07

Dante De Luca

Acordei com um sobressalto.

Por um segundo achei que ainda estava sonhando.

Mas então ouvi novamente.

Um grito.

Brutal.

Desesperado.

Um daqueles sons que fazem o sangue gelar nas veias.

Sentei na cama tão rápido que quase caí.

Meu coração disparou imediatamente.

- Cora.

O nome dela saiu da minha boca antes mesmo que eu percebesse.

Abri a porta do quarto e saí para o corredor.

O silêncio que veio depois do grito era ainda pior.

Escuro.

Pesado.

Errado.

Desci o olhar para o hall principal da mansão e meu estômago despencou.

Não.

Não.

Não.

Lá estava ela.

Caída no fim da escada.

Imóvel.

Meu coração parou.

Literalmente parou.

- CORA!

Corri.

Nem lembro de ter descido os degraus.

Num instante estava no segundo andar.

No outro já estava ajoelhado ao lado dela.

As mãos tremiam.

Tremiam de verdade.

Afastei delicadamente os cabelos que cobriam seu rosto.

- Cora...

Nada.

Nenhuma resposta.

Meu peito apertou tão forte que doeu.

Toquei sua bochecha.

Fria.

Mas não gelada.

Graças a Deus.

Me aproximei imediatamente verificando sua respiração.

Ela respirava.

Fraca.

Mas respirava.

Fechei os olhos por um segundo.

Só um segundo.

Porque eu senti um alívio tão absurdo que quase me deixou tonto.

- Você quer me matar do coração? - murmurei.

Meu olhar percorreu rapidamente seu corpo procurando algum ferimento.

Não havia sangue.

Nenhum corte aparente.

Nenhuma fratura visível.

Mas aquilo não significava nada.

Ela podia ter batido a cabeça.

Podia estar machucada internamente.

Podia...

"Dante."

A voz da razão finalmente apareceu.

"Não mova ela."

Droga.

Droga.

Droga.

Meu primeiro impulso foi pegá-la no colo.

Levá-la para algum lugar seguro.

Ficar com ela.

Mas eu sabia que não podia.

Se tivesse machucado a coluna...

Se tivesse caído de mau jeito...

Movê-la poderia piorar tudo.

Passei a mão pelos cabelos nervosamente.

- Certo. Certo.

Peguei o celular do bolso imediatamente.

Minhas mãos estavam tremendo tanto que quase deixei o aparelho cair.

- Vamos... vamos...

Disquei o número de emergência.

Enquanto aguardava, meu olhar não saía dela.

Nem por um segundo.

Porque havia uma expressão estranha em seu rosto.

Como se estivesse assustada.

Como se tivesse visto alguma coisa terrível antes de cair.

- Serviço de emergência.

- Preciso de ajuda. - falei imediatamente. - Uma mulher caiu da escada e está inconsciente.

Fui respondendo tudo mecanicamente.

Endereço.

Condição.

Estado da vítima.

Mas minha atenção continuava nela.

Sempre nela.

Quando a ligação terminou, joguei o celular para o lado.

Agora era esperar.

E aquilo era a pior parte.

Porque eu odiava esperar.

Odiava não poder fazer nada.

Odiava me sentir impotente.

Ajoelhei novamente ao lado dela.

- Você é impossível.

Silêncio.

- Sério mesmo.

Nada.

Apenas sua respiração lenta.

Meu peito apertou outra vez.

Porque eu lembrava perfeitamente do momento em que a vi no jardim.

Da forma como ela me encarou.

Da forma como falava.

Da coragem absurda que tinha.

E agora ela parecia tão pequena.

Tão vulnerável.

Tão frágil.

Estendi a mão sem pensar.

Meus dedos tocaram os dela.

Frios.

Inertes.

Uma sensação horrível tomou conta de mim.

Medo.

Medo verdadeiro.

Não o tipo de medo que sentia em reuniões de negócios.

Nem em disputas familiares.

Nem em ameaças.

Era diferente.

Muito diferente.

Era o medo de perder alguém.

E isso me assustou.

Porque eu não deveria sentir isso.

Não tão rápido.

Não por ela.

Não pela noiva do meu irmão.

Mas sentia.

Droga.

Sentia.

- O que você estava fazendo acordada? - murmurei. - Não consegue ficar quieta nem por uma noite?

Minha voz saiu baixa.

Rouca.

Quase carinhosa.

E aquilo me irritou.

Porque mostrava o quanto eu estava envolvido.

Mais do que deveria.

Muito mais.

Observei o rosto dela.

As bochechas.

Os cílios.

Os cabelos espalhados pelo piso.

E uma lembrança me atingiu.

A forma como ela tinha adormecido mais cedo.

A forma como sorriu quando me agradeceu.

A forma como disse meu nome.

Fechei os olhos imediatamente.

Merda.

Não.

Eu precisava parar.

Precisava colocar limites.

Porque esse caminho terminava mal para todo mundo.

Para mim.

Para Otto.

Principalmente para Cora.

Mas toda vez que tentava me afastar...

Acontecia alguma coisa.

Ela surgia.

Sorria.

Falava alguma besteira.

Me fazia rir.

E lá estava eu outra vez.

Completamente ferrado.

Um movimento repentino chamou minha atenção.

- Cora?

Ela gemeu baixinho.

Meu coração disparou.

- Ei.

Aproximei-me imediatamente.

- Cora.

Os cílios dela tremeram.

Depois novamente.

E então seus olhos começaram a abrir lentamente.

Confusos.

Perdidos.

Desorientados.

- Dante...?

Nunca imaginei que ouvir meu nome pudesse causar tanto alívio.

- Estou aqui.

Ela piscou algumas vezes.

- O que aconteceu?

- Você me diz.

Franzi a testa.

- Eu encontrei você caída no pé da escada.

Ela levou uma mão à cabeça fazendo careta.

- Ai...

- Não se mexe.

- Minha cabeça está doendo.

- Eu imagino.

Ela fechou os olhos novamente.

Respirando fundo.

Tentando lembrar.

Então seu rosto perdeu a cor.

Imediatamente.

- Cora?

Os olhos dela voltaram para os meus.

Assustados.

Muito assustados.

Meu estômago afundou.

- O que foi?

Ela demorou alguns segundos para responder.

Segundos longos demais.

- Eu... eu achei que tinha ouvido alguém.

Franzi a testa.

- Alguém?

Ela assentiu devagar.

- Eu acordei porque ouvi barulho no corredor.

Meu corpo inteiro ficou alerta.

- Que tipo de barulho?

- Passos.

O silêncio caiu entre nós.

Pesado.

Estranho.

Porque a mansão deveria estar praticamente vazia.

Alma estava no México.

Otto também.

Judith e Kami tinham saído.

Restavam poucos funcionários.

E nenhum deles tinha motivo para andar pelo segundo andar durante a madrugada.

- Tem certeza?

Ela hesitou.

- Não sei.

- Cora.

- Eu ouvi alguma coisa.

Observei seus olhos.

Ela acreditava nisso.

Não parecia inventando.

Nem sonolenta.

Nem confusa.

Ela realmente acreditava que ouviu alguém.

Uma sensação desagradável percorreu minha espinha.

Porque de repente a queda da escada deixou de parecer apenas um acidente.

E isso não me agradou nem um pouco.

Lá fora, ao longe, ouvi o som das sirenes se aproximando.

Mas meus olhos continuaram presos nos dela.

Porque naquele instante uma única certeza se instalou dentro de mim.

Se alguém tinha assustado Cora...

Ou pior.

Se alguém tinha feito ela cair...

Essa pessoa acabara de criar um problema enorme para si mesma.

Porque eu já não tinha certeza de até onde seria capaz de ir para protegê-la.

{...}

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