Mundo de ficçãoIniciar sessão–– Boa noite, senhoras e senhores –– ele disse em voz alta, assim que terminou a música, para todos do salão escutarem –– Duque e duquesa de Solis. Marquesa Solis, estou aqui para pedir a mão da delicada flor chamada Aléssia Solis em casamento, para que se torne minha esposa e futura rainha de Teresia. Condessa Aléssia Solis, a senhorita aceitaria esse meu pedido?
Eu queria sumir do mundo, desaparecer, acordar desse sonho maluco e continuar minha partida de xadrez para me tornar a campeã do mundo. Eu sabia, porém, que isso não aconteceria. Eu não precisei pensar muito tempo antes de dar a resposta. –– Não. Absolutamente, não. –– Como eu imaginava, a senhorita não resistiu aos meus encantos e… –– calou-se ao se tocar da minha resposta –– não? A senhorita disse não? ––V-vossa alteza me desculpe, –– fiz uma reverência, gaguejando pelo constrangimento do pedido repentino –– mas não posso aceitar o seu pedido. –– Como assim não pode aceitar? –– o príncipe parecia pessoalmente e mortalmente ofendido –– Não sou bom o bastante para a senhorita? –– A gente não se conhece –– não sabia como explicar. Não poderia dizer que a mera presença dele me causava desconforto e repulsa –– Essa foi a primeira vez que eu vejo a vossa alteza. Não há possibilidade de eu me apaixonar por alguém sem conhece-lo e muito menos de eu me casar com alguém que não amo. –– Ah. Compreensivo. Isso é muito compreensivo –– ele pareceu aceitar essa explicação –– Então visitarei Solis mais vezes, para que possamos nos conhecer e você se apaixonar por mim. Eu não sei dizer se o ego dele era muito maior do que ele ou se ele não havia entendido as entrelinhas do que eu havia falado. “Resposta: As duas suposições estão corretas.” Se a Gabby disse, está dito. Como prometido, ele voltou muitas vezes nos dois meses seguintes ao baile, e eu sempre conseguia uma forma de evitá-lo todas as ocasiões, com a ajuda do papai e da mamãe Solis, da Marlin e até de cidadãos da cidade que já conheciam o temperamento e gostos do príncipe e por isso entendiam eu não querer nada com ele, mesmo as outras garotas suspirando sempre que ele era mencionado. Com o tempo, ele começou a perceber minha intenção de evitá-lo, e passou a vir menos vezes, até parar totalmente de vir. Isso finalmente fez minha vida voltar ao normal, retornando os estudos, treinos e começando os passeios pela cidade e até por outros vilarejos e pela área rural do ducado, com plantações, criação de gado, etc. Na fazenda do Baronato de Castellis, aprendi a arte da montaria, e ganhei uma égua filhote de presente da Baronesa, que dei o nome de Camélia. Em Castellis eu também pude ver capivaras. Não eram capirunas, eram capivaras mesmo, o animal, não um monstro-capivara como eu. “Informação: Monstros também são animais, assim como humanoides, dracônicos e duendes, entretanto aqui também existem animais iguais aos do mundo de onde veio.” Dracônicos? Esses também não são monstros? “Positivo. Atualmente é considerado monstro apenas seres que, durante a época de crescimento, tem sua evolução em nível interligada ao seu crescimento fisiológico.” Isso faz total sentido, na verdade. Deve ter tido a ver com a luta dos duendes para saírem da classificação monstros. “Afirmativo.” Assim como com os capiruna, Marlin mostrou que também tinha fascínio por capivaras normais, correndo atrás de todas elas para abraçá-las e apertá-las. Ela conseguia ser realmente fofa com aquela animação, apesar de eu saber o quão doloroso era ser “esmagada” pelos braços da garota-cachorro. Também fomos para o litoral, onde passamos alguns dias curtindo todas as praias do reino, entre mergulhos no mar, jogos na areia e noites em volta da fogueira contando histórias e cantando músicas folclóricas. Lá descobri que, apesar de exímios em navegação por rios, o povo de Area tinha pavor do grande Oceano. No litoral havia até pescadores que botaram os barcos na água salgada em busca de peixes, mas ninguém jamais ia muito longe da costa, com medo do que havia em mar aberto. Conhecimento cultural, geográfico e político. Esse foi o objetivo da viagem por Solis. Conhecer e conversar com cada nobre, para saber suas questões e aprender o fazer política daquele mundo, em especial do ducado onde morávamos. Como filhas do duque, nós tinhamos a obrigação de conhecer todo o território e saber dialogar e manusear acordos com os nobres de menor estirpe, além de ter conhecimento de toda a situação do povo que governamos. A nobreza do mundo de onde eu venho não era assim, não. “Informação: A nobreza desse mundo também não é assim. A família Solis é um caso totalmente a parte em toda Area.” Agora está explicado. Faz sentido as pessoas gostarem tanto da gente. Voltamos para a capital depois de seis meses de viagem. A cidade nos recebeu com uma grande festa que durou o dia inteiro –– eu cheguei a me perguntar se para eles tudo era motivo para festa ––, mobilizando toda a cidade, mas ao contrário das anteriores, só o povo da cidade comparecera. Papai Solis organizou um pequeno campeonato de xadrez entre os moradores da cidade, que eu ganhei sem me esforçar muito, mas dei o prêmio para o segundo lugar, já que não precisava dele. Depois disso, mais treinos, mais estudos, partidas de xadrez, aventuras guiadas em masmorras próximas à vila, cartas do príncipe Pito ignoradas e visitas diplomáticas a nobres menores do ducado para enviar ordens do duque e receber solicitações para as regiões. Logo passava primavera, verão, depois outono, inverno, e assim as estações foram se seguindo. Três anos se passaram desde o meu baile de apresentação. Completarei agora quatro anos de vida, que corresponde, em idade humana, à dezoito anos. Era chegada a minha maioridade. Marlin havia casado no ano anterior, então não morava mais com a gente, mas nos víamos frequentemente, já que sempre saíamos juntas para o grande mercado da cidade. Descobri no final do meu primeiro ano na cidade que tinha um lugar onde as pessoas costumavam jogar xadrez. Pouco tempo depois, eu já organizava pequenos campeonatos e dava alguns prêmios aos vencedores, desde pelúcias de slimes, garotas-cogumelo, aranhas e capivaras, até troféus dourados lindos para se colocar em estantes dentro de casa. A cada campeonato, o vencedor ganhava o direito de me desafiar. Até aquela época, nunca tinha sido derrotada. Aquele dia começou estranho. O pai e a mãe tinham assuntos governamentais para resolver, e Marlin precisou ir com o marido para a cidade vizinha resolver uns assuntos de abastecimento, por isso eu estava completamente sozinha no dia do meu aniversário. Bem. Não sozinha, né? Afinal de contas, sempre tenho a Gabby e o Sorriso –– para quem não se lembra, Gabby é o sistema que me acompanha e Sorriso é meu slime azul metálico –– E foi com este que resolvi andar pela cidade naquele dia. Sorriso pulava de alegria por estar ao ar livre, às vezes correndo para brincar com outros slimes que achava pelo caminho. A cidade estava cheia de slimes e capirunas. Passei pela padaria e comprei alguns pãezinhos recheados que fiquei comendo no meio do caminho. –– Feliz aniversário, condessa –– Feliz maioridade, senhorita Aléssia. –– Parabéns pela maioridade, senhorita Solis. –– Felicitações, Mestra Aléssia. Eu já deveria estar acostumada com todo aquele carinho, mas isso ainda soava muito novo para mim. Em toda a minha vida antiga, eu nunca recebera tanto carinho em meus aniversários. Mesmo nas minhas vitórias no xadrez, não havia uma única felicitação, um único parabéns. Na verdade, minha família simplesmente ignorou a minha existência desde que eu comecei a me entender por gente –– eu sei que vocês querem o motivo, mas não quero mais falar disso. Não importa mais –– Cada sorriso, cada desejo de felicidades, cada parabenização, aqueceram meu coração. Eu amei cada cidadão de Solis. Assim como o duque, a duquesa e Marlin, eles eram parte da minha família. Como de costume, eu fui para a Praça da Rainha –– esse é o nome da praça onde eu organizava os pequenos campeonatos de xadrez –– para ver e até jogar algumas partidas. Fiquei um bom tempo observando e fazendo algumas observações certeiras em partidas alheias. Quando percebi, já estava na hora do almoço, e meu estômago começou a roncar. –– Aí estão vocês! –– Marlin corria até a mim e Sorriso, com o marido a seguindo em passos calmos –– Eu estou a meia hora te procurando. A gente quer te mostrar uma coisa. Marlin segurou o slime em um dos braços e, com a mão livre, segurou a minha e começou a correr sem me permitir a chance de falar qualquer coisa em contrário. Os poucos jogadores que estavam na praça comigo nos seguiram por todo o caminho até o ginásio da escola da cidade. Quando entramos, não pude conter a expressão de surpresa no meu rosto. A quadra estava ocupada por um conjunto de vinte uma mesas, quase todas com tabuleiros de xadrez em cima. A única mesa que não tinha um tabuleiro era onde um homem, provavelmente vindo de fora, porque eu não o conhecia, organizava as inscrições. O pai e a mãe pararam o faziam e vieram até nós. O duque bagunçou o meu cabelo. Marlin colocou Sorriso no chão e me deu um abraço. –– Feliz aniversário, baixinha.






