui escutar o que ela disse. Balancei meu focinho para cima e para baixo, de forma a ela entender que tinha compreendido a mensagem. “Informação: Duendes lutaram durante mais de cem anos pelo direito a estarem em um gênero próprio, fora do gênero monstrum. Por isso, chamá-los de monstros apaga toda a luta árdua de seu povo, sendo considerado uma ofensa extremamente grave.” Anotado, Gabby! –– Continuando, isso acontece –– Marlin voltou a falar depois de alguns instantes –– porque apenas felinares e canitechs ganham consciência ao longo da vida. Você é um em um milhão. Você é um alma peregrina, acertei? Claro que acertei. Uma reencarnada de outro mundo. O último igual a você foi o fundador dessa cidade. –– Só falta você me dizer que é um slime que virou um lord demônio –– ri baixinho de mim mesma, pela minha referência otaku –– O nome da cidade não ba - pera - ele é seu parente, não é? O nome da cidade tem o seu sobrenome. –– Sim. Ele era o meu avô, Anúbis Solis. E quanto aos slimes, –– olhou em volta e mostrou vários deles andando lado a lado ou no colo de outros monstros ou de duendes e humanóides –– eles são ótimos pets. São os favoritos dos habitantes de Solis, seguidos por capirunas como você. –– Você estava procurando pets na campina? Ela respondeu com uma risada animada, que tomei como um sim. Seu pai era o líder da cidade e de todo o ducado de Solis, uma das divisões territoriais do reino de Teresia –– o único duque não humano de um dos reinos de Area, que é o nome do nosso continente, como ele mesmo me explicou durante a primeira conversa. –– Um homem de aparência de meia-idade, com os pelos e olhos na mesma tonalidade caramelada que sua filha, com um porte sério, mas doce e gentil. Um verdadeiro líder. De início, mesmo com meu conhecimento sobre teresiano, o duque Solis me tratou como um bichinho de estimação. O apego foi rápido e genuíno, mas ainda era difícil para ele ver uma criatura pensante em um corpo de uma capiruna bebê. Entretanto, um fato aconteceu que mudou sua percepção sobre mim. Eu havia acabado de completar oito meses, o que corresponderia a seis anos humanos –– já era uma capiruna criança há algumas semanas –– Naquele dia eu andava pela casa brincando com um slime que havia sido adotado recentemente por Marlin, quando descobriu que eu sou completamente fascinada por essas gosminhas –– ao contrário do que eu imaginava, a textura deles não é de uma bola cheia de gel, mas é semelhante àquelas massinhas de brincar que tem o mesmo nome no nosso mundo, também chamadas de gelecas, apesar de terem o formato mais consistente, similar ao de um certo anime famoso –– que vinham em várias cores, podendo ser azuis, verdes, amarelas, até multicoloridas. Esse slime era um slime azul, num tom de azul brilhante, metálico. Continuando, eu estava brincando com o Sorriso –– realmente colocamos esse nome no slime. Eu que escolhi –– pela casa dos Solis, quando vi uma cena que achei que nunca mais veria. Uma partida de xadrez, totalmente igual às partidas que eu costumava jogar na minha antiga vida. Os competidores eram o próprio duque Seti Solis e um humano, um enviado do rei Carlos I de Teresia. O duque Solis havia sido preso em uma jogada aparentemente sem escapatória. A mão apoiada em seu queixo indicava que se viu sem saída nenhuma. Ao observar a mesa, percebi que até um jogador de nível mestre internacional teria dificuldades de sair de uma jogada dessas. Entretanto, na minha outra vida, eu era um Grande Mestre. Analisei com cuidado a mesa e as posições de cada peça, então tomando uma decisão. Fiz um chiado para chamar a atenção do duque –– a gente achou melhor eu não ficar falando perto de pessoas de fora do ducado, principalmente humanos, por razões óbvias –– para mim, fazendo-o permitir que eu ficasse em seu colo. De um jeito um pouco destrambelhado, consegui, com meu focinho, indicar a peça que deveria ser movida e para qual posição ele deveria movê-la. Essa mudança inverteu todo o jogo, ocasionando na vitória do papai Solis. –– Isso não é justo –– o enviado fingiu indignação, rindo enquanto fazia carinho no meu pelo –– Você tem uma capiruna da sorte. Não tem como eu competir contra isso. O duque Solis riu junto do enviado, mas já havia entendido que não foi realmente sorte. Desde então, fora do público, ele parou de me tratar como um animal de estimação e começou a me tratar como uma filha. No dia seguinte, eu fiz um teste de nível, que deu que meu nível era o adequado para uma capiruna da minha idade. O duque contratou tutores específicos para o meu nível de poder e conhecimento, começando os treinos e aprendizado. Além de magias e habilidades, também aprendi a história, geografia, geologia, filosofia e sociologia desse continente, chegando até a estudar as cinco grandes religiões que dominavam os reinos locais. Não era dito, nem em geologia nem geografia, se haviam outros continentes naquele mundo além daquele, mas durante minhas aulas, eu vi os escritos de um estudioso do reino de Áboris que disse abertamente que Geia –– como ele chamava o planeta, já que Area é apenas o nome do continente em que estamos –– era redonda e não plana como todos acreditavam. O sábio, Gaminos Gatolei, foi ameaçado de prisão e tortura se não desmentisse aquelas palavras -– Galileu Galilei, corre aqui –– publicamente. Gaminos, no entanto, preferiu a morte do que trair os seus princípios. Vocês provavelmente querem saber o que me foi ensinado, mas não dá para ficar contando tudo se não vai demorar uma eternidade e isso vai virar J.R.R.Tolkien.. O continente de Area possui, no total, cinco grandes reinos que, apesar de monarquias absolutistas, têm suas divisões territoriais para facilitar a organização do controle. Além de Teresia e Áboris, temos também os reinos de Atoin, Maneis e Ciradini. O curioso é que cada país possui sua própria religião, mesmo todos possuindo o mesmo panteão –– cada reino tem sua própria visão de qual deus está realmente no topo de todos –– Os deuses criaram o mundo, e Area era o mundo todo. Não haviam apenas cinco deuses, claro, mas cinco eram os principais. O deus do fogo, Pyr, a deusa do ar, Aēr, o deus da terra, Khthōn, a deusa da água, Hydōr e o deus do amor, Éros –– sim. Exatamente o nome do deus grego primordial do amor –– Até os números tinham um deus para eles –– no caso uma deusa, Mathis –– que, mesmo não fazendo parte dos cinco grandes, foi a ideia arquetípica que mais gostei. As aulas teóricas me fizeram conhecer esse mundo, e o treino físico me fez aumentar a minha evolução para além da minha idade de capiruna. Fui rapidamente aumentando de nível e ganhando habilidades, magias, me desenvolvendo. Em menos de um mês, consegui chegar ao nível necessário para mais uma transformação.






